A Voz da Verdade

A semana passou como uma neblina na vida de Lucas, os dias se arrastando em um misto de rotina, trabalho e preocupação crescente. Cada manhã, ao acordar, ele olhava para Marina ao seu lado e se esforçava para não pensar na consulta que se aproximava. Era como uma tempestade que ele sabia que viria, mas tentava adiar o máximo possível. Durante o dia, o desconforto em seu estômago continuava a aumentar, e ele fazia de tudo para manter o sorriso no rosto, esconder o suor frio que escorria pelas costas e agir como se tudo estivesse normal.

Finalmente, a sexta-feira chegou. Lucas saiu do trabalho mais cedo, dando uma desculpa qualquer para Thiago e seus outros colegas sobre ter que resolver questões pessoais. Ele caminhou pelas ruas da cidade, o vento gelado batendo em seu rosto, enquanto se dirigia à clínica. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, e o ar ao seu redor parecia mais denso, difícil de respirar.

Ao chegar à clínica, Lucas sentiu seu coração acelerar. A recepção era simples, com cadeiras alinhadas ao longo da parede e uma música instrumental tocando baixinho ao fundo. Ele se aproximou do balcão, onde uma atendente com um sorriso suave pediu que ele preenchesse uma ficha de cadastro. Suas mãos tremiam levemente enquanto escrevia suas informações. Ao devolver o formulário, ela o conduziu até a sala de espera, indicando que o médico o chamaria em breve.

O tempo ali dentro parecia se arrastar, cada segundo ecoando como uma batida alta em sua mente. Lucas se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e entrelaçando os dedos, tentando respirar fundo, se acalmar. Ao redor, outras pessoas esperavam também, mas ele não conseguia focar em nenhum rosto. Tudo parecia embaçado.

Após o que pareceu uma eternidade, uma enfermeira chamou por seu nome.

— Lucas Bastos? O doutor já vai te atender. Pode me acompanhar, por favor.

Lucas se levantou lentamente, sentindo como se estivesse caminhando para o corredor de um tribunal, onde seria julgado por algo que ele ainda não entendia. A enfermeira o conduziu por um corredor estreito até uma porta branca, na qual ela bateu duas vezes antes de abrir.

— Doutor Henrique, este é o paciente Lucas. — Ela anunciou, e em seguida fechou a porta, deixando Lucas sozinho na pequena sala com o médico.

O consultório era simples, com paredes brancas, diplomas emoldurados pendurados e um quadro de paisagem na parede. O doutor Henrique era um homem de meia-idade, com cabelo grisalho e óculos que escorregavam pelo nariz enquanto ele revisava alguns papéis em sua mesa.

— Boa tarde, Lucas. — disse ele, com um sorriso gentil enquanto se levantava para apertar a mão de Lucas. — Pode se sentar. Vamos conversar um pouco.

Lucas obedeceu, tentando manter a calma enquanto o médico se sentava do outro lado da mesa.

— Então, me conte, o que te traz aqui hoje? — O doutor Henrique perguntou, ajustando os óculos e pegando uma caneta para anotar.

Lucas respirou fundo. — Eu... tenho sentido dores abdominais há algumas semanas. Começou como uma dor leve, mas ultimamente tem ficado mais forte, mais constante. Achei que fosse só estresse no começo, mas... está piorando.

O médico acenou com a cabeça, fazendo anotações. — Entendo. Vamos investigar isso. Vou fazer algumas perguntas para tentar entender melhor seus sintomas e, em seguida, vou pedir alguns exames. Pode ser?

Lucas assentiu, concordando com a abordagem cuidadosa do médico. As perguntas começaram simples: há quanto tempo ele sentia a dor, se era constante ou intermitente, se havia outros sintomas como perda de peso ou fadiga. Lucas respondeu a cada pergunta, tentando não demonstrar o quanto estava ansioso. Cada resposta parecia uma confirmação de algo sombrio, algo que ele não queria admitir.

Após a conversa inicial, o doutor Henrique se levantou e indicou uma maca ao lado da sala.

— Gostaria de examiná-lo agora, Lucas. Por favor, deite-se ali.

Lucas obedeceu, deitando-se na maca, com as mãos trêmulas ao lado do corpo. O médico começou a examiná-lo, pressionando suavemente seu abdômen em diferentes pontos, perguntando se sentia dor. A cada toque, a tensão de Lucas aumentava, e ele tentava não reagir, mesmo quando a dor se intensificava em alguns pontos específicos.

O exame foi breve, mas o olhar concentrado do médico não passou despercebido por Lucas. Havia algo ali, uma sombra de preocupação por trás do semblante profissional.

— Bem, Lucas... — disse o doutor Henrique, voltando para sua mesa e fazendo algumas anotações. — O exame físico me dá algumas pistas, mas para termos certeza do que está acontecendo, preciso de exames mais específicos. Vamos solicitar uma ultrassonografia abdominal e alguns exames de sangue. Isso nos dará uma visão mais clara do que pode estar causando essas dores.

Lucas engoliu em seco, assentindo lentamente. — E... quanto tempo demora para termos esses resultados?

— Vamos tentar agendar a ultrassonografia o mais breve possível, talvez nos próximos dois dias. Os exames de sangue saem em alguns dias. Sei que isso é angustiante, mas é importante fazermos tudo com calma para termos um diagnóstico preciso. — O médico disse, tentando manter o tom tranquilizador. — Vou encaminhar você para a recepção, onde agendaremos tudo. Qualquer dúvida, estou à disposição.

Lucas agradeceu e saiu da sala, sentindo como se estivesse saindo de uma tempestade apenas para entrar em outra. Na recepção, a atendente agendou seus exames com rapidez, e ele deixou a clínica carregando um papel com as instruções e horários marcados. O papel parecia pesar uma tonelada em suas mãos.

Lá fora, a noite já tinha caído, e a chuva fina havia voltado a cair. Lucas caminhou pelas ruas quase desertas, tentando organizar seus pensamentos. Cada passo soava como uma batida surda contra a calçada, o som das gotas de chuva misturando-se ao caos em sua mente. Ele não sabia o que esperar dos exames, mas algo dentro dele temia o pior.

Ao chegar em casa, Marina já o esperava. Ela estava na cozinha, terminando de preparar o jantar, e ao vê-lo entrar, correu para abraçá-lo. Lucas a segurou por um longo momento, fechando os olhos e tentando absorver o máximo daquela sensação, daquela paz que ela transmitia.

— Amor, você está tão molhado! — Ela disse, rindo enquanto o soltava. — O que aconteceu? Saiu correndo na chuva?

— É... algo assim. — Lucas respondeu, tentando manter a voz firme. Ele pendurou o casaco molhado no cabideiro ao lado da porta e sorriu para Marina. — Como foi o seu dia?

— Ah, normal... as crianças na escola estavam agitadas hoje. Acho que é o tempo frio. — Marina voltou para a cozinha, mexendo em uma panela enquanto falava. — Estou fazendo aquela sopa que você gosta. Vai nos aquecer desse tempo gelado.

Lucas se aproximou, abraçando-a por trás e apoiando o queixo no ombro dela. — Obrigado... por sempre me aquecer, mesmo quando eu não mereço.

— Você merece tudo, amor. — Ela respondeu, inclinando-se para ele e fechando os olhos por um instante, como se estivessem congelando o momento no tempo.

Enquanto a sopa fervia no fogão, eles ficaram ali, abraçados, perdidos no som suave da chuva lá fora. Lucas sabia que não poderia esconder a consulta e os exames por muito tempo, mas aquela noite, ele decidiu manter o silêncio. Pelo menos por algumas horas, ele queria que tudo fosse como sempre tinha sido. Apenas os dois, juntos, compartilhando uma vida que parecia tão perfeita.

Mas mesmo ali, ao lado de Marina, ele não conseguia afastar o medo do que estava por vir. O silêncio era preenchido pelo eco da palavra que ele tentava não pensar, mas que o assombrava desde o início: câncer.

E ele sabia que, uma vez que aquela palavra fosse confirmada, nada mais seria como antes.

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