Detalhes no Silêncio

O barulho dos talheres contra os pratos se misturava com as risadas e conversas animadas que preenchiam o restaurante onde Lucas e Marina estavam reunidos com os pais dela. Era uma noite especial, um jantar para discutir os detalhes do casamento, algo que eles faziam semanalmente. Todos estavam envolvidos nos planos para a grande cerimônia, e Marina, com sua empolgação característica, falava sobre flores, música e a cerimônia que teria vista para o mar.

— Acho que margaridas seriam perfeitas para os arranjos. — disse ela, gesticulando com a mão para ilustrar como imaginava cada mesa decorada. — São simples, mas têm um charme que combina com a praia. Além disso, vão ser fáceis de combinar com o resto da decoração.

— Elas vão ficar lindas, querida. — A mãe de Marina, dona Regina, concordou enquanto tomava um gole de vinho. — E você, Lucas? Alguma preferência de flores ou só vai deixar a Marina decidir tudo?

Lucas deu uma risada suave, olhando para Marina. — Bem... eu confio totalmente nas escolhas dela. Desde que ela esteja feliz, tudo vai estar perfeito para mim. — Ele falou com sinceridade, o olhar cheio de admiração. Ele se apoiou na cadeira, observando a conversa entre Marina e seus pais fluir com leveza e alegria. Eram aquelas pequenas interações que faziam cada momento parecer mais próximo, como se a família toda estivesse se tornando uma só, unida pelo casamento que se aproximava.

Mas enquanto todos discutiam sobre flores e convites, a mente de Lucas, por mais que tentasse se concentrar, voltava para o desconforto que vinha sentindo nos últimos dias. A dor sutil que o atormentava parecia estar se tornando mais persistente. Mesmo ali, sentado, rodeado de risos e pessoas queridas, ele sentia como se um peso invisível estivesse pressionando seu corpo, uma presença constante que ele tentava, sem sucesso, ignorar.

— Lucas, você está bem? — A voz de dona Regina interrompeu seus pensamentos, trazendo-o de volta ao presente. Ela o olhava com um sorriso, mas havia uma leve preocupação em seus olhos.

Lucas se endireitou rapidamente, abrindo um sorriso para disfarçar. — Sim, sim, claro. Só... estava pensando nos detalhes que a Marina falou sobre o casamento. — Ele se forçou a parecer mais envolvido, mergulhando na conversa sobre o buffet, as músicas que tocariam e como fariam a festa ser inesquecível.

Mas Marina o conhecia bem demais. E enquanto ele falava sobre detalhes do casamento, ela percebeu que havia algo estranho em seu olhar. Lucas estava presente, mas sua mente parecia estar em outro lugar, como se uma nuvem cinzenta pairasse sobre ele, escondendo algo que ele não queria revelar.

Quando o jantar acabou, eles se despediram dos pais dela, que voltaram para casa animados com todos os planos discutidos. Marina e Lucas caminharam juntos pelas ruas iluminadas, mãos entrelaçadas, mas em silêncio. O barulho da cidade ecoava ao redor deles — o som de carros passando, pessoas conversando enquanto caminhavam, o sussurro suave do vento balançando as árvores — mas Marina se sentia envolta em um silêncio profundo. Ela olhava para Lucas, mas ele parecia distante, como se algo dentro dele estivesse lutando para não transparecer.

Ela parou de repente, puxando o braço dele para que ele parasse também. Lucas a olhou surpreso, a testa franzida. — O que foi?

— É você que tem que me dizer o que foi. — Marina respondeu, a voz suave, mas carregada de preocupação. Ela tocou o rosto dele, correndo o polegar ao longo de sua mandíbula. — Eu conheço você. Sei que algo está errado... Você está estranho nos últimos dias, distante. Se tem algo acontecendo, eu quero saber. Quero estar ao seu lado.

O mundo ao redor deles parecia parar por um instante. Lucas sentiu um aperto no peito que não era apenas físico. Ele queria, desesperadamente, abrir o coração para ela, contar sobre a dor que vinha sentindo, sobre a preocupação crescente que ele tentava afastar. Mas como ele poderia fazer isso? Como destruir os sonhos que estavam construindo juntos, como interromper a felicidade que ambos sentiam por algo que ele ainda nem entendia completamente?

Ele sorriu, um sorriso forçado, mas tentou parecer natural. — Marina... eu só estou cansado. O trabalho tem sido puxado, você sabe... e acho que toda essa coisa do casamento está me deixando mais nervoso do que eu esperava. — Ele riu baixinho, tentando tornar tudo uma piada. — Quem diria que planejar um casamento seria tão estressante, né?

Ela estreitou os olhos, claramente não convencida, mas decidiu confiar nele. — Se estiver sendo demais para você, podemos desacelerar, sabe? Não precisamos ter pressa, podemos ir mais devagar. O importante é você estar bem.

Lucas sentiu uma pontada de culpa. A preocupação dela só aumentava a pressão que ele sentia. Ele queria tanto dizer a verdade, mas a ideia de ver a felicidade nos olhos dela se transformar em medo o paralisava. Então ele apenas apertou a mão dela com mais força e a puxou para si, envolvendo-a em um abraço longo.

— Eu vou ficar bem. — Ele sussurrou em seu ouvido, tentando, ao menos por aquele momento, acreditar em suas próprias palavras.

Caminharam juntos até a entrada do prédio de Lucas, onde ficaram parados, olhando um para o outro. Marina o encarou por um momento, como se tentasse ler o que estava por trás daquele sorriso sereno que ele mantinha. Mas ela suspirou e se afastou lentamente, segurando a mão dele até que seus dedos se soltassem.

— Amanhã vamos juntos ao lugar dos convites, ok? — Ela disse, tentando manter a leveza. — A gente pode passar o dia todo discutindo sobre as fontes, papéis e como o nosso convite vai ser o mais bonito que nossos amigos já viram.

— Combinado. — Lucas respondeu, tentando parecer tão entusiasmado quanto ela. — Vamos fazer o convite mais lindo que esse mundo já viu.

Ele ficou ali parado na porta do prédio, vendo Marina se afastar até sumir na esquina. A noite estava calma, mas ele se sentia como se estivesse à beira de um precipício, onde a qualquer momento a sensação de estabilidade que ele tentava manter poderia desmoronar.

Assim que entrou em seu apartamento, o silêncio se tornou ainda mais pesado. Ele deixou as chaves caírem na mesinha ao lado da porta e foi direto para o banheiro, onde lavou o rosto e se encarou no espelho. O homem que ele via ali era alguém que estava lutando, mas sem saber ao certo contra o quê.

Lucas sentiu a dor voltar. Dessa vez, foi mais aguda, irradiando pelo abdômen como uma corrente elétrica. Ele fechou os olhos, segurando o balcão com força até que seus dedos ficassem brancos. O ar parecia difícil de puxar, e ele se forçou a respirar fundo, a manter o controle.

Ele sabia que não poderia ignorar aquilo para sempre. Sabia que precisava de respostas, mas as respostas significavam admitir que algo estava errado, e ele não queria fazer isso. Não ainda. Não enquanto tinha a chance de viver os últimos momentos de paz ao lado de Marina, fingindo que o futuro ainda era uma estrada infinita, cheia de sonhos e esperanças.

Ele se afastou do espelho e foi até a sala, pegando o celular. Ficou por alguns segundos olhando a tela, até finalmente abrir o aplicativo de mensagens e mandar uma curta mensagem para Marina.

> "Te amo. Obrigado por ser tudo para mim."

Ele apertou o botão de enviar, sentindo uma onda de alívio ao ver que ela estava online e respondeu quase imediatamente.

> "Eu também te amo, meu amor. Para sempre."

Lucas sorriu, fechando os olhos por um instante, sentindo o calor daquelas palavras. Para sempre. Ele queria acreditar nisso com todas as forças. Mas para sempre, ele sabia, era apenas uma ideia bonita. E uma ideia que ele temia não poder cumprir.

Naquela noite, Lucas deitou-se no sofá da sala, olhando para o teto. Lá fora, a cidade parecia continuar viva, mas dentro dele, algo estava morrendo.

E ele ainda não sabia como dizer isso a ninguém.

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