Fingindo a Vida

O sol nascia atrás das persianas do quarto, espalhando feixes de luz pela cama, mas para Lucas, a manhã chegava com uma estranha sensação de desespero. Ele olhou para Marina, adormecida ao seu lado, e se perguntou como seria a última vez que a veria dormir assim, tão despreocupada e alheia à dor que estava por vir. Fechou os olhos por um instante, tentando afastar esses pensamentos, mas eles eram persistentes, como fantasmas que se recusavam a deixá-lo em paz.

Nos últimos dias, a dor em seu estômago tinha se tornado uma presença constante, uma companheira cruel que lembrava a Lucas o que ele estava escondendo. Às vezes, a dor era tão intensa que ele precisava se apoiar nos móveis para não cair. Mas ele sempre se recompunha, sempre escondia, sempre tentava manter a fachada de que estava bem. Marina merecia isso. Ela merecia a ilusão, ao menos até o momento em que ele não pudesse mais segurá-la.

Ele se levantou da cama devagar, tentando não acordá-la, e foi até a cozinha. O ritual matinal do café e das torradas ainda era uma tentativa de trazer alguma normalidade ao caos que estava vivendo. Enquanto o café era preparado, ele olhava pela janela, observando a cidade que se agitava lá fora, sentindo-se cada vez mais desconectado de tudo ao seu redor.

Marina apareceu na porta da cozinha, o cabelo desgrenhado e um sorriso ainda sonolento nos lábios. — Bom dia, meu amor. — Ela disse enquanto se aproximava para beijá-lo, um beijo suave, quente, como se a normalidade fosse possível.

— Bom dia. — Lucas respondeu, tentando sorrir de volta. Ele a puxou para um abraço, prendendo-a contra seu peito, sentindo o calor dela contra o próprio corpo. O simples fato de tê-la ali, de saber que ela estava bem, era a única coisa que lhe dava forças para seguir em frente.

— Você parece cansado... — Marina comentou enquanto se afastava para pegar a caneca de café que ele havia servido. — Ainda está sobrecarregado com o trabalho? Porque se estiver, a gente pode dar uma desacelerada nos preparativos do casamento. Sei que tem sido muito pra você.

Lucas balançou a cabeça, tentando aliviar a preocupação dela. — Não é isso... É só que tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, sabe? Mas não se preocupe. Eu vou ficar bem. — Ele sabia que essa frase estava se tornando um mantra vazio, mas não conseguia parar de repeti-la. Era uma mentira que ele precisava acreditar para continuar.

Marina se aproximou e segurou o rosto dele com carinho, observando-o com atenção. — Você tem certeza? Porque... eu sinto que você está diferente, Lucas. E eu fico preocupada, sabe? Eu só quero que você esteja feliz, que a gente esteja bem. E se algo estiver errado, eu preciso saber.

Lucas segurou as mãos dela e as apertou. — Eu estou feliz, Marina. — Ele mentiu, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos. — E eu prometo que vou ficar bem. Vamos focar no casamento, no nosso futuro... É isso que importa agora.

Ela suspirou, ainda desconfiada, mas assentiu. — Tudo bem. Mas eu estou aqui, ok? E não quero que você se sinta sozinho.

Lucas a beijou, tentando silenciar qualquer dúvida que ela pudesse ter. Eles passaram o café da manhã juntos, discutindo detalhes do casamento, como a lista final de convidados e a escolha das flores para a cerimônia. A normalidade daquela conversa era quase terapêutica para ele, uma distração que o fazia esquecer, mesmo que por um breve momento, a sombra que pairava sobre eles.

Depois do café, Lucas se preparou para ir ao trabalho. Ele se olhou no espelho antes de sair, encarando seus próprios olhos e vendo o cansaço profundo que se escondia neles. O homem que o olhava de volta parecia alguém diferente, alguém que ele mal reconhecia. "Eu preciso ser forte", pensou, respirando fundo antes de sair de casa e entrar na rotina de mais um dia.

 

No escritório, Lucas fazia o possível para manter a concentração, para parecer tão envolvido nos casos quanto sempre foi. Mas Thiago continuava observando-o com preocupação. O amigo estava cada vez mais convencido de que algo sério estava acontecendo, e em mais de uma ocasião tentou fazê-lo falar sobre isso. Mas Lucas sempre se esquivava, mudando de assunto ou dando desculpas vagas sobre "estresse no trabalho".

— Cara, eu não sei o que está rolando, mas você não é mais o mesmo. — disse Thiago em um final de tarde, depois que todos os outros colegas já haviam saído e eles estavam sozinhos na sala. — Não é só trabalho. Tem algo mais. E se você não quiser falar sobre isso, tudo bem. Mas saiba que estou aqui, tá bom? Não precisa carregar esse peso sozinho.

Lucas desviou o olhar, encarando a pilha de documentos sobre sua mesa. O apoio de Thiago era importante para ele, mas quanto mais se aproximava o momento de encarar a verdade, mais ele queria se afastar de tudo e de todos, manter a distância que o segredo exigia. — Valeu, Thiago. Mas... eu vou resolver isso. Preciso só de um tempo. — Ele disse, e logo mudou o assunto para um dos casos da firma, evitando qualquer brecha para falar sobre sua própria vida.

Naquela noite, ele saiu do trabalho e foi direto para um bar próximo. O lugar era escuro e silencioso, cheio de pessoas que pareciam tão perdidas quanto ele. Lucas se sentou no balcão e pediu um uísque, algo que ele raramente fazia. O álcool queimou enquanto descia pela garganta, trazendo uma sensação momentânea de entorpecimento. Ele queria esquecer. Queria se perder, ao menos por algumas horas.

Enquanto tomava o segundo drink, o telefone vibrou no bolso. Era Marina, perguntando se ele já estava voltando para casa. Lucas olhou para a tela por um longo momento antes de responder.

> "Estou terminando algo no trabalho. Chego em breve."

Ele tomou o último gole, deixando o copo vazio sobre o balcão, e saiu do bar. A noite estava fria, e o vento cortava seu rosto enquanto ele caminhava pelas ruas quase desertas. O silêncio da cidade parecia ecoar dentro dele, e cada passo era como uma batida surda de um relógio que marcava o tempo que ele sabia estar se esgotando.

Ao chegar em casa, Marina o esperava no sofá, um livro nas mãos e uma expressão de preocupação no rosto. Quando ele entrou, ela largou o livro e correu para abraçá-lo. — Senti sua falta... Você demorou hoje.

— Eu sei, desculpa... — Lucas murmurou enquanto a segurava contra o peito, tentando ignorar o nó em sua garganta.

Eles ficaram ali por um longo momento, abraçados, e ele sentiu como se estivesse segurando algo precioso, algo que ele estava prestes a perder. Ele queria dizer a verdade, queria queimar aquela mentira que os envolvia, mas o medo do que viria depois era paralisante. Ele precisava de mais tempo. Mais tempo para fingir que tudo estava bem, mais tempo para se preparar para o momento em que tudo desmoronaria.

Depois do abraço, eles jantaram juntos. A conversa era superficial, repleta de detalhes sobre o dia dela, sobre as crianças da escola e os preparativos do casamento. Marina fazia o possível para manter o clima leve, e Lucas tentava corresponder, tentando rir, tentando manter o sorriso, tentando viver naquele presente ao invés de pensar no que viria depois.

Quando a noite terminou, eles se deitaram juntos na cama, mas Lucas não conseguiu dormir. Ele ficou olhando para o teto, a mente girando em um turbilhão de pensamentos e emoções. Marina adormeceu ao seu lado, e ele a observou dormir, sentindo a culpa o devorar por dentro. Cada batida do relógio ao lado da cama parecia um lembrete do tempo que estava acabando, e ele sabia que não poderia continuar escondendo o segredo por muito mais tempo.

Mas naquela noite, ele se permitiu ao menos um pouco de paz. Ele se virou, abraçando Marina enquanto ela dormia, sentindo o cheiro dos cabelos dela, o calor de seu corpo. E ele prometeu a si mesmo, mesmo que fosse uma promessa vazia, que encontraria uma forma de protegê-la.

Porque, no final, tudo o que ele queria era viver mais um dia ao lado dela. Mesmo que fosse apenas mais um dia de mentira.

 

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