Segredos Entre Lágrimas

O caminho de volta para casa parecia um labirinto sem saída. Lucas andava pela cidade como se estivesse preso dentro de uma bolha, alheio ao movimento, ao barulho dos carros e das pessoas ao redor. As palavras do médico ainda ecoavam em sua mente — "câncer", "tumor", "grave". A certeza sobre a doença queimava em sua mente como uma marca ardente, e ele sabia que não poderia continuar ignorando a realidade. No entanto, também sabia que ainda não tinha forças para falar com Marina. O peso da verdade parecia muito grande, algo que poderia esmagar ambos.

Quando chegou à porta do apartamento, ele respirou fundo, tentando preparar-se para o que estava por vir. Como ele poderia esconder algo tão grande, tão devastador? Como poderia fingir estar bem quando tudo dentro dele estava desmoronando? Mas ele sabia que, pelo menos por enquanto, precisava manter o segredo. Precisava proteger Marina, ao menos até encontrar um jeito de entender tudo aquilo.

Ele abriu a porta devagar, entrando no apartamento silenciosamente. Marina estava na cozinha, cortando legumes para o jantar. Ao ouvi-lo entrar, ela se virou, um sorriso automático no rosto, mas que logo se desfez ao ver a expressão dele.

— Lucas, você está encharcado! O que aconteceu? — Ela se aproximou rapidamente, segurando o rosto dele com as mãos e procurando por alguma resposta nos olhos dele. — Você... você não foi trabalhar hoje, não é?

Ele tentou sorrir, mas o gesto saiu forçado, sem emoção. — É... resolvi tirar o dia de folga. Precisava... pensar.

Marina olhou para ele com preocupação. Era visível que ela estava tentando entender o que estava acontecendo. — Quer falar sobre isso? — Ela perguntou com a voz baixa, como se estivesse pisando em terreno desconhecido.

Lucas olhou para ela, os olhos marejados. Ele queria tanto contar a verdade, dividir aquele peso, mas as palavras não saíam. Ele sabia que se falasse, não haveria como voltar atrás. O mundo deles mudaria para sempre. Ele se afastou, passando por ela e caminhando até o banheiro. — Só preciso tomar um banho, ok? — Ele disse rapidamente, fechando a porta antes que ela pudesse responder.

Ele ligou o chuveiro e a água quente escorreu pelo seu corpo, misturando-se com as lágrimas que ele finalmente deixou cair. O som da água caindo abafava os soluços, e ele pressionou as mãos contra a parede fria, tentando manter-se firme. Mas a dor, a angústia, a sensação de desespero, eram impossíveis de conter.

Enquanto estava ali, sob o chuveiro, tentando limpar a tristeza, ele tomou uma decisão. Pelo menos por enquanto, ele manteria o segredo. Não sabia se era a decisão certa, mas era a única que conseguia tomar. Ele precisava de tempo para processar, para entender como lidar com a doença, antes de colocar toda essa carga sobre Marina. Talvez, se mantivesse o segredo por mais alguns dias, pudesse encontrar uma forma de minimizar a dor.

Quando finalmente saiu do banho, já mais controlado, encontrou Marina sentada no sofá, abraçando as pernas, claramente preocupada. Ela o observou enquanto ele se aproximava, secando o cabelo com uma toalha e se esforçando para parecer normal.

— Desculpa... — Ele murmurou, sentando-se ao lado dela. — Só estou com a cabeça cheia. Tem muita coisa acontecendo no trabalho, e... talvez eu não esteja sabendo lidar muito bem com isso.

Marina estendeu a mão, tocando a dele. — Você sabe que pode falar comigo sobre qualquer coisa, não sabe? Eu estou aqui, Lucas. Sempre estive.

Ele apertou a mão dela, sentindo o calor reconfortante daquela presença. E, por um momento, ele quis contar tudo. Quis falar sobre a dor, sobre o medo, sobre a morte que ele sabia que estava rondando sua vida. Mas então, ele olhou nos olhos dela, tão cheios de amor e confiança, e não conseguiu.

— Eu sei. — Ele respondeu simplesmente, forçando um sorriso. — Mas vai ficar tudo bem. Prometo.

Ela suspirou, e mesmo que ele soubesse que ela não estava convencida, ela não insistiu. Eles jantaram juntos, conversando sobre amenidades — os planos para o casamento, as flores que precisavam escolher, o menu que precisavam confirmar com o buffet. Marina tentava trazer leveza à conversa, fazendo perguntas sobre detalhes e brincando sobre como ele seria "o noivo mais chique da cidade". Lucas tentava corresponder, mas era difícil manter o sorriso, difícil fingir que tudo estava perfeito quando o desespero parecia estar devorando-o por dentro.

Depois do jantar, Marina insistiu para que assistissem a um filme juntos, algo leve e engraçado para afastar o clima pesado que pairava sobre eles. Ela se aninhou ao lado de Lucas no sofá, e ele a envolveu em um abraço, sentindo o calor dela contra seu peito. Enquanto as cenas do filme passavam diante deles, ele tentava se focar na tela, no riso de Marina, mas sua mente continuava voltando para o diagnóstico, para o futuro incerto que ele enfrentava.

Por um momento, enquanto a cabeça de Marina descansava sobre seu ombro, ele se perguntou o que seria mais cruel: contar a ela a verdade e vê-la desmoronar, ou continuar escondendo a doença, deixando-a viver na ilusão de um futuro que poderia nunca chegar.

E então, algo o fez tomar uma decisão. Ele olhou para Marina, o rosto dela relaxado, sorrindo com a cena do filme, e ele soube que não podia deixá-la sofrer. Ao menos, não ainda. Ele precisava manter aquela felicidade viva por mais algum tempo, precisava proteger aquele sorriso que iluminava seus dias. Lucas encostou a cabeça de leve na de Marina, fechando os olhos e respirando fundo.

“Vai ficar tudo bem”, ele disse para si mesmo, tentando acreditar. “Eu vou encontrar uma forma de resolver isso. Mas, por enquanto, vou manter o segredo.”

Naquela noite, depois que o filme terminou, eles foram para a cama, e Lucas segurou Marina enquanto ela adormecia. Ele ficou acordado por horas, olhando para o teto, pensando em tudo o que estava prestes a perder. Quando o sono finalmente veio, foi inquieto, cheio de sonhos sombrios e vazios que o deixaram ainda mais cansado.

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Os dias seguintes passaram como um borrão. Lucas tentou manter a rotina, indo ao trabalho, ajudando Marina com os preparativos do casamento, e fazendo tudo o que podia para agir como se estivesse tudo normal. Mas, a cada dia que passava, a sombra da doença parecia se tornar maior, mais sufocante. A dor abdominal se intensificava, e havia dias em que ele mal conseguia se concentrar. Ele tinha medo de Marina perceber, de ver além das mentiras que ele construíra, mas ele se forçava a esconder tudo, a engolir a dor e fingir que estava tudo bem.

Thiago, seu melhor amigo na firma, continuava preocupado, tentando entender o que estava acontecendo com ele. Em um dos dias no escritório, Thiago entrou na sala de Lucas sem avisar, o semblante sério.

— Lucas, você não está legal. E não me venha com essa desculpa de que é só trabalho, porque eu sei que tem algo mais. — Ele se sentou de frente para Lucas, os olhos fixos nos dele. — Eu sei que você não gosta de falar sobre seus problemas, mas... se precisar de ajuda, eu estou aqui, cara.

Lucas passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer arranhar seus dedos. Ele queria contar, queria dividir aquele peso com alguém, mas tinha medo de que uma vez que ele começasse, não conseguiria parar. — Thiago, eu... só estou passando por um momento complicado. Mas vou ficar bem. — Ele disse, tentando soar convincente.

Thiago observou por um longo momento, mas finalmente suspirou e assentiu. — Tudo bem. Mas se mudar de ideia, sabe onde me encontrar. — Ele deu um tapinha nas costas de Lucas e saiu, deixando-o sozinho na sala.

Os dias se transformaram em semanas, e a consulta de acompanhamento com o doutor Henrique estava marcada para breve, onde discutiriam a biópsia e os próximos passos do tratamento. Lucas sabia que não poderia adiar a verdade por muito mais tempo, mas ele também sabia que enquanto pudesse, manteria o segredo. Não queria quebrar a vida que ele e Marina estavam construindo juntos, não queria roubar a felicidade dela.

E enquanto o relógio marcava o tempo que ele sabia estar acabando, ele se agarrou à esperança de que, por mais um dia, poderia manter aquele sorriso nos lábios dela.

Mesmo que fosse apenas uma ilusão.

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Comments

Grace 🌻🌷

Grace 🌻🌷

😓😓🥺🥺🥺🥺

2024-10-11

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