Lucas acordou sentindo uma onda de exaustão, como se a noite inteira tivesse sido uma batalha contra o próprio corpo. Ele havia adormecido tarde, e o sono estava cada vez mais inquieto, repleto de sonhos confusos e pensamentos dolorosos sobre o futuro que ele estava evitando encarar. Ele se forçou a sair da cama, escondendo qualquer traço de sofrimento que pudesse preocupar Marina, que ainda dormia tranquila.
Enquanto se preparava para mais um dia, Lucas olhou para a agenda em seu celular. Tinha uma consulta importante com o doutor Henrique ao final da tarde, e ele sabia que qualquer informação que recebesse ali poderia mudar o rumo de tudo. Mas havia algo que o confortava: durante o dia, ele encontraria Thiago e Fernanda, dois amigos de longa data que sempre estiveram ao lado dele. Pensar na presença deles era um alívio, uma forma de fugir da prisão que sua mente havia se tornado.
Lucas conhecia Thiago desde os tempos da faculdade de Direito. Eles tinham sido companheiros de estudo, parceiros em estágios e, depois de formados, acabaram trabalhando na mesma firma de advocacia. Thiago era extrovertido e sempre pronto para uma piada, o tipo de amigo que Lucas precisava naquele momento. Fernanda, por sua vez, era uma amiga sensível, doce, que sempre estivera presente nas alegrias e dores da vida de Lucas. Ela era uma amiga da faculdade de Marina, e os dois haviam se tornado próximos por meio dela.
Thiago e Fernanda marcaram de se encontrar com Lucas para almoçar em um restaurante próximo ao escritório. Marina, ocupada com os preparativos finais para a festa de noivado que se aproximava, não poderia estar presente, e isso dava a Lucas um breve alívio. Por algumas horas, ele poderia tentar ser apenas o "Lucas de sempre", sem o peso de esconder o segredo para Marina.
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O restaurante onde se encontraram era pequeno, com mesas de madeira rústica e um clima aconchegante. O som de conversas animadas preenchia o ambiente, e o aroma de comida caseira era confortante. Lucas chegou primeiro, pedindo uma mesa para três perto de uma janela que dava para a rua movimentada. Ele olhou para fora, observando a vida passando, e se perguntou quantas pessoas ao redor dele estavam lutando contra seus próprios fantasmas.
Quando Thiago chegou, ele trouxe sua energia habitual. — E aí, cara! — Ele disse, dando um tapinha nas costas de Lucas. — Quanto tempo, hein? Você parece... cansado. Tá tudo bem?
Lucas sorriu, tentando manter a expressão relaxada. — Ah, você sabe como é... o trabalho, o casamento, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Mas estou sobrevivendo.
Thiago se sentou de frente para ele, pegando o cardápio e examinando as opções. — Sobrevivendo, né? Isso não é bem viver, cara. A gente tem que beber alguma coisa hoje. Tô sentindo que você precisa de um pouco de diversão. — Ele riu, e o riso dele era contagiante, trazendo uma sensação de normalidade que Lucas tanto precisava.
Minutos depois, Fernanda chegou, trazendo consigo o perfume suave de lavanda e um sorriso caloroso. Ela se inclinou para dar um abraço em Lucas, segurando-o um pouco mais do que o usual, como se sentisse que ele precisava daquilo. — É tão bom ver você, Lucas. — disse ela, sentando-se ao lado de Thiago. — Você realmente anda sumido, hein? Como está a Marina? E o casamento? Aposto que vocês dois devem estar ansiosos!
— Estamos, sim. — Lucas respondeu, pegando a taça de água à sua frente e bebendo um gole. — Ela está a mil por hora com os preparativos... e, claro, isso acaba me envolvendo em todos os detalhes. Mas... faz parte, não é?
Eles passaram a primeira parte do almoço conversando sobre coisas triviais. Thiago falava sobre as últimas novidades no escritório e os casos que ele e Lucas estavam trabalhando, enquanto Fernanda falava sobre seu trabalho como designer de interiores e as reformas recentes que havia feito para alguns clientes. A conversa era leve, animada, e Lucas se permitiu rir, se perder por alguns momentos no fluxo de amizade que sempre existiu entre eles.
Mas Fernanda tinha um olhar perspicaz, e Lucas sabia que ela o conhecia bem o suficiente para ver através do sorriso forçado. Quando Thiago se levantou para ir ao banheiro, Fernanda se inclinou sobre a mesa e segurou a mão de Lucas, apertando-a com força.
— Lucas, você sabe que pode confiar em mim, certo? — Ela disse, os olhos cheios de preocupação. — Você parece... diferente. Como se estivesse carregando um peso enorme. O que está acontecendo?
Ele engoliu em seco, tentando manter a expressão neutra. — Eu só... estou lidando com muita coisa agora, Fer. O trabalho está puxado, o casamento... É muita coisa para processar de uma vez.
Fernanda o observou por um momento, claramente desconfiada. — Olha... se você precisar de alguém para conversar, se precisar desabafar sobre qualquer coisa, você sabe que pode contar comigo, né? E com o Thiago também. Você não precisa passar por isso sozinho.
Lucas sorriu, mas era um sorriso vazio. — Obrigado, Fer. Eu sei disso... E vou tentar ser mais presente, prometo.
Quando Thiago voltou à mesa, eles retomaram a conversa leve, pediram sobremesa e, por um tempo, Lucas conseguiu se esquecer do peso que carregava. Riram, falaram sobre o passado, fizeram planos para sair juntos depois do casamento. Mas, enquanto o almoço se aproximava do fim, Lucas sabia que precisava voltar à realidade, que precisava encarar a consulta com o doutor Henrique naquela tarde.
— Bem, acho que preciso voltar para o trabalho... — Lucas disse enquanto se levantava, colocando a mão no bolso para pegar a carteira. — Mas foi ótimo ver vocês. Precisamos fazer isso mais vezes.
Thiago se levantou e deu um abraço em Lucas, enquanto Fernanda segurou a mão dele mais uma vez, como se estivesse tentando transmitir força através daquele simples toque. — Vamos sair à noite qualquer dia desses, só nós três. — Thiago sugeriu. — Sem trabalho, sem casamento, sem preocupações. Fechado?
— Fechado. — Lucas respondeu, sabendo que não podia prometer nada, mas tentando manter a esperança de que teria tempo para cumprir aquela promessa.
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A consulta com o doutor Henrique foi rápida, mas carregada de significados. O médico falou sobre as opções de tratamento que poderiam ser tentadas, mas a palavra "paliativo" sempre aparecia, como uma sombra sobre todas as possibilidades. Lucas ouviu tudo em silêncio, tentando processar cada informação, mas a única coisa que conseguia pensar era em Marina e em como cada decisão que ele tomava agora teria impacto na vida dela.
— Lucas, eu sei que essa situação é difícil, e eu sei que você tem tentado ser forte. — disse o doutor Henrique, enquanto anotava algumas informações no prontuário. — Mas é importante que você tenha apoio. É importante que você converse com sua família, com sua noiva. Você não pode carregar isso sozinho.
Lucas assentiu, mas por dentro ele sabia que não estava pronto para revelar a verdade. Não enquanto ainda houvesse uma chance de aproveitar cada momento com Marina sem o peso da doença. Ele agradeceu ao médico e deixou a clínica com a cabeça cheia, tentando entender como poderia continuar vivendo duas vidas — a vida que ele queria viver com Marina e a vida que a doença estava forçando nele.
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Quando voltou para casa naquela noite, Marina estava no sofá, mexendo em papéis de decoração para a festa de noivado. Ela olhou para ele e sorriu, mas havia algo nos olhos dela que parecia preocupado.
— Ei... como foi seu dia? — Ela perguntou, tentando parecer casual, mas Lucas sentiu a preocupação por trás das palavras.
Ele se aproximou, sentando-se ao lado dela e passando o braço ao redor dos ombros dela. — Foi... cansativo. Mas estou aqui agora. E eu estava pensando... que tal deixarmos todo o estresse de lado e sairmos para comer uma pizza? Só nós dois?
Marina riu, fechando os papéis e jogando-os para o lado. — Você leu meus pensamentos. — Ela disse, se inclinando para beijá-lo. — Só quero ficar com você esta noite. Sem preparativos, sem festas... só nós.
Lucas sorriu, tentando esquecer a consulta, a dor, a incerteza. Ele queria, mais do que tudo, continuar sendo aquele homem que Marina amava, aquele homem que poderia proporcionar momentos felizes, mesmo que soubesse que a tempestade estava cada vez mais próxima.
E enquanto saíam para jantar, Lucas segurou a mão de Marina com força, sabendo que, por mais que o tempo estivesse se esgotando, ele ainda tinha aqueles momentos. Ainda tinha Marina. E, por agora, aquilo era tudo o que importava.
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Atualizado até capítulo 40
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