Lucas acordou naquela manhã com um sentimento de urgência esmagador. A dor em seu estômago parecia pior do que nunca, irradiando como uma chama que não podia ser apagada. Ele sabia que o câncer estava avançando e que, por mais que tentasse se manter forte, a doença estava ganhando terreno. Não havia cura, e o tempo estava correndo como areia por entre seus dedos. Enquanto ele se sentava na beira da cama, sentindo o frio do chão contra seus pés, o mundo parecia ao mesmo tempo pesado e fugaz, como se tudo pudesse se desfazer a qualquer momento.
Marina estava ocupada com os preparativos finais da festa de noivado, que estava marcada para o próximo fim de semana. Lucas fazia o melhor que podia para se envolver nos planos, mas sua mente estava sempre dividida. De um lado, a alegria de planejar o futuro ao lado da mulher que amava. Do outro, o peso da verdade que ele estava escondendo e que, mais cedo ou mais tarde, teria que vir à tona.
Enquanto se olhava no espelho do banheiro, Lucas se perguntou por quanto tempo ainda conseguiria esconder tudo. As olheiras escuras sob seus olhos eram uma marca de noites mal dormidas, e o rosto, normalmente cheio de vida, agora parecia pálido, vazio. Ele lavou o rosto com água fria, tentando acordar, tentando manter a fachada para Marina. Ele precisava fingir, ao menos por mais alguns dias. Precisava deixá-la viver aquele momento feliz, mesmo que estivesse prestes a desmoronar.
Naquela manhã, Marina o chamou para ver um detalhe da decoração que ela havia preparado para a festa. Ela estava animada, os olhos brilhando com a empolgação de uma noiva prestes a comemorar o início de uma nova fase de vida. Ela trouxe uma amostra de como seriam as flores, as fitas douradas que envolveriam os convites, e mostrou a ele as mensagens carinhosas que seus amigos e familiares haviam enviado para decorar a festa.
— E aqui... — Marina apontou para um quadro grande que ficaria na entrada do local da festa. — É onde eu pensei em colocar nossas fotos. O que acha?
Lucas olhou para as fotos que ela havia escolhido — momentos felizes dos dois, desde o início do namoro até os momentos mais recentes, cheios de amor e esperança. Cada imagem era uma lembrança de um futuro que ele desejava mais do que tudo. Ele forçou um sorriso, mas uma pontada de tristeza atravessou seu peito. Aquela festa era para celebrar um futuro que ele não tinha certeza se poderia oferecer.
— Está perfeito, Marina. — Ele disse, segurando a mão dela e apertando-a com carinho. — Você pensou em tudo... Vai ser uma festa linda.
Ela se aproximou e envolveu os braços ao redor dele, o rosto dela se escondendo no peito dele. — Eu quero que seja perfeito, porque é o começo de tudo... do nosso futuro. — disse ela, a voz baixa, mas cheia de esperança.
Lucas fechou os olhos, segurando-a com força. O “nosso futuro” dela era o que o mantinha lutando, era o que o fazia se levantar todos os dias e tentar ignorar a dor. Mas ele sabia que aquele futuro estava condenado, e a culpa de esconder isso de Marina o consumia.
— E vai ser... vai ser perfeito. — Ele respondeu, mesmo que as palavras quase doessem ao sair.
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Ao longo da semana, Thiago e Fernanda continuaram presentes, tanto no trabalho quanto nos momentos de descontração. Thiago percebeu que Lucas estava mais calado do que o normal e tentou animá-lo, sugerindo saídas para beber depois do expediente ou falar sobre qualquer coisa que pudesse distraí-lo.
— Cara, sério... você está precisando relaxar. — disse Thiago em uma tarde no escritório, enquanto Lucas revisava documentos com uma expressão visivelmente exausta. — Não é só trabalho, eu sei disso. Vamos sair hoje, jogar conversa fora, esquecer dos problemas. O que acha?
Lucas sorriu, apreciando a tentativa do amigo de ajudá-lo a manter a cabeça fora da água. — Talvez... eu só preciso resolver algumas coisas hoje. — Ele mentiu, sentindo a mentira pesar em sua língua.
Thiago não parecia convencido, mas assentiu. — Tudo bem, mas não se esqueça que a gente está aqui por você. Sei que a Marina está com a cabeça a mil com o casamento, mas se precisar de qualquer coisa, é só falar.
Fernanda, por sua vez, tentava mostrar seu apoio de uma forma mais sutil. Enviava mensagens diárias para Lucas, perguntando como ele estava, sugerindo encontrar-se para tomar um café e dizendo que sentia falta dele e de Marina juntos. Ela sabia que algo estava errado, mas respeitava o silêncio dele, esperando que ele estivesse pronto para falar quando quisesse.
— Ei, Thiago me disse que você está meio afastado ultimamente. — Ela mandou em uma mensagem. — Só queria que soubesse que estou pensando em você. Espero que tudo esteja bem.
Lucas leu a mensagem várias vezes, querendo responder, mas sem saber o que dizer. Ele estava isolado no próprio silêncio, tentando proteger a todos da verdade que sabia que seria devastadora.
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Na sexta-feira à noite, Lucas estava sozinho em casa. Marina havia saído para encontrar as amigas e organizar os detalhes finais da festa de noivado, e ele sabia que precisava daquele tempo sozinho para processar tudo. Enquanto caminhava pelo apartamento vazio, ele se pegou olhando para as fotos nas paredes, para os planos espalhados sobre a mesa, e sentiu como se estivesse vivendo em um sonho prestes a se desfazer.
Foi então que ele decidiu sair. Precisava de ar, precisava se afastar do peso que sentia dentro de casa. Ele saiu e caminhou pelas ruas da cidade, os passos automáticos, sem direção. O vento frio da noite o envolvia, e ele não sabia para onde estava indo até que se deu conta de que estava parado em frente ao parque onde ele e Marina haviam ido semanas antes.
O parque estava vazio, apenas algumas luzes fracas iluminando as árvores e os bancos ao redor. Lucas se sentou em um dos bancos, olhando para o lago à sua frente, onde as águas calmas refletiam as luzes da cidade. Ali, sozinho, ele se permitiu sentir o que vinha escondendo há tanto tempo. A dor, o medo, a tristeza... tudo o atingiu de uma vez, e ele se curvou, apoiando os cotovelos nos joelhos e cobrindo o rosto com as mãos.
Ele não sabia quanto tempo ficou ali, perdido em sua própria dor, mas em algum momento ele sentiu uma presença ao seu lado. Quando levantou a cabeça, viu Fernanda, sentada ao lado dele, olhando para ele com os olhos cheios de preocupação.
— O que você está fazendo aqui? — Ele perguntou, surpreso, tentando limpar o rosto rapidamente para esconder as lágrimas.
— Eu estava voltando para casa e te vi aqui... sozinho. — Ela respondeu, a voz suave e cheia de empatia. — Lucas... você está chorando. O que está acontecendo?
Lucas desviou o olhar, encarando o lago à sua frente. Ele não queria falar, não queria dividir o fardo que estava carregando, mas ali, naquela noite, sentiu que não poderia mais segurar. Ele estava sozinho demais, e o segredo estava se tornando insuportável.
— Fernanda... — Ele começou, a voz trêmula. — Eu... eu estou doente. Muito doente.
Ela ficou em silêncio, mas ele viu o choque e a tristeza em seus olhos. — Como assim? O que você tem?
— Câncer. — Ele disse finalmente, a palavra escapando de seus lábios como um sussurro. — Câncer no pâncreas. E... e não tem cura.
Fernanda levou a mão à boca, os olhos marejados. — Lucas... meu Deus, por que você não contou antes? Por que... você não disse nada?
Ele olhou para ela, sentindo a culpa e a dor tomarem conta de si. — Porque eu não sei como dizer isso a Marina. Porque eu... eu não quero que ela sofra. Não quero tirar a felicidade dela. Eu... só queria manter tudo normal por um tempo, só queria aproveitar cada segundo ao lado dela sem que ela soubesse.
Fernanda o abraçou, e ele se deixou levar, finalmente derramando todas as lágrimas que havia segurado por tanto tempo. Ela ficou ao lado dele, segurando-o com força, sussurrando que tudo ficaria bem, que ele não precisava carregar aquilo sozinho. E, pela primeira vez, Lucas sentiu que não estava sozinho.
Quando finalmente se acalmou, Fernanda segurou o rosto dele com as duas mãos e olhou fundo em seus olhos. — Você precisa contar para a Marina. Ela merece saber. E eu sei que você está tentando proteger ela, mas ela vai querer estar ao seu lado. Você não pode fazer isso sozinho, Lucas.
Lucas assentiu lentamente, sabendo que ela estava certa. Mas também sabia que, uma vez que contasse a verdade, tudo mudaria para sempre. E ele ainda não estava pronto para isso.
Naquela noite, quando voltou para casa, Lucas se deitou ao lado de Marina, que já estava adormecida, e fechou os olhos. A decisão de contar a verdade estava mais próxima do que nunca, mas por agora, ele seguraria sua mão, guardaria o segredo por mais um dia e se permitiria viver aquele presente.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Grace 🌻🌷
Muito triste está história.🥺🥺🥺
2024-10-11
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