O som do despertador invadiu o apartamento silencioso de Lucas, quebrando a calmaria daquela manhã de sábado. Ele rolou para o lado, o braço alcançando o aparelho com pressa para desligar o alarme, desejando mais alguns minutos de paz. Ele ficou deitado, os olhos fixos no teto, permitindo que o silêncio tomasse conta novamente. Uma pontada leve, mas persistente, correu por seu abdômen, como um lembrete constante de que algo estava errado.
Ele se forçou a levantar, sentando-se na beira da cama, os pés tocando o chão frio. Respirou fundo, fechando os olhos e tentando ignorar a dor que fazia parte de seu cotidiano agora, mesmo que ele se recusasse a aceitá-la. “Hoje vai ser um bom dia”, pensou. E era uma promessa que ele faria de tudo para cumprir.
A agenda do dia estava cheia de mais detalhes do casamento. Marina o esperava para escolher os convites, e depois iriam ao parque onde ela queria que as fotos pré-casamento fossem tiradas. Ela dizia que aquele parque, com seus grandes carvalhos e suas trilhas cobertas de flores silvestres, parecia um cenário de conto de fadas. E ele queria viver aquele conto de fadas com ela, nem que fosse apenas por mais um dia.
Lucas entrou no banheiro e ligou o chuveiro, a água quente escorrendo pelo seu corpo. O vapor enchia o banheiro, envolvendo-o como uma nuvem que carregava consigo os pensamentos pesados. Ele apoiou as mãos contra a parede fria do box, baixando a cabeça e deixando a água cair como se pudesse lavar seus medos, suas dúvidas. Mas nada realmente desaparecia. A dor, ainda que momentaneamente abafada pelo calor da água, estava lá, como uma sombra sempre presente.
Quando ele saiu do banho e se vestiu, o rosto no espelho parecia pálido. Seus olhos, normalmente cheios de vida, agora tinham um brilho ofuscado pelo cansaço. Mesmo assim, ele se obrigou a sorrir, como se pudesse se convencer de que estava tudo bem.
Marina estava esperando por ele na estação de metrô, e ao vê-lo, seus olhos brilharam como se ele fosse a única pessoa no mundo. Ela acenou animadamente, e ele caminhou até ela com um sorriso, o coração aquecendo-se apenas por vê-la.
— Oi, amor! Pronto para escolher os convites mais lindos do universo? — Ela perguntou, já entrelaçando seus braços e o puxando para a direção da papelaria.
— Claro! Mal posso esperar para ver você discutindo a fonte mais elegante e o papel mais sofisticado. — Lucas brincou, tentando manter o humor leve.
Eles passaram horas na papelaria, examinando catálogos, tocando diferentes tipos de papel, escolhendo a melhor combinação de cores. Marina se empolgava com cada detalhe, experimentando fontes diferentes para seus nomes, discutindo as fitas que decorariam cada convite. Lucas observava tudo com um sorriso, gostando de vê-la tão animada, mas a dor constante em seu estômago fazia cada minuto parecer mais longo. Ele se esforçava para manter a postura, para não mostrar que algo estava errado, mas a cada risada de Marina, ele sentia uma pontada de culpa.
— O que você acha desse aqui? — Marina segurava um convite com bordas douradas e escrita cursiva. — Achei que ele tem um toque elegante, mas ainda assim simples.
Lucas pegou o convite, tentando se concentrar. — Está perfeito, amor. Do jeito que você sempre quis.
Ela sorriu para ele, um sorriso que era tudo o que ele queria proteger. — E do jeito que nós sempre quisemos, né? Nosso convite perfeito. — Marina se aproximou, segurando seu rosto com carinho e plantando um beijo suave em seus lábios. — Sabe... eu fico tão feliz que você esteja comigo nisso tudo. Sei que não deve ser fácil para você acompanhar todos esses detalhes.
— Não, não... — Lucas balançou a cabeça, sorrindo. — Para mim, é uma alegria ver você tão feliz. E eu quero estar ao seu lado em cada momento, em cada detalhe.
Eles terminaram de escolher os convites, e Marina fez questão de fechar o pedido ali mesmo, garantindo que tudo estaria perfeito para o grande dia. Saíram da papelaria de mãos dadas, e ela, cheia de energia, insistiu para que fossem ao parque como planejado, para explorarem os melhores cenários para a sessão de fotos.
O parque estava cheio, mas havia uma beleza tranquila naquele lugar. Grandes carvalhos erguiam-se como guardiões silenciosos, e as trilhas de flores selvagens criavam caminhos coloridos e perfumados. O som dos pássaros e o murmúrio de um riacho próximo tornavam o ambiente quase mágico. Marina corria de um lado para o outro, apontando lugares onde poderiam tirar fotos — uma ponte de madeira coberta por hera, um banco debaixo de uma cerejeira florida.
— E se fizermos uma foto aqui? — Ela apontou para uma clareira ensolarada. — Acho que ficaria lindo com a luz entrando assim, por entre as árvores.
Lucas sorriu, tentando corresponder ao entusiasmo dela. — Sim... vai ser perfeito.
Eles se sentaram no banco debaixo da cerejeira, e por um momento, o mundo parecia diminuir até se reduzir a apenas eles dois. Lucas olhou para Marina, o rosto iluminado pela luz que passava pelas folhas, os olhos dela fechados enquanto sentia o vento. Ele tentou absorver cada detalhe: a forma como o cabelo dela balançava com a brisa, como as pétalas de flores caíam suavemente sobre seus ombros, o som da risada dela ao perceber que ele a estava observando.
— O que foi? — Ela perguntou, rindo baixinho.
— Nada... só... estou tentando gravar cada momento. — Ele respondeu, sincero. — Você é linda assim.
Marina se aconchegou ao lado dele, encostando a cabeça no ombro de Lucas. — Então grave bem. Porque a gente ainda vai ter muitos momentos assim, juntos. — Ela suspirou, fechando os olhos e entrelaçando os dedos aos dele. — Momentos felizes. Para sempre.
Lucas apertou a mão dela, o peito apertando-se com aquela palavra. Para sempre. Ele queria acreditar. Mas o "para sempre" parecia tão frágil diante do que ele sentia. A dor, que vinha e ia durante todo o dia, estava voltando com mais força, e ele lutou para não demonstrar, mantendo o sorriso. Ele não podia deixar Marina perceber. Não naquele momento perfeito.
Ficaram ali por um longo tempo, simplesmente aproveitando a companhia um do outro, até que o sol começou a se pôr, tingindo o céu com tons de laranja e rosa. Eles decidiram ir embora, mas Lucas sentiu-se grato por aquele dia, por ter vivido algo tão especial ao lado dela.
Quando chegaram ao apartamento de Marina, despediram-se com um longo beijo na porta. Ela o abraçou forte, sussurrando "eu te amo" em seu ouvido, e ele a segurou como se aquele abraço fosse o único lugar seguro no mundo. Como se ali ele pudesse se proteger de tudo que ameaçava sua felicidade.
Depois que ela entrou, Lucas caminhou até sua casa lentamente, a escuridão começando a cobrir a cidade. As luzes dos postes acendiam-se uma a uma, e ele, sozinho na rua, sentia-se pequeno. Assim que entrou em seu apartamento, ele deixou-se cair no sofá, finalmente se permitindo sentir a dor que vinha segurando o dia todo. Ela era forte, cortante, como se houvesse algo dentro dele rasgando seu corpo de dentro para fora.
“Eu não posso continuar assim...” pensou, o suor escorrendo por sua testa. Pela primeira vez, o medo o tomou completamente. Ele sabia que precisava de respostas, que não poderia continuar escondendo aquilo de si mesmo. Mas a ideia de ir a um médico, de saber o que estava realmente acontecendo, parecia um passo rumo a algo desconhecido, assustador.
Enquanto a dor se acentuava, Lucas fechou os olhos, deixando que o cansaço o levasse. Uma parte dele sabia que precisava agir, que o tempo estava correndo. Mas outra parte, a que ainda queria acreditar que tudo ficaria bem, o fazia adiar. Porque aceitar a verdade era aceitar que o "para sempre" que ele e Marina tanto falavam estava se desfazendo.
E ali, no escuro do seu apartamento, Lucas adormeceu, abraçado a um travesseiro, tentando manter firme a ideia de que o amor deles poderia vencer qualquer coisa. Mesmo que, dentro dele, algo estivesse morrendo.
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Atualizado até capítulo 40
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