Uma Noite Para Sempre

Era uma manhã nublada, com nuvens cinzentas cobrindo o céu como um cobertor pesado. Lucas acordou com o corpo dolorido, a dor em seu estômago era agora uma companheira constante, como se seu corpo estivesse sempre lembrando-o de que o tempo estava acabando. Ele se levantou devagar, tentando não acordar Marina, e foi direto para o banheiro. Ligou o chuveiro e deixou a água quente escorrer pelo seu corpo, tentando afastar o frio que parecia vir de dentro de seus ossos.

Enquanto a água caía sobre ele, Lucas pensou na consulta que teria mais tarde com o doutor Henrique. Mais exames, mais informações sobre o avanço da doença, mais palavras difíceis de ouvir e, acima de tudo, mais incertezas sobre o futuro. Ele sabia que aquela consulta seria crucial para definir os próximos passos, mas o que o aterrorizava não era o diagnóstico em si, mas a necessidade de finalmente contar a verdade para Marina. Ele não sabia como, mas uma parte dele já aceitava que não poderia guardar esse segredo por muito mais tempo.

Depois do banho, Lucas se secou, vestiu-se e foi para a cozinha preparar o café da manhã. Enquanto fazia isso, ouviu os passos leves de Marina vindo pelo corredor. Ela entrou na cozinha com seu sorriso matinal habitual, os olhos ainda brilhando com o sono.

— Bom dia, amor. — Ela disse enquanto se aproximava para beijá-lo na bochecha.

Lucas sorriu, tentando ignorar a dor em seu corpo e na alma. — Bom dia, Marina.

Eles tomaram o café juntos, e ele percebeu como ela tentava manter o clima leve, mesmo percebendo que algo estava errado. Marina era intuitiva demais, e ele sabia que ela estava sentindo que havia algo além do cansaço no trabalho ou dos preparativos do casamento. Enquanto ela falava sobre os últimos detalhes que precisavam organizar — o vestido, os convites que precisavam ser enviados, os padrinhos — ele a ouvia com atenção, como se estivesse absorvendo cada palavra, tentando guardar para si a alegria dela.

— Então... — disse Marina de repente, inclinando-se para frente com um olhar sério. — Eu sei que você vai para o trabalho hoje, mas... que tal tirarmos um tempo só para nós dois mais tarde? Vamos a algum lugar especial. Só eu e você. Sinto que precisamos disso.

Lucas piscou, surpreso. Marina sempre fora cheia de ideias espontâneas, mas ele não esperava aquilo naquele momento. Ele sentiu a vontade de dizer "não", de falar que tinha compromissos, que estava sobrecarregado, mas então olhou nos olhos dela e viu algo que ele não via há algum tempo. Uma ânsia, um desejo de se conectar, de resgatar algo que estava sendo perdido. E ele sabia que não poderia negar.

— Claro. — Ele respondeu, tentando sorrir genuinamente. — Vamos fazer isso. Hoje à noite, vamos sair só nós dois.

Ela sorriu, e naquele momento, o sorriso dela parecia dissipar todas as nuvens negras que estavam sobre ele. — Perfeito. Vai ser uma noite só nossa, como antigamente.

Depois do café, Lucas se despediu e saiu do apartamento, sentindo o coração pesado enquanto pensava em tudo o que precisaria enfrentar naquele dia. Caminhou pelas ruas até chegar à clínica, onde seria recebido pelo doutor Henrique. A espera parecia se arrastar, o silêncio da sala ecoava em sua mente como um lembrete constante da gravidade da situação.

Quando finalmente foi chamado pelo médico, Lucas entrou no consultório e se sentou em frente à mesa. O doutor Henrique o cumprimentou com um aperto de mão firme e uma expressão séria. — Lucas, como você está se sentindo? — perguntou ele, folheando os papéis sobre a mesa.

— Um pouco melhor... — Lucas mentiu, tentando soar convincente. — Acho que estou lidando com a situação da melhor forma possível.

O médico assentiu, mas havia algo em seu olhar que mostrava que ele sabia mais. — Eu sei que isso não é fácil. Olhando para os resultados dos exames, parece que estamos lidando com um câncer de pâncreas avançado. Não é algo que possamos tratar facilmente, Lucas, e precisamos discutir todas as opções possíveis... incluindo tratamentos paliativos.

Lucas engoliu em seco, sentindo o ar desaparecer de seus pulmões. Tratamentos paliativos. Ele sabia o que aquilo significava, sabia que a batalha seria mais difícil do que ele jamais imaginou. E Marina... ela não sabia de nada. O peso da verdade estava esmagando-o, e ele mal conseguia responder ao médico, apenas assentindo mecanicamente enquanto as palavras pareciam distantes, quase irreais.

A consulta terminou com orientações para novas etapas — medicamentos para aliviar a dor, consultas com especialistas, planos para enfrentar o tempo que ele tinha. Lucas deixou o consultório em um estado de torpor, caminhando pelas ruas como se estivesse à deriva, perdido em seus pensamentos. Ele sabia que precisava contar a Marina, que não poderia esconder tudo aquilo dela por muito mais tempo, mas como ele poderia destruir o futuro que eles estavam planejando?

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À noite, Lucas voltou para casa e encontrou Marina já pronta para sair. Ela estava linda, usando um vestido simples, mas elegante, que ele amava. Seu sorriso iluminava o ambiente, e por um instante, ele esqueceu de toda a dor, de todos os problemas. Naquele momento, ela era sua âncora, sua razão para continuar.

— Onde você quer ir? — perguntou ela, animada. — Pensei em irmos a um restaurante novo que abriu na cidade, mas podemos fazer o que você quiser.

Lucas balançou a cabeça, tentando sorrir. — Vamos ao restaurante. Hoje é sua noite. — Ele pegou a mão dela, entrelaçando os dedos aos dela, e sentiu o calor e a segurança daquele toque.

Eles foram para o restaurante, e por um momento, a vida parecia normal. Marina falava sobre o casamento, sobre o trabalho, sobre os sonhos para o futuro, e Lucas a ouvia, se esforçando para não mostrar o que realmente sentia. A comida era deliciosa, o ambiente era elegante e tranquilo, e ele sentia como se estivesse vivendo um sonho do qual não queria acordar.

Depois do jantar, caminharam até uma praça próxima, onde as luzes dos postes se refletiam no chão molhado. Marina puxou Lucas para o centro da praça, onde havia uma pequena fonte de água iluminada por luzes coloridas.

— Lembra quando costumávamos caminhar por aqui quando éramos só amigos? — Ela disse, segurando as mãos dele e balançando-as suavemente. — Ficaríamos sentados por horas conversando sobre nossos sonhos e planos para o futuro... E agora estamos aqui, quase casados, construindo nosso próprio futuro.

Lucas sorriu, mas havia algo triste em seus olhos. Ele queria tanto voltar para aqueles dias, para aquela inocência, para aquela vida em que o futuro parecia brilhante e ilimitado. — É... eu lembro. — Ele respondeu, puxando-a para mais perto e envolvendo-a em um abraço apertado. — E eu ainda tenho os mesmos sonhos.

Ficaram ali por um longo tempo, apenas aproveitando o silêncio, o calor um do outro. Marina fechou os olhos e descansou a cabeça no peito de Lucas, e ele segurou-a como se fosse a última vez, como se estivesse tentando capturar aquele momento para sempre.

— Eu te amo, Marina. — Lucas disse baixinho, as palavras carregadas de uma tristeza que ele tentava esconder.

Ela levantou a cabeça e o olhou nos olhos. — E eu te amo também. Para sempre.

Lucas queria acreditar nessas palavras. Queria se agarrar àquele "para sempre" como se fosse algo tangível, algo que pudesse protegê-los da realidade que ele sabia estar à espreita. Mas por enquanto, ele guardaria o segredo, mesmo que isso significasse carregar todo o peso sozinho.

Naquela noite, ao voltarem para casa, ele a segurou enquanto dormiam, sentindo o calor dela, ouvindo a respiração tranquila e desejando que o tempo parasse ali. Ele sabia que não poderia esconder a verdade por muito mais tempo, mas ao menos por aquela noite, ele ainda tinha Marina, ainda tinha aquele amor.

E isso, para Lucas, já era tudo.

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Comments

Sandra Regina

Sandra Regina

porque ele não fala logo para a noiva que está doente com um tumor no estômago

2024-10-01

1

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