O céu estava nublado naquela manhã de segunda-feira, e uma chuva fina começava a cair sobre a cidade. Lucas caminhava até o escritório, o som rítmico das gotas batendo no guarda-chuva criando um som constante, quase tranquilizador. Ele se apressava para chegar ao trabalho, a cabeça cheia dos compromissos do dia, mas uma sombra persistia em seus pensamentos: a dor crescente em seu corpo.
Aquele seria mais um dia comum, ele tentava se convencer. Como qualquer outro. Mas, ao virar a esquina e ver o edifício de escritórios surgir à sua frente, sentiu uma vertigem repentina. A rua parecia se desfocar por um instante, como se o mundo ao seu redor estivesse perdendo a nitidez, e ele precisou parar por um momento, apoiando-se contra uma parede, respirando fundo.
“Vai passar...”, ele repetia a si mesmo, como um mantra. “Só preciso me recompor.”
Aos poucos, o mundo voltou ao foco, e ele continuou andando, embora o ritmo fosse mais lento. Lucas entrou no edifício, cumprimentou a recepcionista com um sorriso que parecia mais uma máscara e seguiu para o elevador. A cada andar que passava, ele sentia o ar parecer mais denso, como se a simples tarefa de respirar estivesse se tornando um desafio.
Quando chegou ao escritório, seus colegas já estavam em suas mesas, com rostos concentrados nos computadores e pilhas de papéis ao redor. Lucas tentou se misturar à rotina, pegando seus documentos e se dirigindo à sua mesa. Mas a dor em seu estômago não dava trégua, tornando difícil até mesmo se sentar confortavelmente. Ele olhou para o relógio na parede — 8h30 da manhã — e o dia já parecia interminável.
— Lucas, está tudo bem? — A voz de Thiago, seu colega e melhor amigo na firma, soou atrás dele. Thiago tinha sido um companheiro leal ao longo dos anos, sempre presente para um almoço rápido ou para desabafar sobre os desafios do trabalho.
Lucas forçou um sorriso, sem conseguir encarar Thiago por muito tempo. — Claro. Só... uma dor de estômago. Nada demais.
Thiago franziu a testa. — Você está estranho nos últimos dias. Ando preocupado, cara. Sério, se precisar de alguma coisa... Ou se quiser falar, estou aqui, sabe disso, né?
Lucas assentiu, voltando a atenção para os papéis em sua mesa. — Eu sei. Obrigado, Thiago. Só preciso de um tempo para me reorganizar, acho.
Thiago colocou a mão no ombro de Lucas, apertando-o de forma amigável. — Não hesite em pedir ajuda, tá bom? Você é um dos melhores advogados aqui. A gente precisa de você em plena forma. — E com um último sorriso, ele voltou para a própria mesa.
O dia se arrastou com uma lentidão torturante. Lucas revisava contratos, participava de reuniões, mas cada tarefa parecia levar um esforço sobre-humano. Em vários momentos, ele precisou se levantar e caminhar até o banheiro, onde se olhava no espelho, o rosto pálido, os olhos cansados, tentando se convencer de que aquilo não era nada grave. Ele enchia as mãos de água fria e esfregava o rosto, como se pudesse lavar a dor junto com o suor que escorria pela testa.
Mas no fundo, algo dentro dele sussurrava que não era só estresse. Não era só uma má noite de sono. Aquilo era uma coisa que estava crescendo, tomando espaço, se alimentando dele.
Durante a tarde, quando a dor ficou insuportável, ele pegou seu celular, e pela primeira vez, pesquisou discretamente por uma clínica. “Gastroenterologista... consultas rápidas.” Seus dedos tremiam enquanto procurava uma opção. Ele hesitou por um momento antes de agendar uma consulta para o final da semana. Só de marcar o horário, seu estômago revirou, como se uma parte dele estivesse se preparando para enfrentar algo que ele não estava pronto para encarar.
O resto do dia passou como um borrão. Lucas tentou se concentrar no trabalho, mas a dor e a ansiedade tomavam conta de cada pensamento. Quando finalmente deu a hora de ir embora, ele se sentiu aliviado, como se estivesse escapando de uma prisão silenciosa. Guardou seus papéis na pasta, acenou rapidamente para Thiago e outros colegas, e saiu do escritório com passos apressados.
Do lado de fora, a chuva havia parado, mas o céu ainda estava cinzento. Ele decidiu não voltar para casa imediatamente, precisando de um tempo para caminhar, tentar organizar os pensamentos. Andou sem rumo pelas ruas da cidade, passando por cafés e lojas, ouvindo o som abafado da vida ao seu redor. Pessoas conversavam, riam, viviam suas vidas sem saber que ele estava lá, lutando contra algo que ele mal compreendia.
Ele chegou a um pequeno parque que ficava perto de seu apartamento, onde havia um banco debaixo de uma árvore. Sentou-se, tentando respirar fundo, olhando para o chão coberto por folhas molhadas. E ali, sentado naquele banco, longe do olhar de Marina, dos amigos, de qualquer pessoa que o conhecesse, ele finalmente permitiu que as lágrimas viessem.
Lucas chorou. Chorou de medo, de frustração, de desespero. Ele se curvou, cobrindo o rosto com as mãos, sentindo-se pequeno, frágil. Sentia-se como uma criança perdida, sem saber o que fazer, para onde ir. E acima de tudo, chorava por Marina. Por todos os sonhos que eles construíam juntos, pelos momentos felizes que ele queria viver com ela. Chorava porque sabia que, se algo estivesse realmente errado, ele não seria capaz de esconder isso dela por muito mais tempo.
O telefone de Lucas vibrou em seu bolso, interrompendo seus pensamentos. Ele limpou o rosto com as costas das mãos antes de tirar o aparelho do bolso. Era uma mensagem de Marina.
> "Amor, cheguei em casa! Hoje o dia foi longo... Não vejo a hora de te ver. Que tal um filme mais tarde? Eu preparo algo para a gente jantar."
Lucas olhou para a mensagem por um longo momento. Ele queria mais do que tudo voltar para casa, abraçá-la e esquecer de tudo, se perder na presença dela e fingir que nada estava errado. E foi o que ele fez. Digitou uma resposta rápida.
> "Claro, estou indo para casa agora. Não vejo a hora de te ver também."
Ele levantou-se do banco, respirando fundo, tentando se recompor. Voltou para o apartamento, sentindo a tensão diminuir a cada passo que dava para mais perto de Marina. Quando finalmente chegou, ela abriu a porta com um sorriso largo, e ele se jogou em seus braços, segurando-a com força, como se ela fosse sua âncora naquele mar de incertezas.
— Nossa, amor... você está me esmagando! — Ela disse, rindo, mas não se afastou. Ela retribuiu o abraço com a mesma intensidade, segurando-o como se fosse a coisa mais preciosa do mundo.
— Desculpa... só senti saudade. — Lucas respondeu, fechando os olhos, inspirando o perfume dela. "Só isso importa agora," ele pensou. "Apenas ela."
Marina o puxou para dentro, e ele viu a sala arrumada, com a mesinha de centro decorada com velas e almofadas espalhadas pelo chão. Havia um aroma suave de comida recém-preparada, e o som baixo da TV já ligada.
— Preparei sua massa preferida, com muito molho e queijo. — Marina disse, sorrindo orgulhosa. — E escolhi uma comédia romântica para a gente assistir. Precisamos de uma noite tranquila, não acha?
Lucas assentiu, sentindo-se grato por aquele momento. Sentou-se ao lado dela, enquanto ela servia os pratos e falava sobre o dia, sobre os preparativos do casamento, sobre as crianças da escola que sempre faziam algo engraçado ou inesperado. E, por algumas horas, ele conseguiu deixar de lado o medo, o desespero, e apenas se permitir estar ali, ao lado da mulher que amava.
Mas a verdade estava ali, como uma sombra à espreita, esperando o momento certo para se revelar. E Lucas sabia que, cedo ou tarde, ele teria que enfrentar essa sombra, mesmo que isso significasse destruir tudo o que ele e Marina construíam juntos.
Naquela noite, enquanto assistiam ao filme abraçados no sofá, com a cabeça de Marina deitada em seu peito, ele sentiu a dor retornar, como uma adaga que cravava mais fundo. Ele fechou os olhos, respirando lentamente, lutando para não deixar que as lágrimas caíssem. Ele não podia chorar. Não podia preocupar Marina. Não agora.
E enquanto ela dormia tranquila em seus braços, Lucas ficou acordado, encarando o teto, os pensamentos girando em sua mente como um redemoinho. A consulta marcada para o final da semana o aterrorizava, mas ele sabia que precisava da verdade.
Mesmo que essa verdade fosse o começo do fim.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Grace 🌻🌷
Quem faz isso?
Quem guarda a dor desse jeito com medo do desconhecido, que pode ser nada.😓😓
2024-10-10
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