A Sombra do Inimigo

O dia da ultrassonografia chegou. Lucas acordou cedo, o som do alarme cortando o silêncio do quarto escuro. Ao seu lado, Marina ainda dormia profundamente, com a respiração suave e o rosto relaxado como o de uma criança. Ele ficou ali, por alguns segundos, apenas observando-a, tentando capturar cada detalhe daquele momento. Ela parecia tão tranquila, tão alheia à tempestade que rugia dentro dele.

Com cuidado para não acordá-la, Lucas saiu da cama e se vestiu em silêncio. Passou um tempo maior do que o normal encarando o espelho do banheiro, os olhos fundos refletindo um medo que ele tentava, inutilmente, esconder. Se inclinou sobre a pia, fechando os olhos, respirando fundo. A cada dia que passava, a dor era mais forte, mais insistente. Naquele dia, ela parecia latejar como um aviso sombrio do que estava prestes a acontecer.

Ele desceu até a cozinha, preparando uma xícara de café rápido. Olhou para a cafeteira com olhos vazios, o aroma do café normalmente reconfortante parecia não trazer o alívio esperado. Enquanto o café esfriava na caneca, ele pegou seu celular e deixou uma mensagem rápida para Marina.

> "Bom dia, amor. Vou resolver algumas coisas do trabalho. Volto para o almoço. Eu te amo."

Ele se forçou a acreditar que aquela manhã seria só mais uma rotina, que ele estaria de volta logo, pronto para viver mais um dia ao lado dela como sempre. Mas uma parte dele sabia que a consulta o colocaria frente a frente com o desconhecido.

Lucas pegou um táxi para a clínica, tentando não pensar no que o aguardava. Quando chegou, a atendente já esperava por ele, conduzindo-o diretamente para a sala de exames. Tudo parecia acontecer rápido demais — a troca de roupa, o gel frio espalhado em seu abdômen, a máquina que ele sempre viu como algo distante de sua realidade agora se tornando uma ferramenta de investigação de algo que ele mal queria nomear.

— Apenas relaxe, senhor Lucas. — disse o técnico de imagem, um homem de expressão neutra, enquanto posicionava o aparelho de ultrassom sobre o estômago de Lucas. — Vamos fazer algumas imagens para o doutor analisar.

Relaxar. Como ele poderia relaxar? O som do equipamento preenchia a sala em um zumbido baixo, e Lucas se forçou a olhar para o teto branco, evitando encarar a tela onde o técnico observava as imagens. Mas, por mais que ele tentasse desviar o olhar, seus olhos insistiam em voltar para a tela, onde sombras e formas se moviam conforme o técnico passava o aparelho pelo seu abdômen.

Lucas não entendia o que estava vendo, mas o silêncio que se seguiu foi pesado, quase insuportável. Ele tentou ler a expressão do técnico, mas o homem estava treinado para não revelar nada, para manter uma fachada impassível.

— Está tudo bem? — Lucas finalmente perguntou, com a voz saindo mais fraca do que ele pretendia.

O técnico desviou o olhar por um momento, antes de responder. — Eu só faço as imagens, senhor. O doutor vai analisar e conversar com o senhor em breve. — A resposta foi protocolar, mas a hesitação do técnico foi como uma agulha perfurando o véu de esperança que Lucas tentava manter.

O exame durou pouco mais de vinte minutos, mas parecia uma eternidade. Quando terminou, o técnico deu a Lucas instruções breves sobre como limpar o gel e como sair da sala. Lucas se vestiu em silêncio, os pensamentos correndo em um turbilhão. Ele voltou para a recepção, onde foi informado de que o doutor Henrique analisaria os resultados e que ele deveria aguardar. E ali ele esperou, os minutos se arrastando como horas.

Finalmente, o doutor Henrique o chamou para seu consultório. Ao entrar, Lucas notou como a expressão do médico estava séria, o que fez seu coração disparar. Sentou-se na cadeira à frente da mesa, tentando controlar a respiração. A tensão na sala era palpável, como se o ar estivesse carregado com algo denso e irrespirável.

O médico suspirou, pegando as imagens impressas do ultrassom. Ele olhou para Lucas, e naquele momento, a expressão dele dizia tudo. Lucas sentiu o chão se abrir sob seus pés antes mesmo de ouvir qualquer palavra.

— Lucas... — começou o doutor Henrique, escolhendo as palavras com cuidado. — Os resultados da ultrassonografia não são o que esperávamos. Encontramos algumas lesões no seu pâncreas... que precisam ser investigadas mais a fundo. — Ele pausou, observando a reação de Lucas.

Lesões. A palavra soou como um eco na mente de Lucas, repetindo-se até ele quase não conseguir mais respirar. — O que... o que isso significa? — Ele perguntou, a voz baixa e trêmula.

— Ainda precisamos de mais exames para termos um diagnóstico preciso. — O médico respondeu, com a calma de quem já fez esse tipo de anúncio inúmeras vezes. — Mas... existe uma suspeita de que essas lesões possam ser algo mais sério, como um tumor. Precisamos confirmar o que está causando essas alterações. Vou solicitar uma tomografia para termos uma visão mais clara.

Um tumor. A palavra atingiu Lucas como um soco no estômago. Ele abriu a boca para falar, mas as palavras não saíam. Tudo ao seu redor parecia estar se movendo, girando. O doutor continuou falando, explicando os próximos passos, mas Lucas não conseguia mais ouvir direito. Sua mente estava em outro lugar — em Marina, em tudo o que tinham construído, em cada momento que poderia ser perdido.

— Lucas? — A voz do médico o puxou de volta para a sala, e ele percebeu que o doutor Henrique o observava com preocupação. — Eu sei que isso é muita coisa para processar. Vamos fazer tudo com calma, ok? Se precisar de ajuda, se precisar de alguém para conversar, eu posso indicar profissionais para apoiá-lo nesse momento.

Lucas assentiu, mas era um gesto automático, vazio. Ele se levantou, pegando os papéis com as instruções para os próximos exames, e saiu da sala com as pernas pesadas, como se cada passo o estivesse levando mais para dentro de um pesadelo.

Lá fora, a chuva tinha se transformado em uma tempestade, e Lucas ficou parado na entrada da clínica, o papel em sua mão tremendo ao ritmo de suas mãos. Ele tentou respirar fundo, mas o ar parecia não entrar. Fechou os olhos, sentindo as gotas frias da chuva batendo contra seu rosto. O mundo ao seu redor estava caindo, mas ele precisava se manter firme. Precisava voltar para casa. Precisava ver Marina.

Pegou um táxi de volta para casa, e o trajeto pareceu durar uma eternidade. Cada vez que o carro passava por um semáforo vermelho, a angústia dentro dele aumentava. Ao chegar ao prédio, ele subiu as escadas rapidamente, o coração disparado, e quando abriu a porta de casa, encontrou Marina na cozinha, terminando de arrumar a mesa para o almoço.

— Você chegou cedo! — Ela disse, sorrindo para ele. — Que bom, pensei que fosse demorar mais... Fiz aquela salada que você gosta.

Lucas a observou por um momento, sem conseguir falar. Cada detalhe dela parecia tão... precioso. E, ao mesmo tempo, tão distante. Marina levantou o olhar e percebeu a expressão de Lucas, seu sorriso vacilando.

— Amor, o que aconteceu? — Ela deu um passo à frente, a preocupação estampada em seu rosto.

Lucas forçou um sorriso, tentando esconder o turbilhão dentro de si. Ele se aproximou, abraçando-a com força, sentindo o calor do corpo dela contra o seu. Por um momento, ele apenas ficou ali, segurando-a, tentando encontrar forças naquele abraço.

— Nada... — Ele mentiu, a voz saindo baixa. — Só... foi um dia difícil no trabalho.

Marina o abraçou de volta, acariciando suas costas suavemente. — Vai ficar tudo bem... Estou aqui, tá? Sempre.

Lucas fechou os olhos, tentando segurar as lágrimas. Porque naquele momento, a única coisa que ele conseguia pensar era em como tudo estava desmoronando. E ele não sabia quanto tempo mais conseguiria esconder aquilo dela.

Mas, por enquanto, ele só queria aproveitar aquele momento de paz, mesmo sabendo que a sombra do inimigo estava se aproximando, pronta para mudar tudo.

---

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!