O sol brilhava alto no céu, aquecendo as ruas da capital com sua luz dourada. O festival de independência era um espetáculo de cores e sons, com barracas repletas de aperitivos e artesanatos, crianças correndo por entre a multidão e música ecoando pelas vielas. Mas para Luthiel, era difícil se envolver naquela alegria. O peso do rebaixamento ainda pendia sobre seus ombros como uma sombra, mesmo em meio às celebrações. Cada olhar que cruzava o seu parecia carregar julgamento, e ela sentia como se fosse uma estranha entre seu próprio povo.
Caminhando pelas barracas, Luthiel tentava manter o foco em algo simples, talvez a sensação do cheiro de comida e doces no ar, o som de risos ao redor. Ela avistou Sylas de longe, ocupando-se com uma barraca de aperitivos. Seu rosto estava suado, e os cabelos negros pareciam ainda mais desalinhados sob a luz do sol. Quando ele a viu, os dois se encararam por um momento, e Sylas ofereceu um sorriso que parecia misturar exaustão e alívio.
— Pensei que já estaria em mar, capitão — Luthiel comentou, aproximando-se.
Sylas soltou uma risada baixa, mas havia algo sombrio em seus olhos.
— Tenho algumas coisas a resolver em terra — ele respondeu, balançando a cabeça como se quisesse afastar um pensamento indesejado. — E você? Como está se ajustando... a essa nova vida?
A pergunta a atingiu como uma lâmina. O rebaixamento ainda era uma ferida aberta, e Luthiel sentiu a dor daquela humilhação vir à tona. Ela desviou o olhar para o chão, tentando mascarar suas emoções.
— Prefiro não falar sobre isso — respondeu em voz baixa, mas havia algo em sua postura que indicava que ela sentia muito mais do que estava disposta a admitir.
Sylas suspirou, mordendo uma noz com a mesma frustração que parecia invadir seu corpo. Eles estavam no meio de um festival, cercados por alegria, mas aquilo só fazia o peso das suas próprias questões parecer maior.
— Negócios de família, hm? — Luthiel tentou mudar de assunto, lembrando vagamente de que Sylas tinha uma irmã que morava na capital — Muitas preocupações por aqui?
Ele ergueu uma sobrancelha, um brilho curioso surgindo em seus olhos.
— Como você sabia disso?
Ela engoliu seco, sua mente tentando encontrar uma saída rápida. Sabia disso por causa do livro, claro, mas não podia revelar isso.
— Ah, apenas... um palpite — ela desconversou, tentando sorrir, mas sentiu o desconforto crescer dentro dela.
Sylas a observou por mais alguns segundos, como se tentasse decifrar o que se passava em sua mente, mas decidiu não pressionar. Ele mudou de assunto, voltando a falar sobre o festival, sobre as festividades e como, de certa forma, isso parecia uma trégua entre a dura realidade que ambos estavam enfrentando.
Enquanto Sylas continuava a falar, Luthiel sentiu uma presença. Uma sombra ruiva em meio à multidão chamou sua atenção, e foi como se seu coração tivesse parado por um instante. Seu corpo enrijeceu, e sua respiração ficou presa em sua garganta. Alicia, dentro dela, sabia exatamente quem era aquela figura. Eliza.
Luthiel ficou imóvel, os olhos fixos naquela jovem de cabelos ruivos que caminhava despreocupadamente entre as barracas. O mundo ao redor pareceu se silenciar. As festividades, os sons e até mesmo a presença de Sylas ao seu lado se desvaneceram por um breve momento. Ali estava ela, a peça-chave de toda a história, a protagonista do livro, e Luthiel sabia que precisava se aproximar dela. Mas como? Ela conhecia o destino daquela jovem, conhecia as batalhas que ela enfrentaria, e agora, diante dela, Alicia sentia como se estivesse encarando uma oportunidade rara de mudar o curso da narrativa.
— Luthiel? — Sylas a chamou, a voz dele soando distante.
Ela não respondeu de imediato, seus olhos ainda fixos em Eliza, sentindo o peso de algo maior do que poderia compreender.
— O que você viu? — Sylas perguntou, preocupado.
Luthiel rapidamente piscou, voltando à realidade. Ela precisava disfarçar, precisava manter Eliza fora do radar de Sylas, pelo menos por enquanto.
— Não é nada — respondeu com pressa, tentando soar convincente. — Apenas... alguém conhecido, talvez. Nada importante.
Mas era, oh, era.
Ela sabia exatamente quem Eliza era e o que aquela jovem significava para o futuro de todos eles. E agora, de repente, Alicia — não Luthiel — tinha uma ideia perigosa. E se ela pudesse mudar o futuro? E se pudesse evitar toda a dor que sabia que estava por vir? O pensamento a eletrizou.
Sylas a olhou desconfiado, mas algo nele parecia aceitar a resposta, mesmo que relutante. Ele pegou outra noz da barraca e mastigou, mas seus olhos não saíram de Luthiel.
— Você está estranha hoje. — Sylas comentou com um leve sorriso. — Desde o rebaixamento, as coisas têm sido... difíceis, não é?
Luthiel suspirou, sua mente ainda fervilhando com a ideia de Eliza. Ela tentou forçar um sorriso de volta.
— Talvez seja o peso de tudo. Ainda estou tentando me ajustar. Não é fácil voltar a ser... só mais um soldado.
Sylas colocou a mão no ombro dela, um toque firme e reconfortante.
— Independente do que aconteceu, eu sei que você vai encontrar um caminho. Eu... sempre acreditei nisso.
Luthiel sentiu o peso daquele gesto, e por um momento, seu peito se apertou. Alicia dentro dela sabia que Sylas tinha um papel importante, mas agora, sua mente estava tomada pelo encontro iminente com Eliza.
— Preciso... ir — disse Luthiel, subitamente tomada por uma urgência. Ela começou a se afastar, determinada a seguir Eliza. — Nos falamos depois, Sylas.
Sylas a observou se afastar com uma expressão de confusão, mas algo nele parecia entender que Luthiel precisava de espaço.
Luthiel seguiu pela multidão, com o coração disparado. Eliza estava ali, à sua frente, e talvez... apenas talvez... ela tivesse a chance de mudar o curso da história.
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Atualizado até capítulo 23
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