Capítulo 8

Ainda no jardim, o príncipe Rían manteve o olhar firme sobre Luthiel. O silêncio entre eles era quebrado apenas pelo suave farfalhar das folhas ao vento e o som distante da vida no castelo. Ele observava Luthiel atentamente, como se tentasse decifrar algo em seu semblante.

— Seus aposentos estão prontos e à sua espera, Luthiel — disse ele, sua voz baixa, mas carregada de uma preocupação que ele não se esforçava em esconder. — Ouvi dizer que você passou muitos dias à deriva no mar. Seria sensato descansar propriamente antes de encarar o rei.

Luthiel o fitou, surpresa pela consideração em suas palavras. O príncipe Rían não costumava demonstrar tanta preocupação de forma explícita. Havia algo no tom dele que deixava claro que, por trás de seu título e posição, existia uma camada mais profunda de cuidado, talvez até de carinho, que ele nunca havia permitido mostrar antes.

O príncipe estendeu a mão para ela, um gesto sutil, mas que carregava um peso inesperado. O simples movimento pareceu deixar o ar ao redor mais denso, como se as palavras não fossem suficientes para expressar o que ambos estavam sentindo naquele momento. Luthiel, hesitante, olhou para a mão dele, mas antes que pudesse reagir, Sylas, que havia se mantido ao lado deles, agora parecia sentir-se deslocado.

Sylas, percebendo a mudança na atmosfera, inclinou-se ligeiramente, com uma expressão de desconforto. Ele sabia o que estava acontecendo ali, embora nunca fosse admitir para si mesmo de forma clara. A lealdade dele para com Luthiel sempre fora inquestionável, mas ali, naquele momento, ele não era necessário. Ele não pertencia àquele instante entre os dois.

— Se me derem licença, Vossa Alteza, Luthiel... — Sylas murmurou, tentando disfarçar o peso das emoções que o estavam consumindo. — Creio que tenho deveres a cumprir.

Luthiel percebeu o tom sutil na voz dele e, por um instante, seus olhos se encontraram. Havia uma tristeza velada nos olhos de Sylas. Antes que pudesse dizer algo, ele já se afastava, deixando-os sozinhos no jardim.

O príncipe, observando Sylas se retirar, voltou sua atenção para Luthiel, ainda com a mão estendida, agora parecendo mais uma oferta do que uma formalidade.

— Posso conduzi-la até seus aposentos? — perguntou Rían, um sorriso suave curvando os cantos de seus lábios.

Luthiel hesitou por um momento, o coração batendo rápido demais no peito. O toque de Rían sobre a mão dela provocava uma sensação desconhecida que percorreu seu corpo, uma sensação que Alicia não entendia completamente. Seu corpo parecia reagir com um calor crescente, os dedos formigando onde os dele a tocavam. Ela não sabia se era o corpo de Luthiel ou se, de alguma forma, aquilo vinha dela mesma.

A última vez que Alicia se sentira assim foi no ensino médio, com um colega de classe. Ela se lembrava bem de como admirava aquele rapaz de longe, com o coração disparado a cada interação. Isso foi antes de sua doença mudar tudo, antes de sua vida dar uma guinada para a realidade implacável. E agora, essa sensação a atingia de novo, naquele corpo que não era seu, mas que parecia amplificar todas as emoções.

Ela forçou um sorriso, tentando esconder o turbilhão de sentimentos.

— Seria uma honra, Vossa Alteza — disse, mantendo o tom formal, mesmo que sua mente estivesse em uma batalha constante para não se deixar levar pela situação.

Rían, ainda segurando sua mão, começou a caminhar ao lado dela, conduzindo-a pelos jardins em direção à torre dos aposentos. À medida que caminhavam, o silêncio entre eles se tornava cada vez mais confortável. Não era um silêncio pesado ou desconfortável, mas uma pausa tranquila, quase como se ambos soubessem que não precisavam de palavras para preencher o espaço entre eles.

As flores ao redor brilhavam sob a luz suave do sol poente, e o perfume delicado das rosas e das ervas se misturava no ar. Luthiel olhava para os jardins, tentando encontrar algum ponto de foco que a afastasse da presença de Rían ao seu lado. No entanto, era impossível ignorá-lo. A cada passo, sentia o calor de sua mão, a proximidade de seus corpos, e aquilo a deixava confusa.

As memórias de Alicia lutavam para se sobrepor às de Luthiel. Ela sabia que, na história, Luthiel nunca havia nutrido sentimentos por Rían. Ela era apenas a guardiã, dedicada ao dever e à proteção da família real. Mas, naquele momento, a sensação no corpo de Luthiel era tão intensa que Alicia não conseguia separar o que era o dever de Luthiel e o que eram suas próprias emoções.

Ao chegarem à torre, Rían parou em frente à grande porta de madeira esculpida que levava aos aposentos de Luthiel. Ele soltou a mão dela com gentileza, mas não antes de olhá-la diretamente nos olhos, um olhar que parecia tentar entender o que estava acontecendo em sua mente.

— Descanse bem, Luthiel — ele disse, a voz mais suave do que antes. — Amanhã será um dia importante, e o rei espera muito de você.

Luthiel assentiu, tentando manter a compostura. O peso da responsabilidade sobre seus ombros era imenso, mas naquele momento, não era só o reino que estava em jogo. Havia algo mais. Algo que ela não conseguia nomear, mas que a deixava inquieta.

— Obrigada, Vossa Alteza — respondeu, com um leve aceno de cabeça.

Rían hesitou por um instante, como se quisesse dizer algo mais, mas logo deu um passo para trás, afastando-se. Ele se virou e começou a se retirar, deixando-a diante da porta de seus aposentos.

Luthiel suspirou profundamente e, com uma sensação de exaustão tanto física quanto emocional, entrou em seus aposentos. O ambiente era familiar, mas ao mesmo tempo parecia distante, como se fosse parte de outra vida.

Enquanto se aproximava da janela para observar o sol que começava a desaparecer no horizonte, Alicia — ou Luthiel — sabia que aquele era apenas o início de algo muito maior.

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