Capítulo 15

Luthiel caminhava silenciosamente pelos jardins do palácio, deixando seus passos leves levarem-na por entre as árvores sagradas. Essas árvores, antigas como o próprio mundo, guardavam os segredos do tempo, suas folhas imponentes sussurrando histórias esquecidas. O grande carvalho à frente dela, com seu tronco acinzentado e imponente, parecia um guardião vigilante da criação, uma testemunha silenciosa de tudo que havia acontecido desde o início.

Alicia, imersa no corpo de Luthiel, respirou fundo, sentindo o peso da recente humilhação ainda queimando em suas entranhas. Seus dedos roçaram a casca da árvore, áspera e fria, e por um momento, ela desejou poder se perder na imensidão daquele ser milenar, esquecer tudo o que tinha acontecido.

Mas algo interrompeu seus pensamentos. O som de passos leves atrás dela fez com que seu instinto de guerreira se despertasse. Ela não precisava se virar para saber quem era.

— Você não deveria ter enfrentado seu pai daquela forma na frente de todos — disse Luthiel, sua voz calma, mas firme.

Rían se aproximou com passos hesitantes, sua presença quase etérea entre as árvores. Alicia, dentro de Luthiel, olhou para ele de relance. A pele dele parecia feita de leite puro, os olhos brilhantes como safiras emolduradas por longos cílios. E havia algo mais, uma beleza crua, quase sobrenatural. O livro sempre havia destacado a virilidade e o charme de Rían, e agora, diante dele, Alicia não podia discordar: ele era o homem mais bonito que já tinha visto.

— Eu só fiz o que achei certo — justificou-se Rían, sua voz suave, mas carregada de uma tensão subjacente. — Eu não podia ficar calado enquanto ele... ele te humilhava daquela forma.

Luthiel se manteve imóvel, voltando os olhos para o grande carvalho. Alicia sabia que Luthiel não poderia permitir que emoções pessoais influenciassem suas ações, mas a força das palavras de Rían pesava sobre ela.

— Eu não pedi para você me defender, Rían — disse Luthiel finalmente, a voz firme. — Seu pai é o rei. Ele tinha o direito de me punir, e você, como herdeiro, tem responsabilidades. Não deveria ter se oposto a ele. Não na frente de todos.

Rían se aproximou mais, seu olhar oscilando entre a coroa de folhas na cabeça de Luthiel e seu rosto marcado pela recente humilhação. Ele parecia confuso, quase perdido em seus próprios pensamentos.

— Eu sei... mas não posso aceitar que ele faça isso com você. — Ele parou, observando a coroa de prata que agora adornava sua cabeça. — E saiba que o que aconteceu hoje... não vai ficar barato. Ele não esquecerá, Luthiel. E nem eu.

Luthiel desviou o olhar, seus olhos agora fixos no grande caule da árvore à sua frente. Alicia, refletindo sobre o que acontecera, sentiu algo surgir em sua mente. Algo filosófico, uma verdade maior sobre o mundo e sobre as escolhas que estavam diante dela. E foi Luthiel, com sua sabedoria natural, quem falou.

— Olhe para essa árvore, Rían — disse Luthiel, sua voz suave, quase melancólica. — Ela tem milhares de anos, suas raízes são profundas, e seus galhos tocam o céu. Ela já enfrentou ventos, tempestades e até o fogo. No entanto, ela permanece de pé, não porque é inquebrável, mas porque ela se adapta. Suas folhas caem no outono, mas renascem na primavera. Não importa o quão forte seja a tempestade, a árvore sabe que há ciclos, que há tempos para resistir e tempos para ceder.

Rían a observava em silêncio, absorvendo suas palavras. Alicia podia sentir o peso do que estava sendo dito.

— Às vezes, nós, como essa árvore, temos que ceder, Rían — continuou Luthiel, os olhos ainda fixos no tronco. — Não por fraqueza, mas por sabedoria. Há momentos em que resistir é inútil, e outros em que o verdadeiro poder está em saber quando abaixar a cabeça e esperar pelo momento certo de agir.

Ela virou-se lentamente para encará-lo, seu rosto sério, mas sereno.

— Hoje, eu me curvei não porque estava errada, mas porque há uma tempestade que não posso enfrentar sozinha. Você não pode enfrentá-la sozinho. Há coisas maiores em jogo, e o que enfrentamos agora é apenas uma distração. O Inimigo está lá fora, planejando algo maior. E eu acredito nisso, com cada fibra do meu ser.

Rían pareceu querer dizer algo, mas se calou, perdido nas palavras de Luthiel. Ele olhou novamente para a coroa de prata, o símbolo de seu rebaixamento, e um breve brilho de raiva passou por seus olhos. Então, uma sombra de curiosidade passou pelo seu semblante.

— Como você sabe disso, Luthiel? — Ele perguntou, a voz baixa, mas incisiva. — Como você conseguiu sentir o Inimigo? Eu ouvi histórias sobre ele, claro, como todos nós. Um ser ancestral maligno que, depois de séculos, acordou. Mas sentir...?

Alicia, dentro de Luthiel, pensou por um momento. Ela se lembrou de como o livro havia começado, descrevendo Luthiel sentindo uma energia estranha no ar, algo que a alertava de que algo estava profundamente errado. Era uma força invisível, inexplicável. Talvez fosse seu instinto de guardiã, ou o próprio dever de proteger o reino, algo intrínseco ao seu ser. Mas, no fundo, Alicia sabia, assim como Luthiel, que era algo muito mais profundo.

Quando Alicia virou a última página daquele livro, tudo ficou claro. Luthiel era de Sangue Antigo, uma linhagem ancestral que também carregava um poder antigo. Algo que a conectava diretamente à essência do mundo e às forças primordiais que o moldaram. Era por isso que ela conseguia sentir o Inimigo. Mas, naquele momento, Alicia sabia que essa informação não poderia ser compartilhada.

— Talvez seja apenas o meu dever... meu coração... — disse Luthiel vagamente, tentando manter o tom controlado. — Algo em mim sempre esteve inclinado a proteger o reino, a guardar nosso mundo. Não sei como explicar, Rían, apenas *sinto*.

Rían permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo suas palavras. Seus olhos escureceram, e sua expressão se tornou mais grave.

— Seja lá o que for, Luthiel — disse ele, cruzando os braços e olhando para o horizonte —, isso fez com que toda a sua tripulação morresse. Eles te seguiram, e agora estão mortos. — Ele parecia estar pensativo, quase se perguntando em voz alta. — O que seria capaz de matar uma tripulação inteira...?

Luthiel o observou por um momento, sentindo o peso de suas palavras. O olhar dele estava distante, e, por um instante, ela sabia que ele estava tentando conectar as peças, tentando entender o que havia acontecido. Mas Alicia sabia bem o que estava por vir. Rían, como todos os outros, não acreditaria nas advertências dela. Assim como ninguém acreditou no livro.

Ela endireitou os ombros e balançou a cabeça levemente.

— Você não entenderia, Rían — ela respondeu, sua voz carregada de uma resignação amarga. Ela deu um passo para trás, se virando em direção às árvores que a cercavam. — Não ainda.

Ela começou a se afastar, suas pernas movendo-se automaticamente.

Quando ela já estava quase desaparecendo entre as árvores, a voz de Rían a alcançou novamente, suave, mas carregada de um peso que ela não esperava.

— Amigos não guardam segredos, Luthiel.

Ela parou por um breve segundo, as palavras perfurando-a como um lembrete do laço que eles já tiveram. O vento balançou as folhas ao redor, como se o próprio mundo estivesse prendendo a respiração.

Mas, sem olhar para trás, Luthiel continuou andando, sabendo que, pelo menos por enquanto, aquele era um segredo que precisava ser guardado.

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