Os dias passaram lentamente, e Luthiel teve mais tempo para digerir os eventos recentes. O sono, ainda que inquieto, ajudou a colocar seus pensamentos em ordem. As lembranças do salão, o rebaixamento humilhante, e a dor de ver seus esforços ignorados pairavam sobre ela, mas agora, havia uma clareza que antes não existia.
Depois de um turno longo e exaustivo como um soldado comum, patrulhando as ruas da cidade que uma vez olhou de cima como comandante, Luthiel voltou aos seus aposentos. Os dias de glória, quando sua presença comandava respeito, haviam ficado para trás. Não mais ela tinha os privilégios da torre nobre do castelo. Seus pertences, uma vez dispostos cuidadosamente no espaço elevado, foram reduzidos ao essencial e amontoados em um pequeno quarto.
Deitada na cama, seus cabelos áureos espalhados sobre o travesseiro, Luthiel — ou Alicia, dentro dela — contemplava o futuro. "Deveria me situar na trama," pensou, uma sensação de urgência crescendo dentro dela. Parte da história já havia se desenrolado: o rebaixamento de Luthiel, sua humilhação pública. Agora, esse evento oferecia uma abertura para os próximos acontecimentos.
Alicia sabia que a verdadeira narrativa ainda não havia começado. A protagonista, Eliza, ainda estava longe de entrar em cena, mas ela sabia que esse momento estava prestes a chegar. Eliza era o tipo de personagem clássica: uma órfã de origem misteriosa, com um coração destemido, olhos astutos, e uma força de vontade inabalável. Havia uma pureza e uma inocência nela que conquistavam a todos ao seu redor. Mas Eliza não era apenas uma mocinha qualquer; seu papel na história era fundamental.
Alicia se lembrou do enredo do livro. Eliza, apesar de ser uma personagem jovem e aparentemente inexperiente, possuía um dom poderoso que estava ligada diretamente à magia primordial do mundo. No começo da história, ela mal sabia sobre seu próprio poder, mas, conforme os acontecimentos se desenrolavam, ficava claro que ela era a chave para derrotar O Inimigo. O destino de todos estava vinculado à coragem e ao coração de Eliza.
Uma ideia começou a se formar na mente de Alicia. E se ela encontrasse Eliza antes que a trama do livro realmente começasse? E se, sabendo o que estava por vir, pudesse mudar o curso da história? As tragédias que Luthiel sofrera, as perdas e desilusões — tudo isso poderia ser evitado se ela agisse com antecedência. E se Eliza soubesse desde o início o que realmente estava em jogo?
Sentada na cama, Alicia ponderou sobre essa possibilidade. Ela estava presa em um corpo que, tecnicamente, não era seu. Mas ao mesmo tempo, era. Luthiel não era mais apenas um personagem de um livro — era uma parte dela. Havia uma fusão entre elas, e talvez isso pudesse ser a chave para mudar o desfecho da história. Se Alicia pudesse usar seu conhecimento do livro para se adiantar aos acontecimentos, quem sabe como tudo se desenrolaria?
Eliza estava destinada a encontrar os personagens centrais da trama mais adiante, quando a guerra contra O Inimigo estivesse se intensificando. Mas, e se Luthiel — ou melhor, Alicia — encontrasse Eliza primeiro? Se pudesse preparar a jovem heroína para os desafios que estariam por vir? Isso poderia mudar o equilíbrio de poder, poderia evitar as traições e as mortes que ela sabia que iriam ocorrer.
Alicia sabia que a história precisava seguir seu curso, mas dentro dela, havia uma vontade de lutar contra o destino. Ela não acreditava mais que as coisas estavam predestinadas. Afinal, ela mesma não era parte daquela história originalmente, e sua presença já havia alterado pequenos detalhes.
De repente, Luthiel sentou-se, a decisão começando a se formar em sua mente. Não havia mais tempo a perder. O destino do mundo, do reino, de todos — e o dela própria — estavam em risco. Encontrar Eliza antes de tudo começar poderia ser sua única chance de reescrever o final.
Luthiel respirou fundo, tentando acalmar a mente. Seria arriscado? Sim. Eliza ainda era uma jovem que vivia nas sombras, sem ideia de quem ela era ou do papel que desempenharia. Mas Alicia sabia o que estava em jogo. Ela sabia das forças que se moviam nas sombras, das traições que se desenrolariam e do sangue que seria derramado. Talvez, ao encontrar Eliza, pudesse forjar uma nova aliança. Uma que desafiasse o destino traçado nas páginas daquele livro.
Com a mente firme em seu novo objetivo, Luthiel se levantou da cama. O cansaço da patrulha ainda pesava em seus ossos, mas a chama da determinação queimava em seu peito. Ela estava prestes a se aventurar em um território desconhecido.
“Agora,” ela murmurou para si mesma, olhando o reflexo no espelho, “é a minha vez de escrever esta história.”
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Atualizado até capítulo 23
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