Capítulo 10

No dia seguinte, Luthiel se olhou no espelho, ajustando sua armadura reluzente. O metal cintilava à luz do sol que entrava pelas janelas de seu quarto. Cada placa era cuidadosamente polida, refletindo a austeridade de sua missão. Ela parecia imponente, quase inabalável, como a guardiã que sempre foi. No entanto, por dentro, Alicia sentia o coração disparar. A audiência com o rei estava prestes a começar, e ela sabia que não havia como escapar das consequências de suas ações.

Sylas estava perto da porta, observando-a em silêncio. Ele parecia pensativo, as mãos cruzadas atrás das costas, como se estivesse reunindo coragem para dizer algo. Seus olhos, sempre tão calmos, estavam carregados de uma emoção contida, algo que Alicia, no corpo de Luthiel, reconheceu como preocupação.

— Você está pronta para isso? — perguntou ele, em um tom que soava mais como uma afirmação do que uma pergunta.

Luthiel prendeu a respiração por um segundo, sentindo o peso de sua responsabilidade. Ela apenas assentiu, sem palavras.

Sylas se aproximou, os passos hesitantes, e então parou diante dela, a uma distância respeitosa. Ele olhou profundamente nos olhos dela, como se quisesse dizer mais do que o momento permitia.

— Eu quero que saiba que, independente de qualquer coisa que esteja ou aconteça atrás daquela porta — ele fez uma pausa, sua voz ficando grave —, você sempre saiba que terá o meu apoio.

Ele segurou o olhar dela por um momento mais longo do que o normal, e então, sem dizer mais nada, se afastou, permitindo que Luthiel fizesse o caminho sozinha.

Luthiel respirou fundo. As palavras de Sylas lhe deram uma sensação mista de conforto e de temor. Era reconfortante saber que ele estava ao seu lado, mas aquilo também ressaltava a gravidade do que estava prestes a acontecer. Ela não estava apenas diante de uma corte, mas de um rei traído, um homem que não tolerava insubordinações.

Quando ela entrou no grande salão, o silêncio caiu sobre a multidão. Todos os olhos se voltaram para ela, e o murmúrio da multidão se dissipou instantaneamente. Alicia, no corpo de Luthiel, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era como se estivesse andando no meio de um campo de batalha, cercada por inimigos invisíveis.

Cada passo que ela dava ecoava pelo grande hall, o clangor metálico de sua armadura sendo a única coisa audível. As fileiras de nobres, generais e conselheiros a observavam como se estivessem vendo um fantasma. Muitos pensaram que ela não sobreviveria. Outros, que jamais voltaria. No entanto, ali estava ela, diante deles, caminhando com determinação até o trono.

Ao alcançar o centro do salão, ela se curvou diante do rei, sentindo o peso de sua armadura fazer um leve ruído ao tocar o chão. O silêncio era esmagador. O rei a olhava de seu trono, os olhos penetrantes fixos nela. Ele demorou um longo tempo antes de falar, como se estivesse considerando todas as palavras que iria usar.

— Levante-se — ordenou, sua voz ecoando pelas paredes do salão.

Luthiel se ergueu lentamente, os olhos evitando os do rei por um breve momento, até que finalmente se encontraram. O rei, um homem de postura imponente e presença avassaladora, levantou-se de seu trono. Ele desceu os degraus lentamente, a capa pesada arrastando-se atrás de si, e parou diante dela, tão próximo que ela pôde sentir sua autoridade como um peso tangível no ar.

— Guardiã Luthiel — começou ele, sua voz baixa, mas carregada de severidade. — Você ousou desobedecer uma ordem direta.

A sala permaneceu em um silêncio absoluto. Cada palavra do rei parecia pesar uma tonelada, e o ar parecia vibrar de tensão.

— Enquanto eu lidava com as ameaças no norte — continuou ele, agora andando em círculos ao redor de Luthiel, como um predador avaliando sua presa —, você, a minha mais confiável guardiã, partiu para o sul. Levou com você os homens mais valorosos deste reino e os colocou em risco. — Ele parou, ficando de frente para ela novamente. — Muitos desses homens não voltaram.

Ele deixou as palavras pairarem no ar, enquanto o peso da acusação afundava como uma pedra no peito de Luthiel.

— Explique-se — disse ele finalmente, os olhos fixos nela, esperando por uma resposta.

Luthiel manteve a cabeça erguida, mesmo com o peso das palavras do rei quase a fazendo vacilar. O olhar dele era implacável, o silêncio no grande salão fazia o ar parecer mais pesado. Ela sabia que estava diante de uma tormenta prestes a cair sobre ela, mas tentou manter a postura.

— Vossa Majestade, eu senti que o perigo estava no sul. Algo me dizia que o norte era uma distração, que O Inimigo estava se fortalecendo em outra direção. — A voz dela vacilou um pouco, mas ela logo retomou a firmeza. — Não pude ignorar essa intuição.

O rei parou abruptamente em sua caminhada ao redor dela, virando-se com uma expressão de raiva mal contida. Seus olhos faiscavam com uma fúria fria, e ele se aproximou ainda mais, até que estavam a uma distância perigosa.

— Sentiu? — A palavra saiu de seus lábios como um açoite, reverberando nas paredes do salão. — Você sentiu que o norte era uma distração?

O salão inteiro parecia prender a respiração enquanto o rei falava, a incredulidade e o desdém escancarados em cada palavra.

— Nós não governamos um reino baseado em sentimentos, Guardiã Luthiel. Nós governamos com fatos, com ordens, com estratégia. — Ele deu um passo à frente, tão perto que Luthiel podia sentir o peso da sua autoridade. — Você se rebelou contra o comando real porque teve... um pressentimento?

Luthiel respirou fundo, sabendo que a fúria do rei só aumentaria. Alicia, dentro dela, sentia o coração disparar, mas ela manteve o controle, tentando dar voz à personagem.

— Eu não tenho provas físicas do que aconteceu no sul, Majestade — ela disse, com a voz o mais firme que pôde. — Mas a minha experiência, os anos em que servi ao reino, me fizeram perceber que havia algo errado. Eu não podia ignorar isso.

A expressão do rei ficou ainda mais dura. Ele estava quase rindo de desgosto, sem acreditar nas palavras que acabara de ouvir.

— Você sacrificou homens valorosos... arriscou seu próprio pescoço... porque sentiu que o perigo estava no sul? — Ele se virou para a multidão no salão, como se estivesse pedindo a eles para testemunharem o absurdo daquilo. — Ouçam todos, nossa guardiã, a mais fiel de todas, decidiu que suas *emoções* eram mais importantes do que a ordem do rei!

O murmúrio recomeçou entre os nobres presentes, ecoando pelo salão. Alicia podia sentir o peso do julgamento de todos os olhares, mas tentou não ceder à pressão. Ela sabia que não podia dar mais explicações sem revelar coisas que Luthiel, na narrativa original, havia mantido em segredo por tanto tempo.

O rei, voltando sua atenção para Luthiel, deixou sua expressão se suavizar por um momento, mas isso não trouxe alívio. Pelo contrário, havia uma ameaça latente em seu tom quando ele falou novamente.

— Não era sua função sentir, Luthiel. Sua função era obedecer. Se cada um dos meus generais, conselheiros e guardiões seguisse o que sente, o reino já teria desmoronado há muito tempo. Você falhou comigo. — Ele fez uma pausa, cada palavra calculada como uma sentença. — E falhou com este reino.

O silêncio foi absoluto novamente. O peso das palavras do rei era sufocante, e Luthiel sentia a pressão aumentar. Ela sabia que, na história, Luthiel havia sido desacreditada por todos, e ali, Alicia podia ver o recomeço de tudo isso. Não iria revelar o que Luthiel viu, e ouviu. Não. Ela iria fazer diferente agora.

O rei voltou ao trono, cada movimento dele exalando poder e desaprovação. Ele se sentou e, por um momento, observou-a de cima, como se decidisse o que faria com ela.

— As consequências de sua insubordinação serão severas, Guardiã — disse ele, finalmente, com um tom de frieza implacável. — Você será julgada não apenas por mim, mas por todos aqueles que confiaram em você e não voltaram do sul. E seja qual for o julgamento deste reino, que todos aqui saibam: ninguém está acima das ordens do rei.

Luthiel sentiu o peso esmagador dessas palavras, sabendo que as consequências estavam apenas começando.

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