Luthiel entrou em seus aposentos, sentindo o peso do dia finalmente repousar sobre seus ombros. A longa jornada no mar, o reencontro inesperado com Sylas e Rían, e agora a iminente audiência com o rei. Tudo parecia se acumular em uma onda de responsabilidades e incertezas que ameaçava afogá-la. Mas, naquele momento, tudo o que ela queria era um breve instante de paz.
Ela caminhou até a grande banheira de mármore que a esperava no canto do quarto. A água quente já estava preparada, emanando um vapor suave que parecia convidá-la a mergulhar e deixar para trás, ao menos por um instante, o fardo de seus deveres. Luthiel, ou melhor, Alicia, hesitou por um segundo, antes de despir-se da túnica pesada e entrar na água. O calor imediato contra sua pele trouxe uma onda de alívio, e ela se permitiu relaxar completamente pela primeira vez desde que despertara no navio.
Enquanto seu corpo era envolvido pela água, Alicia deixou seus pensamentos vagarem. A sensação era tão reconfortante, tão familiar e ao mesmo tempo distante. Fazia tanto tempo que ela não tinha a oportunidade de simplesmente parar e cuidar de si mesma. Os dias de hospital, o tratamento e a exaustão constante eram tudo o que ela conhecia. Agora, naquele corpo, ela experimentava algo diferente — a vitalidade de uma guerreira, alguém cuja força era tangível.
Depois de algum tempo, Luthiel saiu da banheira e envolveu-se em uma toalha macia. Ao olhar ao redor, seus olhos se fixaram em uma escova delicada sobre a penteadeira próxima. Ela a pegou, os dedos sentindo o peso leve do objeto, e começou a pentear os cabelos longos e dourados de Luthiel. Alicia não pôde deixar de se surpreender com a suavidade dos fios, como se fossem seda pura passando entre seus dedos.
Enquanto penteava os cabelos, ela se viu perdida em pensamentos. Fazia tanto tempo desde a última vez que experimentara algo tão simples quanto pentear os próprios cabelos. Com a doença, Alicia havia perdido aquele gesto cotidiano, aquele momento de autocuidado. Agora, era diferente. Ela olhou para o espelho e, por um momento, ficou surpresa com a beleza que via refletida. Luthiel era deslumbrante — os traços delicados e firmes, os olhos expressivos e os cabelos dourados que caíam como uma cascata sobre seus ombros.
Alicia nunca havia imaginado o quão bonita Luthiel era, e o fato de que essa beleza estava escondida sob a armadura de uma guerreira a deixava inquieta. Luthiel não era uma dama da corte, cercada por luxo e frivolidade. Ela era uma guardiã, uma soldada que vivia para proteger o reino e o príncipe. Essa dualidade a assustava. Havia uma força interior ali, uma beleza que não era para ser celebrada como as das damas da corte, mas sim para ser usada em batalha, em defesa dos outros.
Enquanto penteava os cabelos, Alicia tentou lembrar-se do enredo do livro, buscando qualquer pista que pudesse ajudá-la a entender mais sobre Luthiel. As origens de Luthiel eram mencionadas de forma breve na narrativa, um fragmento do passado que os leitores nunca tiveram a chance de explorar completamente. Tudo o que se sabia era que Luthiel era filha de um capitão caído em desgraça, um homem que uma vez havia servido lealmente ao reino, mas que, após um erro fatal em batalha, fora desonrado. Sua filha, Luthiel, havia se dedicado a redimir o nome da família, tornando-se a mais leal e hábil das guardiãs do rei.
No entanto, a narrativa não focava em sua história pessoal. Tudo o que importava no livro era o romance entre o príncipe Rían e a heroína Eliza. Os protagonistas dominavam a trama, enquanto personagens como Luthiel e Sylas eram relegados a papéis secundários, apenas ferramentas para mover a história principal. Isso sempre a havia irritado. Alicia se lembrava de como, quando leu o livro pela primeira vez, desejou saber mais sobre personagens como Luthiel. Quanta profundidade estava sendo negligenciada? Quanta dor, quantas histórias não contadas? Era como se eles fossem sombras na narrativa brilhante de Rían e Eliza, personagens sacrificados em nome do romance central.
Ela suspirou ao se lembrar disso. Enquanto aceitava os cabelos, Alicia não podia deixar de se perguntar como Luthiel havia se sentido em sua própria história. Era uma personagem destinada a servir, a sacrificar-se. E agora, Alicia estava dentro desse papel, forçada a viver as consequências das escolhas de Luthiel.
De repente, um pensamento cortou sua reflexão.
A audiência com o rei.
Alicia sabia que aquele momento seria decisivo. No livro, Luthiel havia se mostrado forte e determinada diante da corte. Ela não deixaria sua honra ser questionada, mesmo que o rei estivesse furioso por sua insubordinação. A guardiã tinha feito o que acreditava ser certo, e mesmo que ninguém mais entendesse isso, Luthiel nunca vacilou.
Ela precisava lembrar como Luthiel reagira na narrativa original. Alicia fechou os olhos e se esforçou para reviver as cenas descritas no livro. A forma como Luthiel se manteve firme diante do rei, mesmo sabendo que poderia ser punida severamente. Ela se manteve leal à sua própria convicção, à sua missão de proteger o reino, mesmo que isso significasse desobedecer ordens diretas.
“Eu fiz o que tinha que ser feito”, dizia Luthiel no livro, a voz firme, mas cheia de emoção. “O inimigo está mais perto do que imaginamos, e se eu tivesse ficado quieta, todo o reino estaria em risco. Meu dever é proteger, não apenas seguir ordens.”
Essas palavras ecoaram na mente de Alicia, e ela soube que precisava canalizar a mesma força interior quando enfrentasse o rei. Mesmo que estivesse apavorada por dentro, mesmo que não soubesse o que a esperava, ela precisava ser Luthiel agora. Não havia mais espaço para dúvidas.
Ela colocou a escova de lado e olhou para o reflexo no espelho, os olhos de Luthiel encarando-a de volta. Era como se as duas almas estivessem se entrelaçando, uma empurrando a outra para frente, preparando-se para o que estava por vir.
A audiência estava prestes a acontecer, e Alicia precisaria se lembrar de cada detalhe do que Luthiel era, e de como ela enfrentaria aquele momento. Ela precisaria ser mais do que apenas uma leitora. Ela precisaria ser a guardiã.
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Atualizado até capítulo 23
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