Uma batida firme na porta interrompeu seus pensamentos. Cristian entrou, como sempre, impecável e sereno, com aquela expressão profissional que Isabel tanto admirava. Ele tinha uma habilidade invejável de manter a calma, mesmo nas situações mais críticas — uma tranquilidade que ela desejava possuir naquele momento.
"Está pronta?" ele perguntou, sua voz suave, mas carregada de uma confiança que a ancorou de volta à realidade.
Isabel levantou o olhar, encontrando os olhos de Cristian. Por um breve instante, ela hesitou. As memórias de Hygor, as traições, a confusão... tudo isso pesava sobre seus ombros. Mas ela sabia que não havia mais espaço para vacilar. O passado não podia ser reescrito, e o futuro dependia do que ela fizesse naquele exato momento.
"O representante do Grup'Art... quero dizer, Hygor já está esperando," completou Cristian, avaliando-a com o olhar, como se quisesse medir sua determinação.
Ela respirou fundo, forçando-se a acalmar o caos interior. Aquela reunião não era apenas uma questão de negócios. Era o início de sua vingança, a retomada de seu poder. Richard, Hygor, todos que haviam conspirado para destruí-la, agora enfrentariam a mulher que ela havia se tornado — fria, calculista, implacável. "Vamos acabar com isso de uma vez por todas," disse ela, a voz firme, embora por baixo da fachada de controle houvesse uma tensão latente.
Cristian assentiu, um leve sorriso nos lábios, como se entendesse que aquela batalha era tão dela quanto dele. Isabel sabia que podia contar com ele, mas o peso daquela jornada era só seu. Com um último olhar para a tela, onde a ficha de Hygor ainda brilhava, Isabel se levantou. O nome dele queimava em sua mente, e, por mais que tentasse, a dor de saber que ele não se lembrava de nada continuava a consumir seu coração.
Ajustando o lenço ao redor do rosto, ela deu um passo decidido em direção à porta. Ao sair, seu corpo estava rígido, pronto para a guerra que a esperava. As sombras de seu passado pairavam sobre ela, mas Isabel não se deixaria paralisar pelo medo. Sabia que aquele dia seria um divisor de águas, e que a trajetória que escolhesse moldaria não apenas sua vingança, mas o destino de todos que ousaram cruzar seu caminho.
Com cada passo, a tensão aumentava. O hall do Grup’IC, majestoso e austero, parecia tentar esmagá-la, mas Isabel mantinha a postura firme, a cabeça erguida. Cada detalhe daquela reunião havia sido meticulosamente planejado, e ela estava pronta para o confronto. O futuro era incerto, mas uma coisa era clara: Isabel não era mais uma vítima. Agora, era ela quem ditava as regras. E não estava disposta a falhar.
Ao chegar à porta da sala de reuniões, o coração de Isabel batia forte, quase como se pudesse ouvir o eco de cada batida no silêncio ao seu redor. No entanto, sua expressão era impenetrável, fria e controlada. Anos de treinamento emocional a haviam preparado para momentos como aquele, quando cada movimento precisava ser calculado, e cada palavra, cuidadosamente escolhida.
Jin-Ho, seu fiel assistente, abriu a porta com um sorriso encorajador, oferecendo um leve aceno de cabeça antes de se afastar. Isabel entrou com Cristian logo atrás, e, de repente, o ar na sala pareceu se tornar mais pesado, carregado de uma tensão invisível. Aquele não seria um simples encontro de negócios.
Assim que seus olhos se ajustaram à luz suave da sala, Isabel sentiu o impacto: Hygor estava ali. Ele, que havia sido apenas uma sombra do passado, agora se erguia à sua frente, presente, inegável. Era impossível ignorá-lo. Seus olhos escuros a seguiam, atentos, fixos nela de uma maneira que a fazia sentir-se exposta, mesmo com o lenço, a máscara e os óculos ocultando sua verdadeira identidade.
Hygor, sentado à cabeceira da mesa, levantou-se quando Isabel entrou, num gesto quase automático de cortesia. Mas seus olhos não conseguiam desviar dela. Algo naquela mulher o inquietava profundamente. Mesmo com o rosto coberto, havia uma familiaridade indescritível, como se ele já a conhecesse de algum lugar. Um estranho déjà vu o envolveu, como uma lembrança que estava à beira de ser recuperada, mas sempre escapando. E então, ele notou. A ferida no pulso dela — o mesmo lugar que ele havia enfaixado naquela noite ainda estava ferido. O detalhe o pegou de surpresa, despertando uma corrente de sensações que ele não conseguia entender.
"Sr. Ferreira, é um prazer recebê-lo. Espero que tenha tido uma boa viagem." disse Cristian, rompendo o silêncio tenso que havia caído sobre a sala. Sua voz era firme, educada, mas com uma pitada de desconfiança cuidadosamente disfarçada. Ele sabia que Hygor não reconheceria Isabel daquela noite, especialmente com o disfarce que ela usava agora. Mas a simples presença dele já causava uma onda de desconforto palpável em Isabel.
Assim que seus olhos caem sobre Cristian, Hygor o reconhece. O que o faz questionado ainda mais se a mulher à sua frente também poderia ser a mulher daquela noite.
"Sou o vice-presidente do Grup'IC, So Jung-Ho, mas pode me chamar de Sr. So", completou Cristian, deixando clara sua posição como vice-presidente do Grup'IC.
Hygor, ainda ligeiramente atordoado, assentiu de maneira automática. "Foi uma viagem tranquila, obrigado, Sr. So," respondeu, tentando parecer cortês, mas sua mente estava longe. Seus olhos voltaram para Isabel, ou melhor, para Lee In-Na, como ela havia se apresentado. Algo nela mexia com ele de uma forma inexplicável. Ele podia sentir que havia mais sob aquela máscara do que o profissionalismo que ela exibia. Havia uma energia, uma tensão entre eles, que ele não conseguia definir.
Isabel, por sua vez, lutava para manter o controle. Estar tão próxima de Hygor, aquele homem que havia sido seu tudo no passado, fazia suas emoções borbulharem sob a superfície. Raiva, mágoa, frustração. Ela tinha que manter a postura, mas cada segundo ao lado dele era um lembrete doloroso do que eles haviam sido. Com o coração apertado e a mente em alerta, ela começou a reunião sem rodeios.
"Sou a presidente do Grup'IC, Lee In-Na," disse Isabel, sua voz firme, mas o peso emocional que ela carregava era palpável, mesmo que estivesse escondido atrás da máscara. Ela sabia que precisava manter o foco, que não podia deixar que suas emoções transparecessem, mas a simples presença de Hygor a deixava tensa. "Para ser sincera com você, o Grup’IC não está interessado na parceria com o Grup'Art, mas devido a sua constante insistência decidi lhes dar uma chance. Para isso algumas condições precisam ser ajustadas." Suas palavras eram medidas, profissionais, mas por trás dos óculos escuros, seus olhos estavam carregados de sentimentos reprimidos.
Hygor, que a observava atentamente, franziu levemente a testa. Havia algo na voz dela, um tom que ele não conseguia ignorar. Era como se cada palavra estivesse sendo dita com um cuidado extremo, como se houvesse algo mais por trás de tudo o que ela falava. E aquela sensação... a familiaridade, a proximidade, era tão perturbadora. "Condições?" ele repetiu, tentando se concentrar no que deveria ser uma simples reunião de negócios. Mas nada sobre aquela reunião parecia simples.
"Sim," Isabel continuou, lutando contra o tumulto dentro de si. "A parceria precisa ser benéfica para ambas as partes. E, no momento, algumas cláusulas ainda favorecem mais o Grup'Art do que o nosso grupo." Ela falava com a frieza de uma empresária experiente, mas seu coração batia tão rápido que ela podia senti-lo na garganta. Estar ali, tão perto de Hygor, e ao mesmo tempo tão distante, era uma tortura.
Cristian observava a troca de olhares entre os dois, percebendo a tensão não verbal que crescia. Ele sabia mais do que ninguém o que aquela reunião significava para Isabel. Não era apenas sobre negócios. Era sobre fechar o ciclo, retomar o controle de sua vida, e talvez — apenas talvez —, recuperar algo que havia sido perdido.
A reunião continuava, as palavras sendo trocadas com formalidade e precisão. Mas, em algum nível profundo, Isabel e Hygor travavam uma batalha silenciosa. Ele, sem saber, lutava contra as memórias que lhe escapavam, contra a sensação de que algo estava errado. E ela, lutando para não deixar transparecer a dor e o amor que, mesmo depois de tanto tempo, ainda queimavam dentro dela.
A cada minuto, Isabel sabia que seu plano estava em andamento, mas seu coração continuava dividido. Afinal, como se vinga de alguém que nem sequer lembra do mal que causou?
A sala parecia envolta em um silêncio carregado de significados não ditos. Isabel manteve sua postura profissional, participando da discussão, mas por dentro, seu coração ainda batia acelerado. Ela sabia que aquele encontro não terminaria ali. Era apenas o início de um longo jogo.
Quando finalmente a reunião chegou ao fim, Isabel se levantou, despedindo-se formalmente. Hygor olhou para ela uma última vez, claramente ainda intrigado, como se aquela sensação estranha não o deixasse em paz. Mas ele não disse nada. Apenas saiu da sala, lançando um último olhar por cima do ombro.
Assim que a porta se fechou, Isabel soltou um longo suspiro, sentindo o peso de todo o encontro cair sobre seus ombros. Ela estava exausta, mas sabia que aquilo era apenas o começo. O confronto com o passado estava longe de terminar.
Enquanto Jin-Ho explicava os detalhes da proposta, Isabel mantinha o olhar fixo em Hygor, observando-o discretamente por trás de uma fachada de profissionalismo. Estar tão próxima dele depois de tantos anos era quase surreal. O homem que um dia havia sido o centro de seu mundo agora agia como se ela fosse uma estranha. Ver Hygor assim, indiferente, trazia à tona uma mistura avassaladora de dor e ressentimento. Aquele era o mesmo homem que havia destruído seu coração, e agora ele se sentava à sua frente, alheio ao turbilhão de emoções que ela lutava para esconder. Mas Isabel precisava ser forte.
Sua respiração era controlada, cada batida do coração uma lembrança do quanto ela havia mudado. Contudo, por trás do controle, o peso de suas memórias a esmagava.
"Essas condições parecem justas," disse Hygor, sua voz grave, ainda um pouco distraída. Ele parecia estar em outro lugar, talvez tão dividido entre o presente e o passado quanto ela. Havia algo naquela mulher à sua frente que o deixava desconfortável, mas ele não conseguia identificar o que era. O silêncio entre eles dizia mais do que qualquer palavra.
Cristian, sempre atento, percebeu a brecha no comportamento de Hygor e decidiu pressioná-lo. "O Grup'IC também precisa de garantias sólidas. Sabemos que existem disputas internas no Grup'Art, e isso pode comprometer a estabilidade da nossa parceria." Sua voz era firme, sem deixar espaço para dúvidas.
Hygor hesitou. O comentário de Cristian o pegou de surpresa, trazendo à tona uma realidade que ele tentava esconder. "Estamos resolvendo essas questões," respondeu ele, a voz agora mais cautelosa, como se calculasse cada palavra. "Minha noiva, Kyra, está à frente disso. Ela está garantindo que tudo seja resolvido rapidamente."
Ao ouvir o nome de Kyra, Isabel sentiu o chão se abrir sob seus pés. A palavra “noiva” cortou o ar como uma faca, atravessando suas defesas como um golpe cruel. Kyra. Claro que era ela. Aquela mesma mulher que a havia traído tanto tempo atrás, e agora estava noiva do homem que Isabel amara.
Por um segundo, ela quis se levantar, gritar, confrontá-lo com tudo que estava preso dentro de si, mas respirou fundo, sufocando a tempestade que rugia em seu peito. "Entendo," respondeu Isabel, sua voz calma e profissional, embora cada palavra fosse uma lâmina afiada. "Contudo, preciso garantir que a integridade do Grup'IC não será comprometida."
Ela se forçou a manter a compostura, mas seu olhar denunciava a raiva e o desespero que queimavam por dentro. Por que tudo tinha que sempre voltar para Kyra?
A tensão na sala era palpável. O ar parecia pesado, e todos sentiam o conflito não dito que se desenrolava entre os três. Jin-Ho, sempre atento às nuances, percebeu o clima insuportável e sugeriu um breve intervalo. "Talvez um pequeno descanso seja benéfico para todos," disse ele, olhando para Isabel em busca de aprovação.
Isabel assentiu, mal confiando em sua própria voz para falar. Ela precisava de um momento. Longe dele, longe daquela sala.
Ao se levantar, sentiu as pernas tremendo, um lembrete cruel de que, apesar da máscara que vestia, ainda não estava totalmente no controle. Precisava de ar. Precisava se recompor antes que tudo desmoronasse.
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Atualizado até capítulo 53
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