Seis anos haviam se passado desde aquele dia doloroso no hospital, e a vida de Isabel havia tomado rumos imprevisíveis e turbulentos. Às margens do Rio Han, na tranquilidade do final de uma tarde, Isabel estava sentada sozinha, o olhar perdido nas águas que fluíam serenamente diante dela. O contraste entre a calma do ambiente e a tempestade interna que a consumia era quase surreal. O rio, com sua correnteza tranquila, parecia um reflexo de algo distante e inalcançável, assim como a paz que Isabel buscava em seu próprio coração.
Ela segurava em suas mãos um e-mail antigo, o único e doloroso contato que havia recebido de Hygor após inúmeras tentativas frustradas de alcançar alguém que, um dia, havia sido o centro de seu mundo. As palavras na tela eram uma ferida aberta, um lembrete constante de um amor que se transformou em dor. "Fui uma idiota de acreditar que um dia poderia confiar em você Hygor!" Suas palavras carregavam o peso de sua angústia e ódio reprido.
Com um suspiro profundo, Isabel decidiu abrir o e-mail mais uma vez. Seus dedos tremiam ligeiramente ao clicar para expandir a mensagem, e ela começou a ler, como se esperasse encontrar alguma forma de conforto nas palavras que, apesar do tempo, ainda a atormentavam com a mesma intensidade:
“Sinto muito, mas o melhor para ambos é que você faça aborto.”
A voz de Isabel vacilou ao ler em voz alta, sua respiração tornando-se irregular. Uma lágrima solitária deslizou pelo seu rosto, como se a dor antiga, enterrada sob camadas de tentativa de superação, encontrasse uma brecha para emergir novamente. A lágrima, quase um símbolo de sua luta interna, caiu sobre a tela do dispositivo, misturando-se com as palavras que ainda queimavam como ácido em sua memória.
O impacto das palavras de Hygor ainda ecoava em sua mente, como um eco persistente que se recusava a silenciar. Cada letra parecia ressurgir com a mesma crueldade que teve quando a mensagem chegou pela primeira vez. Isabel havia tentado, com todas as suas forças, enterrar aquele episódio doloroso, mas a dor parecia tão viva quanto no instante em que a leu pela primeira vez.
Ela fechou os olhos, permitindo que as lágrimas continuassem a escorregar pelo seu rosto. Cada gota parecia uma expressão de todo o sofrimento que ela havia carregado ao longo dos anos. A serenidade do Rio Han não conseguia apaziguar o tumulto em seu coração; pelo contrário, apenas acentuava a sensação de que a paz era algo sempre fora de alcance.
Com um movimento lento e deliberado, Isabel dobrava o e-mail, o guardando novamente na caixa de entrada. Ela não queria esquecer, mas precisava seguir em frente. O passado tinha o seu lugar, mas o presente exigia uma nova abordagem. Olhando para o horizonte, onde o céu começava a se tingir de tons dourados e alaranjados com a chegada da noite, Isabel fez uma silenciosa promessa a si mesma: transformar a dor em força, o sofrimento em aprendizado, e seguir em frente com a coragem que havia cultivado ao longo dos anos. A jornada não havia terminado; na verdade, estava apenas começando.
“Mamãe!” A voz de Diana, suave e ansiosa, interrompeu o momento de contemplação de Isabel. A pequena correu até ela, com os olhos brilhando de expectativa e frustração. “Dylan não quer brincar comigo!” A frustração de Diana era palpável, e ela cruzou os braços, claramente desapontada com o irmão.
Isabel se virou para a filha, tentando esconder o cansaço e a tristeza que ainda a acompanhavam. Ela sorriu ternamente, tentando usar toda a energia vibrante de sua filha para aliviar um pouco da dor que carregava. “Oh, minha princesa, o que aconteceu?”
Antes que Diana pudesse responder, Cristian apareceu carregando Dylan nos braços. O gesto cuidadoso e o olhar carinhoso de Cristian mostravam seu apoio constante e sua habilidade em lidar com as crianças. Colocando Dylan suavemente no chão, ele olhou para Isabel e Diana com um sorriso compreensivo. “Ela só está brava porque ele não quis brincar de boneca”, explicou Cristian, com um tom leve que visava acalmar a situação.
Dylan, com seus olhos grandes e curiosos, olhou para Diana como se a disputa de brinquedos fosse uma questão distante e confusa. A criança parecia mais interessado em explorar o ambiente ao redor do que nas emoções que envolviam a briga com a irmã.
O grupo compartilhou um breve momento de leveza e riso, e Isabel sentiu um alívio temporário ao ver seus filhos juntos, suas risadas e brincadeiras trazendo um pouco de normalidade para sua vida. Ela segurou as pequenas mãos de Diana e Dylan, e, com um sorriso acolhedor, conduziu-os até um restaurante próximo. O simples prazer de estar com seus filhos ajudava a suavizar a dor persistente que a acompanhava.
Enquanto se acomodavam à mesa, Cristian perguntou com um tom animado: “E então, o que vocês querem comer, crianças?”
Dylan, com os olhos brilhando de entusiasmo e a voz cheia de expectativa, respondeu imediatamente: “Quero tteokbokki!”
Diana, com a teimosia típica da idade e fazendo um bico adorável, protestou: “Não, vamos comer gimbap!”
Isabel e Cristian trocaram um olhar cúmplice, divertidos com a disputa inocente entre os irmãos. Era um pequeno momento de normalidade e alegria no meio das complicações da vida. Cristian, sempre o pacificador, fez uma sugestão para resolver a disputa.
“E que tal um bibimbap para todos?” Cristian propôs, a voz cheia de um tom amigável e conciliador. “Assim todos ficam felizes e temos um pouco de tudo.”
A proposta de Cristian trouxe um sorriso de alívio aos rostos de Isabel e dos filhos. A disputa infantil foi rapidamente esquecida, e a família se preparou para desfrutar de uma refeição juntos. O bibimbap, com suas cores vibrantes e sabores variados, simbolizava a tentativa de unir todos em um momento de felicidade simples.
Durante a refeição, o ambiente estava preenchido com os risos e brincadeiras de Dylan e Diana. Cristian parecia relaxado e contente, algo raro e bem-vindo. Isabel, no entanto, estava distante, com sua mente vagando para longe da mesa. Seus movimentos com o hashi, que costumavam ser ágeis e precisos, estavam agora hesitantes e distraídos. Cada gesto parecia uma tarefa árdua, e a preocupação e o cansaço se refletiam em seus olhos, apesar dos esforços para manter uma fachada de normalidade.
A refeição, embora marcada por momentos de alegria e simplicidade, também era um lembrete do peso que Isabel carregava. No entanto, naquele instante, ao olhar para seus filhos e ouvir suas risadas, ela se permitia um breve escape da dor, tentando encontrar conforto na companhia daqueles que mais amava.
Perto do final do jantar, enquanto a conversa e as risadas de sua família preenchiam o ambiente, algo inesperado capturou a atenção de Isabel e a trouxe abruptamente de volta à realidade. Na mesa ao lado, uma figura familiar chamou sua atenção com uma força quase magnética. Um homem alto, com cabelos negros e bem aparados, estava envolvido em uma conversa animada com um coreano. A maneira como ele gesticulava, a forma como seu corpo se posicionava, eram detalhes que Isabel reconheceria em qualquer lugar.
Seu coração disparou instantaneamente, como se o tempo tivesse dado um salto para trás, trazendo com ele as lembranças de um passado que ela havia tentado deixar para trás. A presença daquele homem parecia atravessar o espaço e o tempo, trazendo consigo uma onda de emoções e memórias que ela havia tentado enterrar.
Absorvida pela cena e pelo tumulto de sentimentos, Isabel deixou o hashi escorregar entre os dedos. A ponta afiada do utensílio cortou sua pele, e um pequeno, porém profundo, corte começou a sangrar. O sangue rapidamente começou a escorrer pelo pulso de Isabel, contrastando com o ambiente vibrante ao seu redor. Cristian, sempre atento e sensível às necessidades de Isabel, imediatamente notou o sangue e a expressão de dor em seu rosto.
"Isa, você se machucou? Deixa eu ver," disse Cristian, sua voz carregada de preocupação e cuidado. Ele estendeu a mão para examinar o corte com um olhar intenso e ansioso.
Isabel mal o ouviu, tamanha era sua concentração no homem à mesa ao lado. Seus olhos estavam fixos na figura familiar, tentando absorver cada detalhe, cada movimento, como se ao fazê-lo pudesse entender o que estava acontecendo. O medo e a hesitação a consumiam. O desejo de confrontar a situação e de descobrir a verdade estava misturado com um medo avassalador de ser reconhecida, de ser vista.
Cristian, vendo o estado de Isabel, tentou chamar sua atenção novamente. "Isabel, você está bem? Olhe para mim, por favor." Ele pegou um guardanapo e, com cuidado, começou a limpar o sangue do pulso dela, sua expressão refletindo a preocupação e a frustração por ver sua amiga tão perturbada.
A voz de Cristian parecia distante para Isabel, como se ela estivesse ouvindo através de um véu de confusão e pânico. O homem à mesa ao lado continuava a ser o único foco de sua atenção, e cada movimento dele parecia aumentar a intensidade de seus sentimentos. Isabel sentiu uma onda de desamparo e frustração ao perceber que, mesmo em meio àquela situação, ela estava impotente para mudar o curso das coisas ou lidar com o choque que sentia.
O corte no pulso de Isabel era um pequeno, mas estenso, um incisivo lembrete da dor que ainda residia dentro dela. À medida que Cristian tentava confortá-la, ela se esforçava para se concentrar na realidade ao seu redor, tentando processar o turbilhão de emoções e decidir o que fazer a seguir. A cena que se desenrolava na mesa ao lado parecia ser um fragmento de um passado que se recusava a ser enterrado, e Isabel sabia que precisava enfrentar a situação, mas as dúvidas e o medo a paralisavam.
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Atualizado até capítulo 53
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