Capítulo 6: Gravidez indesejada

A tentativa de fuga de Isabel foi tão desesperada quanto inútil. Renato, com o rosto frio e uma determinação implacável, a segurou pelo braço com força e a arrastou pelos corredores do hospital. Cada passo ecoava no chão como um martelo, esmagando as esperanças que ela tentava, em vão, manter. O consultório médico parecia o fim de um corredor sem saída. Assim que entraram, a porta se fechou com um estrondo seco, e Isabel sentiu seu corpo tremer.

Ela se encolheu quando viu o obstetra já à espera, completamente alheio ao turbilhão de emoções que invadia a sala. Seu olhar nervoso encontrou o de Renato, que sequer olhou para Isabel enquanto disparava suas ordens.

“Doutor, faça o exame”, disse Renato, sua voz cheia de autoridade, como se estivesse mandando em todos naquele ambiente. Não havia qualquer menção ao consentimento de Isabel, como se ela não passasse de uma espectadora de seu próprio destino. O coração dela acelerou, batendo forte contra o peito, mas suas pernas pareciam coladas ao chão, incapazes de reagir.

Quando o médico se aproximou com o aparelho de ultrassom, Isabel estremeceu. As mãos dele estavam trêmulas, e ele evitava qualquer contato visual, como se soubesse que o que estava prestes a acontecer mudaria tudo. Ela deitou-se na maca, o corpo rígido como pedra, o olhar fixo no teto, tentando se desconectar da situação. A frieza do gel sobre sua barriga a fez arrepiar-se, mas foi o som do ultrassom, aquele zumbido tão familiar e assustador, que a fez prender a respiração.

O silêncio na sala era sufocante, quebrado apenas pelo ruído do aparelho. O olhar do médico passeou pela tela por alguns segundos eternos até que ele finalmente falou, com uma voz quase mecânica, sem qualquer emoção. “Parabéns, você está grávida de gêmeos.”

Por um momento, o mundo de Isabel parou. Grávida de gêmeos. As palavras pareciam ressoar em sua mente como um eco distante, mas devastador. Seus olhos se encheram de lágrimas que ela tentou desesperadamente segurar. Gêmeos... Ela deveria sentir felicidade, certo? Afinal, eram duas vidas crescendo dentro dela, dois coraçõezinhos batendo. Mas em vez disso, uma onda avassaladora de medo a consumiu.

Ela não sabia o que sentir. Alívio, porque os bebês estavam bem? Ou desespero, porque o pesadelo que era sua vida agora se tornaria ainda mais complicado? Seu coração apertava no peito, os pensamentos corriam desordenados. Isabel sentiu-se traída pelo próprio corpo, transformada em um peão no jogo implacável de Renato. Cada batida dos pequenos corações era uma batida a mais em seu tormento, um lembrete doloroso de que sua vida nunca mais seria a mesma.

Renato não se deu ao trabalho de disfarçar seu alívio. Ele se virou para o médico, com aquele sorriso gélido de satisfação que sempre fazia o estômago de Isabel revirar. "Doutor, por favor desligue o som do batimento cardíaco dos bebês.", disse, sem sequer olhar para ela, como se ela já não estivesse cumprindo seu papel da maneira mais difícil possível.

Isabel, ainda deitada, sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto. Ali, naquela sala, sob as luzes brancas e impessoais, ela percebeu que estava completamente sozinha.

Isabel mal teve tempo de processar o anúncio de estar gravida de gêmeos antes que a voz fria e cortante de Renato rasgasse o silêncio na sala.

“Doutor, há alguma forma de confirmar quem é o pai?”

A pergunta foi um golpe brutal, atingindo Isabel como uma lâmina afiada. Seu coração pareceu parar por um segundo. O que ele acabara de dizer? Sentiu o estômago revirar, a mente em caos. A ideia de que Renato duvidava de sua integridade era cruel, mas o desprezo que se escondia por trás das palavras era devastador.

O obstetra hesitou, visivelmente desconfortável com a tensão crescente no ar. Ele limpou a garganta e respondeu cautelosamente: "Ela está de apenas nove semanas, senhor. Realizar um teste de paternidade agora seria arriscado para a saúde dela e dos bebês. Podemos discutir isso após o nascimento, se preferirem."

Renato não disfarçou sua impaciência e desprezo. Seus olhos, antes gélidos, endureceram ainda mais enquanto se virava lentamente para Isabel.

“Não importa quem seja o pai. Esses bebês não são desejados.” Sua voz era fria e calculista, quase sem emoção, mas carregada de uma raiva subterrânea que fez o coração de Isabel afundar. “Providencie um aborto.”

As palavras atingiram Isabel como um soco no estômago, tirando-lhe o fôlego. Abortar? Aquilo não podia ser real, não podia ser ele dizendo aquilo. O pânico tomou conta de sua mente, e sua voz saiu em um grito sufocado de dor e incredulidade.

“O quê? Não! Eles são meus filhos!” Isabel exclamou, desesperada, o som de sua própria voz ecoando na sala. As lágrimas começaram a escorrer antes mesmo que pudesse controlá-las. “Eles são seus netos, Renato! Como você pode...?”

Renato, no entanto, estava cego pela raiva. Ele levantou uma mão em um gesto brusco, interrompendo-a sem piedade, sua expressão agora tomada por desprezo. “Netos? Você os abandonaria, assim como fez com Hygor?” Sua voz era cortante, cheia de amargura. “Você fugiu assim que meu filho entrou em coma, Isabel. E agora está carregando filhos que podem nem ser dele! Que tipo de mãe será para esses bebês?” Ele soltou uma risada amarga e seca, cheia de cinismo. “Se forem de Hygor, o que pretende contar a eles? Que o pai quase morreu por sua culpa?”

Isabel estremeceu com a dureza daquelas palavras. Ele a culpava pelo acidente? Um peso esmagador caiu sobre ela. Tudo o que ela tinha vivido até aquele momento – a fuga, a solidão, a gravidez inesperada – desmoronava ainda mais sob o peso daquela acusação. A culpa corroía seu coração, mas o instinto de proteção materna a fez reagir, mesmo que com a voz trêmula. “Você está errado, Renato. Eu amo esses bebês! Eles não têm culpa de nada do que aconteceu!”

Renato, implacável, ignorou suas palavras, lançando-lhe um olhar gelado. “Hygor é meu filho, e eu preciso protegê-lo de você, Isabel. Proteger a vida dele significa afastá-lo de você e dessas... dessas crianças.” Ele pronunciou a última palavra com desdém, como se falar sobre os bebês fosse um fardo insuportável.

O obstetra assistia a tudo em silêncio, a tensão no ar quase palpável. Quando Renato se voltou novamente para ele, sua decisão já estava tomada. “Doutor, prepare-se para abortar.”

Isabel sentiu o mundo desmoronar ao seu redor. O chão pareceu se abrir sob seus pés, e o ar no consultório ficou pesado, quase impossível de respirar. Suas pernas tremiam tanto que mal conseguia se manter em pé. Abortar? Seus filhos? O desespero e a impotência se misturavam a uma dor avassaladora, arrancando qualquer esperança que ela ainda pudesse ter.

Ela ergueu os olhos, agora cheios de lágrimas, para o médico, buscando alguma compaixão, uma saída, uma voz de razão que pudesse interromper o pesadelo. “Doutor... por favor...” sua voz saiu quebrada, quase um sussurro.

O médico olhou para Isabel, claramente dividido entre a pressão de Renato e a agonia evidente da jovem mulher. Ele hesitou, parecendo inseguro. Isabel agarrou-se àquele breve momento de dúvida, como se fosse seu último fio de esperança.

Renato, impaciente, deu um passo à frente. “Isso não é um pedido, doutor. É uma ordem.”

A sala parecia girar ao redor de Isabel. Tudo o que ela conseguia pensar eram nos pequenos coraçõezinhos que batiam dentro dela. Ela levaria essa luta até o fim, por eles.

A discussão entre Isabel e Renato havia se tornado tão intensa que sua voz ecoava pelos corredores do hospital. Logo, a segurança foi acionada. Dois seguranças robustos entraram no consultório, firmes e prontos para intervir. Eles agarraram Renato pelos braços, forçando-o a sair do recinto, enquanto ele ainda gritava insultos, sua raiva visceral e cega.

“Você vai se arrepender, Isabel! Hygor não precisa de você, nem desses bastardos!” As palavras de Renato, cheias de veneno, ricocheteavam nas paredes, atingindo Isabel como punhais. Ela estremeceu, o corpo fraco, sentindo o peso daquelas palavras como se fossem um fardo impossível de carregar.

Quando Renato finalmente foi removido da sala, o silêncio que se seguiu era opressor. A ausência de sua presença ameaçadora não trouxe o alívio que Isabel esperava. Pelo contrário, tudo parecia mais denso, mais pesado. Sua respiração era irregular, e ela sentiu as pernas vacilarem, quase cedendo ao esgotamento emocional.

O médico, claramente afetado pela tensão, mas tentando manter a compostura profissional, se aproximou com cuidado. Ele estendeu um copo d'água, a voz baixa e suave, quase paternal. “Por favor, tente se acalmar, Isabel. Respire fundo.”

Com mãos trêmulas, ela pegou o copo, mas sua mente estava longe, perdida em um redemoinho de medo, dor e confusão. O líquido no copo tremulava tanto quanto seus dedos, e sua visão começou a embaçar à medida que as lágrimas se acumulavam. Elas desciam por seu rosto, silenciosas, sem que ela tivesse controle sobre elas. Não havia mais como contê-las, como segurar a dor que agora parecia sufocá-la. A verdade se abateu sobre ela com uma violência implacável: seus bebês estavam ameaçados, e as palavras de Renato ressoavam como uma sentença de morte para o pouco que restava de sua paz.

Ela mal conseguia pensar. O que faria? Como poderia proteger seus filhos de um homem tão impiedoso? Sentindo-se encurralada, Isabel buscou algo – qualquer coisa – que pudesse lhe dar esperança. Seus olhos se fixaram no obstetra, sua última chance de proteção.

“Por favor, doutor... me ajude a protegê-los,” implorou, sua voz quebrada e desesperada. Aquele não era um simples pedido, era uma súplica. Ela precisava ser forte, sabia disso, mas sentia-se tão frágil, tão pequena diante da força destrutiva de Renato. Seus bebês... seus gêmeos... não podiam sofrer as consequências de algo que eles sequer entendiam. “Eu faria qualquer coisa para salvá-los.”

O médico, visivelmente tocado pelo sofrimento dela, aproximou-se ainda mais, tentando transmitir alguma segurança. “Vamos encontrar uma solução,” ele disse com um tom baixo, mas não havia como negar a incerteza em sua voz. Isabel sabia que aquela batalha estava apenas começando. E não era só sua vida que estava em jogo agora – era a de seus filhos.

Ela respirou fundo, tentando reunir a coragem que sabia que precisaria ter. Tomou um gole da água, sentindo o líquido gelado descer por sua garganta, trazendo uma frieza que contrastava com o calor sufocante de sua ansiedade. Então, um pensamento ousado tomou conta de sua mente, um plano que parecia sua única chance de salvar seus filhos.

Com os olhos ainda marejados, ela se virou para o médico. “Doutor, me faça um favor,” sua voz saiu baixa, mas carregada de determinação.

Ele a encarou, surpreso pela súbita mudança no tom de Isabel, seus olhos refletindo uma preocupação genuína. “Diga, Isabel. O que você precisa?”

Ela respirou fundo mais uma vez, limpando as lágrimas que ainda escorriam por suas bochechas. “Procure Renato Ferreira,” começou, a voz mais firme agora, apesar da dor evidente. “Diga a ele que o aborto foi realizado com sucesso.”

O médico arregalou os olhos, chocado com a proposta. “O quê?” Ele parecia incerto, confuso com o que acabara de ouvir.

“Por favor,” Isabel continuou, o desespero agora evidente em cada palavra. “Essa mentira... é a única coisa que pode salvar meus bebês. Ele não pode saber que eles ainda estão vivos. Se acreditar que o aborto foi feito, talvez... talvez ele me deixe em paz.” Seus olhos imploravam, sua alma clamava por um fio de esperança. Ela sabia que não era justo, que mentir era sua última cartada desesperada. Mas, naquele momento, ela estava disposta a fazer qualquer coisa.

O médico a observou por longos segundos, avaliando a gravidade do pedido, a dor que Isabel carregava. Ele podia ver o medo nos olhos dela, a determinação de uma mãe disposta a proteger seus filhos a qualquer custo.

Finalmente, suspirando, ele assentiu levemente. “Eu... eu entendo,” disse ele, sua voz baixa e hesitante. “Vou fazer o possível para ajudá-la, Isabel. Mas saiba que isso não será fácil. Ele pode voltar, insistir...”

“Eu sei,” Isabel interrompeu, limpando as lágrimas que ainda teimavam em escorrer. “Mas essa é minha única chance. Por favor... faça o que for necessário.”

O médico assentiu novamente, e Isabel, embora ainda envolta em um mar de incertezas, sentiu que talvez houvesse uma pequena luz no fim daquele túnel sombrio.

Capítulos
1 Capítulo 1: Mentiras
2 Capítulo 2: Pânico
3 capítulo 3: Segredos
4 Capítulo 4: Adeus
5 capítulo 5: Decepção
6 Capítulo 6: Gravidez indesejada
7 Capítulo 7: Ombro amigo
8 capítulo 8: Passagem de ida
9 capítulo 9: Lembranças dolorosas
10 Capítulo 10: Fantasma do passado
11 Capítulo 11: Manipulador de memórias
12 Capítulo 12: Angústia
13 Capítulo 13: Preocupação
14 Capítulo 14: Um passo da verdade
15 Capítulo 15: Dores do passado
16 Capítulo 16: Esquecimento
17 Capítulo 17: Determinação
18 Capítulo 18: Acidente
19 Capítulo 19: Reunião
20 Capítulo 20: Mágoas
21 Capítulo 21: Dúvida
22 Capítulo 22: Pensamentos confusos
23 Capítulo 23: Memórias
24 Capítulo 24: Questionamentos
25 Capítulo 25: Voltando para casa
26 Capítulo 26: País natal
27 Capítulo 27: Mais que amigos, somos uma família
28 Capítulo 28: Que os jogos comecem
29 Capítulo 29: Trauma
30 Capítulo 30: Comparações
31 Capítulo 31: Na sombra de Isabel
32 Capítulo 32: Duarte
33 Capítulo 33: A verdade está próxima
34 Capítulo 34: Familiaridade
35 Capítulo 35: Nervos à flor da pele
36 Capítulo 36: alucinações
37 Capítulo 37: hora da verdade
38 Capítulo 38: Revelações
39 Capítulo 39: Flashback
40 Capítulo 40: E-mail
41 Capítulo 41: Perdoe-me
42 Capítulo 42: Profundezas
43 Capítulo 43: Grande dia
44 Capítulo 44: Baile
45 Capítulo 45: Presidente do Grup'Art
46 Capítulo 46: Vestido vermelho
47 Capítulo 47: Seu coração ainda se lembra de nós
48 Capítulo 48: Rachaduras do passado
49 Capítulo 49: Reerguendo forças
50 Capítulo 50: Herdeira do Grup'Art
51 capítulo 51: Estão em minhas mãos
52 Capítulo 52: Família de mentiras
53 Capítulo 53: Desestabilizado
Capítulos

Atualizado até capítulo 53

1
Capítulo 1: Mentiras
2
Capítulo 2: Pânico
3
capítulo 3: Segredos
4
Capítulo 4: Adeus
5
capítulo 5: Decepção
6
Capítulo 6: Gravidez indesejada
7
Capítulo 7: Ombro amigo
8
capítulo 8: Passagem de ida
9
capítulo 9: Lembranças dolorosas
10
Capítulo 10: Fantasma do passado
11
Capítulo 11: Manipulador de memórias
12
Capítulo 12: Angústia
13
Capítulo 13: Preocupação
14
Capítulo 14: Um passo da verdade
15
Capítulo 15: Dores do passado
16
Capítulo 16: Esquecimento
17
Capítulo 17: Determinação
18
Capítulo 18: Acidente
19
Capítulo 19: Reunião
20
Capítulo 20: Mágoas
21
Capítulo 21: Dúvida
22
Capítulo 22: Pensamentos confusos
23
Capítulo 23: Memórias
24
Capítulo 24: Questionamentos
25
Capítulo 25: Voltando para casa
26
Capítulo 26: País natal
27
Capítulo 27: Mais que amigos, somos uma família
28
Capítulo 28: Que os jogos comecem
29
Capítulo 29: Trauma
30
Capítulo 30: Comparações
31
Capítulo 31: Na sombra de Isabel
32
Capítulo 32: Duarte
33
Capítulo 33: A verdade está próxima
34
Capítulo 34: Familiaridade
35
Capítulo 35: Nervos à flor da pele
36
Capítulo 36: alucinações
37
Capítulo 37: hora da verdade
38
Capítulo 38: Revelações
39
Capítulo 39: Flashback
40
Capítulo 40: E-mail
41
Capítulo 41: Perdoe-me
42
Capítulo 42: Profundezas
43
Capítulo 43: Grande dia
44
Capítulo 44: Baile
45
Capítulo 45: Presidente do Grup'Art
46
Capítulo 46: Vestido vermelho
47
Capítulo 47: Seu coração ainda se lembra de nós
48
Capítulo 48: Rachaduras do passado
49
Capítulo 49: Reerguendo forças
50
Capítulo 50: Herdeira do Grup'Art
51
capítulo 51: Estão em minhas mãos
52
Capítulo 52: Família de mentiras
53
Capítulo 53: Desestabilizado

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