Seis anos antes do reencontro no restaurante, Hygor acordara em um leito de hospital, sua mente envolta em um vazio inquietante. Emergindo de um coma de uma semana, ele abriu os olhos para um mundo estranho. A luz branca e intensa do quarto parecia um prenúncio de confusão e desconhecimento. Ao seu lado, Geisa, sua mãe, o segurava com desespero, os olhos inchados de tanto chorar, enquanto Renato, seu pai, tentava acalmá-la. Era um cenário de dor e esperança, mas para Hygor, tudo parecia desconectado.
“Quem são vocês?” A pergunta de Hygor foi um golpe para todos, uma declaração de que as lembranças que os uniam haviam se desfeito. Aquele momento selou o início de um longo período de incerteza. Cada um dos presentes tentava reconectar Hygor com seu passado, mas as respostas eram frias e dolorosas. Ele não reconhecia sua mãe, seus irmãos, ou a vida que construíra até ali.
A notícia de que Hygor perdera a memória caiu como um fardo sobre a família. O médico deixou claro que não havia garantias de recuperação. Ele poderia recuperar tudo no dia seguinte ou viver para sempre sem lembrar de quem era. Naquela atmosfera sufocante, Kyra entrou em cena, trazendo à tona ressentimentos antigos, lançando uma sombra sobre o que parecia ser um sofrimento coletivo. Ela, com frieza e astúcia, sugeriu que a família reescrevesse a história de Hygor, substituindo Isabel por ela. Era um plano movido pela vingança e pelo desejo de ter de volta algo que nunca fora seu por completo.
Geisa, consumida pelo medo de perder seu filho para um passado que ele não recordava, aceitou a ideia com uma determinação desesperada. Isabel, o nome que outrora havia representado amor e sacrifício para Hygor, foi lentamente apagado das conversas, enquanto Kyra assumia um lugar de destaque em sua nova vida. O tempo passou, as memórias de Hygor foram moldadas, e a manipulação da verdade parecia ter funcionado — até que Isabel reapareceu.
No presente, o reencontro com Isabel no restaurante quebrou a ilusão cuidadosamente construída ao longo dos anos. Hygor, ainda confuso, sentiu uma conexão inegável. Algo em Isabel despertou sentimentos que ele não conseguia compreender. Ela representava um elo perdido, uma peça do quebra-cabeça que faltava.
Sentado no bar do hotel, Hygor se viu encarando a escuridão de sua própria mente. As palavras de Isabel ecoavam como um sino distante, algo tão familiar e, ao mesmo tempo, inatingível. A dor nos olhos dela parecia contar uma história que ele precisava conhecer. Enquanto o álcool queimava sua garganta, sua decisão se firmava: ele não podia continuar ignorando o passado.
As ligações de Kyra se tornavam insignificantes. Isabel era a chave para um mundo que ele sentia ter perdido, e Hygor estava determinado a recuperá-lo, custe o que custar. Naquela noite, ele compreendeu que a verdade seria dolorosa, mas inevitável. O amor e o sacrifício de Isabel, enterrados nas sombras do tempo e da manipulação, agora voltavam à tona, exigindo que ele enfrentasse o que fora roubado de sua vida.
A porta para suas memórias começava a se abrir, e com ela, a promessa de uma verdade que poderia curar ou destruir tudo que ele conhecia. Mas Hygor estava preparado. Nada seria mais difícil do que viver sem saber quem ele realmente era. Isabel, ele percebeu, não era apenas uma figura de seu passado — ela era a personificação de tudo o que ele precisava para entender seu próprio presente.
Sentado à beira da cama no escuro, Hygor sentiu o peso da noite se aprofundar ao seu redor. A confusão rodava em sua mente, pesada como as sombras que se estendiam pelo quarto. Ele não sabia quem era aquela mulher que encontrara no restaurante. Não sabia seu nome, não reconhecia sua história, mas a força de sua presença era inegável. Ela não era uma estranha qualquer — algo nela despertava uma sensação quase física de perda, de algo profundamente importante que ele não conseguia nomear.
A ausência de memórias claras era um buraco em sua mente, um vazio incômodo que ele tinha aceitado como parte de sua nova vida desde que saíra do coma. Hygor não costumava questionar isso; aprendera a viver com as histórias que lhe contaram, confiando em sua família para preencher as lacunas de seu passado. Mas, agora, algo dentro dele estava mudando.
O reencontro com a mulher desconhecida ativara algo que ele não sabia definir. Não eram memórias — não havia imagens ou fatos retornando à sua mente. Mas havia uma sensação de familiaridade que se recusava a desaparecer. Uma presença antiga, quase como um eco de algo que ele deveria saber, mas que lhe escapava.
A voz dela, o jeito como pronunciou seu nome, a expressão ferida e determinada em seu rosto — cada detalhe cutucava as profundezas de sua consciência, como se estivesse prestes a acessar algo que fora trancado. Mesmo sem saber o nome dela, Hygor não conseguia parar de pensar nela. E aquelas crianças... Elas o desconcertavam ainda mais. A maneira como chamavam outro homem de “pai” era como um golpe inesperado, como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo.
Ele fechou os olhos, tentando puxar qualquer memória, qualquer fragmento que o conectasse a essa mulher. Mas sua mente permanecia em branco, como se alguém tivesse passado um apagador sobre tudo o que ele viveu antes do acidente. Tudo o que lhe restava eram histórias contadas por sua família, que pareciam agora incompletas, quase distorcidas.
Por mais que ele tentasse afastar os pensamentos, o rosto dela voltava, trazendo uma angústia inexplicável. Quem era ela? — a pergunta queimava em sua mente.
No dia seguinte, Hygor decidiu agir. Ele precisava descobrir mais sobre essa mulher, sobre a estranha conexão que sentia com ela. Quando o relógio marcou dez horas, ele pegou o telefone e hesitou por um momento, olhando para o nome de Kyra piscando na tela em uma nova chamada perdida. Tudo o que Kyra representava agora parecia distante, irrelevante.
Ele desceu até o saguão do hotel, determinado a encontrar alguma pista, algo que pudesse levá-lo de volta ao restaurante onde tudo começara. Passava pela recepção quando um lampejo de memória surgiu: o olhar dela, intenso e cheio de mágoa, algo que ele não podia ignorar. Decidiu então voltar ao restaurante, onde tudo havia começado.
Quando chegou, o local estava vazio, exceto pelo garçom que o reconheceu de imediato. Hygor se aproximou, tentando disfarçar a inquietação. “Você sabe quem era a mulher com quem conversei aqui ontem?” perguntou, com a voz mais firme do que esperava.
O garçom hesitou por um momento, franzindo o cenho. “Não sei o nome dela, mas ela já esteve aqui antes... algumas vezes. Sempre acompanhada por um homem e um casal de crianças, como ontem.”
Hygor sentiu uma pontada de frustração. Ele estava buscando algo mais concreto, mas tudo o que obtinha eram fragmentos vagos. “Ela parecia... familiar,” continuou, meio que falando consigo mesmo.
O garçom o observou com simpatia. “Às vezes, o rosto de uma pessoa pode evocar algo que a gente nem sabe que perdeu,” comentou, com um sorriso de lado.
Hygor deixou o restaurante sem mais informações, mas com a certeza de que algo estava prestes a ser desvendado. Ele precisava entender o porquê dessa mulher, que nem sequer sabia o nome, mexer tanto com ele.
De volta ao hotel, Hygor sentou-se diante de seu laptop, digitando o que sabia no campo de pesquisa — o que, infelizmente, não era muito. Ele não sabia o nome dela, nem tinha muitos detalhes sobre a vida dela. Mas decidiu que descobriria, de uma forma ou de outra. Cada passo que dava, no entanto, parecia puxá-lo mais fundo em um abismo de incertezas.
Dias se passaram, e Hygor ainda estava sem respostas. Mas, algo dentro dele dizia que ele não poderia desistir. Aquela mulher desconhecida, cujo rosto assombrava seus sonhos, estava ligada à verdade que ele precisava descobrir sobre si mesmo. A vida que ele acreditava ser sua estava agora sob suspeita. Seis anos haviam se passado desde o acidente, e Hygor sentia que o encontro com essa mulher poderia ser o primeiro passo para recuperar o que fora perdido — ou para descobrir uma verdade ainda mais dolorosa.
E enquanto ele permanecia no limiar desse mistério, Hygor sabia que o próximo passo o levaria a um confronto inevitável. Ele precisava saber quem ela era, e, mais importante, quem ele era antes de todo o vazio que o envolvia.
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Atualizado até capítulo 53
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