Desde o inesperado encontro com Hygor, ele reverberava na mente de Isabel. O coração batia descompassado, cada passo que dava parecia mais pesado que o anterior, como se estivesse carregando o peso de anos de segredos. Ao entrar, tentou disfarçar o turbilhão de emoções que a consumia, mas sabia que seria uma tarefa quase impossível.
As crianças corriam pela casa, alheias à tempestade interna que agitava a mãe. O riso deles ecoava pelas paredes, como um contraste cruel à inquietação que tomava conta de Isabel. Mesmo assim, ela reuniu forças, sorriu e escondeu sua preocupação atrás de uma máscara de tranquilidade. Sentou-se com os pequenos, leu a história favorita deles, as palavras saindo quase automaticamente enquanto sua mente vagava em direções sombrias. Pouco a pouco, as crianças foram se acalmando, até que finalmente adormeceram.
Com os filhos descansando em seus quartos, Isabel fechou a porta suavemente, respirando fundo antes de seguir para a sala de estar. Lá, Cristian a aguardava, o corpo tenso e o olhar ansioso. A preocupação nos olhos dele era inegável, e cada movimento que fazia transparecia a impaciência que ele mal conseguia conter. Isabel sentiu o peso daquela expectativa enquanto caminhava em direção ao sofá. Sentou-se ao lado de Cristian, o silêncio entre eles carregado de tensão, suas mentes preenchidas por pensamentos que pareciam sufocá-los.
Foi Cristian quem, finalmente, quebrou o silêncio. A voz dele estava grave, cheia de inquietação, quase como um eco dos próprios medos de Isabel. "Agora que ele sabe que você está viva, que descobriu onde você está... você acha que Hygor vai contar à família Duarte?" Ele se inclinou ligeiramente para frente, seus olhos buscando alguma resposta no rosto de Isabel, como se ele estivesse tentando encontrar ali a solução para o dilema que os atormentava.
Isabel passou a mão pelo rosto, tentando afastar a angústia que crescia a cada segundo. O encontro com Hygor ainda estava fresco em sua mente, cada detalhe, cada expressão, cada palavra trocada. "Eu não sei..." murmurou ela, como se falasse mais consigo mesma do que com ele. "Algo na maneira como ele reagiu... não parecia certo. Não parecia que ele veio até a Coreia para me procurar. Havia algo mais ali."
Cristian franziu a testa, refletindo sobre as palavras dela. A linha entre a preocupação e a frustração era tênue em seu semblante. "Talvez não seja sobre você diretamente, Isabel," disse ele após um breve silêncio, "mas sim sobre Lee In-Na, a presidente do Grup'IC." Sua voz agora estava mais firme, carregada de convicção. "Acho que ele foi enviado pelo Grup'Art para tentar um contato, depois de todas as nossas recusas às propostas deles."
O choque atravessou Isabel como um raio. O simples pensamento de Hygor estar envolvido em algo relacionado ao Grup'Art a deixou atônita. Além de Cristian, Keith e Mira, ninguém poderia imaginar que ela e Lee In-Na eram a mesma pessoa. Ninguém sequer desconfiava que a CEO do poderoso conglomerado fosse, na verdade, uma mulher que deveria estar morta. Seus olhos se fixaram em Cristian, processando o que ele havia sugerido. "Você acha que Hygor foi enviado pelo Grup'Art? Que ele está envolvido nisso por causa de nossas recusas constantes aos projetos deles?"
Cristian assentiu lentamente, levantando-se do sofá. "Hygor ainda está com Kyra, não está? E Kyra tem ligações diretas com o Grup'Art. É bem possível que ele esteja agindo como intermediário para ela." Ele se dirigiu ao bar no canto da sala, pegando uma garrafa de uísque e dois copos. A expressão em seu rosto era sombria enquanto ele servia a bebida, como se o álcool pudesse, de alguma forma, ajudar a clarear o emaranhado de pensamentos. Retornou ao sofá e entregou um dos copos a Isabel.
Ela aceitou o copo, mas hesitou antes de levar o líquido aos lábios. Tomou um pequeno gole, sentindo a queimação familiar na garganta, e fechou os olhos por um momento, tentando acalmar o turbilhão de sentimentos. "Eu estava pronta para negociar com o Grup'Art," disse ela em um sussurro, o rancor e a frustração pingando de suas palavras. "Fazia parte do meu plano... parte da minha vingança. Mas se eles descobrirem que Lee In-Na e eu somos a mesma pessoa agora, estou arruinada."
Isabel balançou a cabeça, os olhos fixos no copo em suas mãos. "Se a família Duarte descobrir que eu sobrevivi ao incêndio de seis anos atrás... todo o meu plano estará em ruínas. Tudo o que eu fiz, todo sacrifício, será em vão." A dor de reviver aqueles momentos passados estava evidente em sua voz, mas havia também uma fúria contida, uma determinação inabalável. "Não posso permitir que isso aconteça. Hygor não pode contar a ninguém. De jeito nenhum."
Cristian a observou por um momento, os olhos escurecidos pela preocupação. "Se for isso mesmo, Isabel... nós teremos que agir rápido. Não podemos mais esperar." Ele ergueu seu copo, como se brindasse a um futuro incerto. "O que quer que precisemos fazer para proteger seu segredo... vamos fazer."
Cristian olhou para Isabel, sua expressão um misto de empatia e determinação. Ele sabia melhor do que ninguém o que Isabel havia sacrificado e lutado para criar uma nova identidade, para construir o império que agora comandava com uma firmeza inabalável. Toda a trajetória de Isabel, desde o incêndio até se transformar na poderosa Lee In-Na, parecia estar à beira de um colapso. Ele conseguia ver o medo nos olhos dela, mas também conhecia a força que ela escondia por trás de cada decisão. E agora, essa força precisaria prevalecer mais uma vez.
Cristian passou a mão pelos cabelos, pensativo, enquanto caminhava lentamente pela sala. “Precisamos ser mais inteligentes que eles,” ele disse, com a voz baixa, mas carregada de convicção. "Se Hygor está envolvido, isso significa que eles ainda estão tateando no escuro. Eles desconfiam, mas não têm certeza de quem você realmente é. E se ainda não sabem, temos uma oportunidade de controlar essa narrativa, de direcionar o que eles acreditam."
Isabel ergueu o olhar para ele, curiosidade e apreensão misturadas em seus olhos. “O que você tem em mente, Cristian?” A voz dela saiu suave, quase um sussurro, mas carregada de urgência. Ela precisava de respostas, de um plano, e sabia que Cristian era tão sagaz quanto ela nessa batalha de mentiras e jogos de poder.
Sem dizer nada de imediato, Cristian caminhou até o armário no canto da sala, abrindo-o com um movimento decidido. De lá, ele puxou um lenço de seda escura, um par de óculos grandes e uma máscara discreta, itens que pareciam comuns, mas que carregavam um simbolismo profundo. Ele voltou para junto de Isabel e, com uma expressão séria, colocou os objetos em suas mãos.
"Se eles estão te observando, então que vejam exatamente aquilo que você quer que eles vejam,” disse ele, seus olhos fixos nos dela, como se transmitisse uma mensagem silenciosa. “Não podemos permitir que enxerguem além da superfície. Eles não podem sequer sonhar com quem está por trás da máscara.”
Isabel fitou os objetos por um momento, o peso simbólico deles tomando forma em sua mente. Um sorriso leve, quase irônico, curvou seus lábios. Mesmo depois de anos escondida, mesmo após ter forjado uma nova identidade, ela ainda precisava continuar se ocultando, não apenas por detrás de uma máscara física, mas também por detrás da persona impenetrável de Lee In-Na. Havia uma amarga ironia nisso tudo.
Cristian observou a reação dela e deu um passo à frente, a voz agora mais firme, mas ainda suave. "O Grup'Art solicitou uma reunião conosco amanhã, às 10h. Eles querem um encontro cara a cara. Use esses acessórios durante toda a reunião. Você vai se manter como Lee In-Na — intocável, impenetrável." Ele deu uma pausa antes de continuar, a intensidade de suas palavras penetrando o silêncio. "Essa é a única maneira de manter o controle."
Isabel segurou os acessórios com mais força, sentindo uma onda de emoções se misturarem dentro dela. Raiva. Alívio. Frustração. Determinação. Era uma batalha constante. Mesmo que estivesse prestes a cair em uma rede de manipulações, ela sabia que não poderia fraquejar agora. Tudo o que havia construído dependia de manter essa fachada, de continuar o jogo que havia começado anos atrás. E se havia uma coisa que Isabel sabia fazer, era jogar esse jogo.
Com um suspiro profundo, ela olhou para Cristian, seus olhos agora cheios de uma determinação renovada. "Se é isso que precisa ser feito... então farei." Sua voz era baixa, mas cada palavra saía carregada de decisão. "Vou garantir que eles vejam exatamente o que eu quero que vejam. E mais do que isso, vou garantir que não suspeitem de nada... até que seja tarde demais."
Cristian assentiu, aliviado ao ver a firmeza retornar a Isabel. Ele sabia que, apesar do medo que ambos compartilhavam, Isabel era uma estrategista nata, uma mulher que havia aprendido a manipular o mundo à sua volta para sobreviver. E naquele momento, ele podia ver que o fogo dentro dela não estava apagado — estava apenas sendo reavivado.
Isabel ergueu os objetos, agora com uma nova perspectiva. “Eles acham que têm controle... mas é isso que torna tudo mais interessante, não é? Deixe que pensem que estão vencendo. Vou estar um passo à frente, como sempre estive.”
Cristian sorriu de lado, compreendendo o que aquilo significava. “Eles não têm ideia com quem estão lidando, Isabel. E quando perceberem... já será tarde demais.”
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Atualizado até capítulo 53
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