Isabel entrou no café discreto, um pequeno refúgio no coração de uma esquina pacata de Seul. Do lado de fora, a cidade continuava com sua agitação ininterrupta, mas ali dentro, o ambiente parecia suspenso no tempo. Seu coração batia em um ritmo acelerado, quase errático, como se seu corpo estivesse ciente do que sua mente temia enfrentar. Ela sentia as palmas das mãos suadas, enquanto o ar frio da tarde coreana ainda grudava em sua pele. As pálpebras pesadas, denunciando noites mal dormidas, mal conseguiam esconder a inquietação que lhe acompanhava desde o instante em que recebera o telefonema.
Ao atravessar a porta, o familiar aroma de café fresco a acolheu, um cheiro que normalmente a faria relaxar, mas que agora parecia apenas intensificar a agonia. O sino da porta tilintou levemente ao fechar-se atrás dela, e por um momento Isabel parou, tentando regular sua respiração. Cada inspiração era profunda, quase dolorosa, enquanto lutava contra a tempestade crescente que ameaçava tomar conta de seus pensamentos.
Seus olhos rapidamente varreram o local, até que o encontraram. O detetive estava sentado em uma mesa no canto mais afastado, uma figura que destoava da leveza do ambiente com sua postura rígida e a expressão grave. Ele levantou o olhar quando percebeu sua chegada e, por um instante, os olhares se cruzaram. Isabel sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O que quer que ele tivesse a lhe dizer, não seria fácil de ouvir.
“Isabel,” o detetive disse ao se levantar, sua voz grave soando com uma cortesia contida, enquanto oferecia um leve aperto de mãos. O gesto era formal, quase impessoal, mas o peso por trás de sua atitude era evidente. "Obrigado por ter vindo."
Ela forçou um sorriso, sentindo o nervosismo apertar ainda mais o estômago. “Obrigada por me chamar,” respondeu, sentando-se de frente para ele. Tentou encontrar uma posição confortável na cadeira, mas o desconforto vinha de dentro, uma sensação que se enraizava cada vez mais fundo.
O silêncio que se instalou entre os dois parecia opressor, quase como se o próprio ar estivesse carregado com a gravidade do momento. O detetive não desviou o olhar; seus olhos eram intensos, penetrantes, como se quisessem sondar as camadas mais profundas de sua alma. Isabel, por sua vez, tentava manter a compostura, mas o aperto em seu peito denunciava que algo estava errado. Muito errado.
Ela mordeu levemente o lábio inferior, um hábito antigo que voltava em momentos de incerteza. “E então?” sua voz saiu mais baixa do que esperava, quase um sussurro, mas ela continuou, apesar do receio que lhe corroía por dentro. "O que você descobriu sobre Hygor?"
O detetive hesitou por um segundo que pareceu uma eternidade. Sua mão descansava sobre a mesa, e ele brincava inconscientemente com uma caneta, girando-a entre os dedos, como se buscasse as palavras certas. Isabel observou cada movimento, ansiosa, tentando ler algo nas entrelinhas, mas ele era uma muralha, impenetrável.
O silêncio entre eles se estendeu, e cada segundo aumentava a tensão no ar. O ruído suave das xícaras sendo colocadas nas mesas ao redor, as conversas baixas e o som do vapor da máquina de café pareciam muito distantes, quase como se estivessem em outra realidade, fora daquele pequeno universo criado pela tensão entre eles.
Finalmente, o detetive suspirou, seus ombros relaxando um pouco, mas sua expressão permanecia sombria. Ele olhou diretamente nos olhos de Isabel, e por um momento ela soube. Antes mesmo de ouvir as palavras, ela soube que o que estava por vir mudaria tudo.
“Vou direto ao ponto,” ele disse, sua voz séria e sem rodeios, como se cada palavra carregasse o peso do mundo. “Hygor e Kyra estão noivos.”
As palavras caíram como uma pedra no fundo de um poço, reverberando no silêncio que se seguiu. O mundo ao redor de Isabel pareceu desvanecer, deixando apenas um vazio surdo e uma sensação crescente de desespero. Ela piscou, incrédula, tentando absorver a informação, mas era como se sua mente se recusasse a aceitar.
"Como...?" começou a perguntar, mas as palavras morreram em seus lábios, substituídas por uma dor aguda que apertava seu peito.
Em um breve instante, o mundo ao redor de Isabel ficou borrado, como se a realidade tivesse perdido o foco. O café, as pessoas, os sons—tudo desapareceu sob o peso esmagador de uma única palavra. “Noivos?” murmurou, sua voz carregada de incredulidade. As emoções se amontoaram em sua mente como ondas em uma tempestade crescente: a descrença, a raiva, a sensação pungente de traição. Era um turbilhão que ameaçava engoli-la por completo. “Ele ficou noivo da mulher que aceitou ser sua amante por seis anos? Como isso aconteceu? Como ele pôde fazer isso comigo?”
Suas palavras escaparam em um tom ácido, cada sílaba como uma lâmina, afiada pelo amargo gosto da traição. Sua garganta se apertou, e Isabel sentiu o coração acelerar como se quisesse sair do peito.
O detetive manteve a calma, sua voz firme e controlada, como se já esperasse por aquela explosão. “O noivado deles é recente,” explicou, com a paciência de quem já carregava um fardo pesado por muito tempo. “Hygor perdeu a memória de tudo que aconteceu antes do acidente, seis anos atrás. Essa perda foi completa, Isabel. Ele não lembra de nada, de ninguém. Por causa dessa amnésia, o noivado só aconteceu este ano.”
Ele fez uma pausa, observando cuidadosamente a reação dela, como se estivesse esperando que o impacto dessas palavras se dissipasse, mas Isabel permaneceu estática, suas emoções fervilhando sob a superfície, prestes a transbordar.
“O que mais você sabe?” A voz dela estava carregada de dor, uma dor crua, à beira da fúria.
“O acidente foi devastador, você sabe disso. A fratura na perna acabou com o sonho dele de ser jogador de futebol profissional, mas ele encontrou uma forma de seguir em frente,” continuou o detetive, sua expressão grave. “Agora, ele é professor de educação física em uma universidade no Rio de Janeiro. Dedica-se a ensinar aos jovens o que aprendeu no futebol, um modo de viver o sonho que perdeu. E, como ele também tinha formação em logística e administração, está ajudando o Grup'Art nas questões administrativas, especialmente em um momento delicado como este.”
Isabel sentiu um nó apertar-se ainda mais em seu estômago, como se alguém tivesse dado um laço firme e sufocante. Perdeu a memória? A mente dela girava, tentando encaixar essa nova informação. Explicava, talvez, algumas das decisões recentes de Hygor, mas não justificava tudo. Certamente, não explicava aquele e-mail. Aquele e-mail que tinha destroçado seu mundo.
“E quanto ao e-mail?” A voz dela quebrou, o tom de desespero agora evidente. “Ele me mandou uma mensagem horrível. Ele me disse para... para abortar os gêmeos, como ele pode fazer isso, mesmo sem memórias?” Suas mãos tremiam, o controle que lutava para manter estava escapando, desmoronando como areia entre os dedos.
O detetive desviou o olhar por um instante, visivelmente desconfortável com a pergunta, como se não tivesse uma resposta fácil. “Eu não sei,” disse ele, com uma honestidade sombria. “Às vezes, as emoções mais profundas podem transcender a lógica ou mesmo a memória. Mesmo sem lembrar dos fatos, Hygor pode ter se agarrado a sentimentos antigos, instintos que ele não entende completamente. Talvez o impacto emocional de tudo o que aconteceu ainda ressoe nele, de maneiras que ele próprio não compreende.”
Isabel apertou os punhos, a raiva crescendo. Não era suficiente. Nada disso era suficiente para explicar a dor que ela sentia, o vazio que se formara em seu peito desde que aquele e-mail apareceu em sua caixa de entrada. “Mas isso não justifica o que ele fez,” ela disse, com a voz embargada pela emoção. “Isso não explica a crueldade.”
“Você está certa,” o detetive admitiu, sua voz baixa. “Nada justifica o que ele te fez passar.”
A sala parecia se fechar ao redor de Isabel, como se o espaço entre ela e o detetive estivesse diminuindo, sufocando-a com o peso das revelações. “Então, você está me dizendo que ele não se lembra de nada do que vivemos? De nenhum momento? Ele... ele não se lembra de mim?”
Seu tom era quase desesperado agora, a frustração evidente. As palavras saíam em um ritmo acelerado, como se, de alguma forma, falá-las rapidamente pudesse trazer algum alívio para a dor crescente dentro dela.
“Não,” respondeu o detetive, com uma tristeza contida. “Ele não se lembra de você.”
Isabel ficou em silêncio por um momento, absorvendo o impacto dessas palavras, tentando imaginar um mundo onde Hygor não a reconhecia. Onde todos os anos que compartilharam, cada riso, cada lágrima, cada promessa, tinham desaparecido como poeira ao vento. Ele não se lembra de mim. A ideia era devastadora.
“E Kyra?” A pergunta escapou de seus lábios antes que pudesse se conter, e a amargura em sua voz era inconfundível. “Kyra, a amante que agora é noiva? Ela deve estar satisfeita, não é? Feliz por ele ter se esquecido de mim, por finalmente poder ser a 'legítima' mulher de Hygor. Ela sabia de tudo. Sabia o que estávamos passando... Como ela pode simplesmente agir como se nada tivesse acontecido?”
O detetive respirou fundo, como quem pondera palavras que, de qualquer forma, causarão dor. Seus olhos encontraram os de Isabel com uma expressão mista de compaixão e cautela. “Kyra parece estar ao lado dele desde o dia em que acordou, seis anos atrás. Ela o tem apoiado nessa nova vida, talvez sem saber a total extensão do que aconteceu antes do acidente. Talvez Hygor nunca tenha mencionado você, nunca tenha falado sobre o que houve entre vocês. Ou... talvez ela simplesmente tenha decidido ignorar o fato de ter sido uma amante. Não sabemos ao certo. O que eu sei é que, sem suas memórias, ele está vulnerável. Está tentando reconstruir a vida dele com os poucos fragmentos que restam.”
Isabel apertou os lábios com força, tentando impedir as lágrimas que ameaçavam brotar. A indignação crescia dentro dela, misturada com a tristeza corrosiva que parecia se enraizar mais profundamente a cada palavra. “É impossível Kyra não saber que era uma amante. Impossível! Ela sabia o que estava fazendo. Não tem como apagar isso. Eles estão vivendo uma mentira, uma mentira confortável para ela. E eu… eu sou apenas uma sombra do passado que ele sequer consegue lembrar.”
A dor que antes parecia sufocá-la começou a tomar outra forma. Ela sentiu o calor da raiva se espalhar em seu peito, uma raiva fria e controlada. Isso não pode continuar. Ela não deixaria que aquela situação se perpetuasse, não enquanto ela carregava a verdade.
“Isso não é justo,” murmurou, quase como um lamento, mas suas palavras tinham um peso novo, como uma promessa. “Ele esteve feliz com Kyra durante todos esses anos enquanto eu sofria. Eu estive sozinha nesse pesadelo, e agora ela fica ao lado dele, como se nada tivesse acontecido?”
Ela levantou o olhar, seus olhos brilhando com uma determinação renovada. “Eu não posso permitir que ele construa uma nova vida ao lado de Kyra sem saber a verdade. Ele merece saber o que realmente aconteceu... quem ele realmente é.” A voz dela endureceu, cada palavra carregada de propósito. “Ele tem que saber sobre sua verdadeira índole. Eu não vou deixá-los continuar vivendo essa mentira.”
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Atualizado até capítulo 53
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