Finalmente, os olhos de Isabel se fecharam e, ao reabri-los, ela ainda sentia o peso da fraqueza dominando seu corpo. Levantou-se da cama num sobressalto, o coração acelerado e a mente atordoada. O quarto ao seu redor era amplo e desconhecido, decorado com móveis elegantes, mas o cheiro de desinfetante e o ambiente hospitalar causavam-lhe um desconforto profundo. Sentia-se desorientada, como se estivesse imersa em um pesadelo sem fim.
"Onde... onde estou?" murmurou para si mesma, a voz trêmula e entrecortada pelo medo e pela confusão. Ela se aproximou da janela, tentando entender o que estava acontecendo, seu olhar perdido procurando um senso de realidade. Seus olhos, ainda sem foco, finalmente se fixaram em uma figura deitada na cama ao lado, e o coração disparou.
"Bryan?" O nome saiu de seus lábios como um sussurro trêmulo, repleto de apreensão e descrença. Isabel forçou-se a caminhar até ele, cada passo parecia um esforço monumental. Ao chegar ao lado da cama, começou a sacudi-lo com desespero. "Bryan, acorda! Por favor, acorda!" O som de sua voz misturava súplica e terror, mas ele permanecia imóvel. A máscara respiratória que ele usava fazia com que o ambiente parecesse ainda mais sombrio, e o silêncio que emanava dele fazia o desespero se instalar em Isabel. Lágrimas quentes começaram a rolar pelo seu rosto, e sua respiração estava cada vez mais ofegante.
De repente, a porta se abriu com um ruído suave, e Isabel se virou abruptamente. O coração dela batia descompassado, e seus olhos, sem as lentes de contato, lutavam para distinguir as figuras que entraram. Um homem e duas mulheres pararam na entrada, suas silhuetas confusas se misturando com o pânico que a envolvia.
"Mãe?" A palavra saiu num sussurro, carregada de angústia e confusão. "O que está acontecendo? Como chegamos aqui? E por que Bryan não acorda?" Sua voz era uma torrente de desespero e perguntas, tentando desesperadamente montar os pedaços de uma realidade fragmentada.
Viviane correu até ela, envolvendo-a em um abraço apertado. Isabel sentiu o calor da mãe e a tentativa de conforto, mas isso pouco fazia para aliviar o pavor que crescia dentro dela. Enquanto isso, o homem e a mulher que a acompanhavam se aproximaram da cama onde Bryan permanecia imóvel.
"Isabel..." A voz grave de Juan Willians, o patriarca da família ao lado de sua esposa, Thaís Willians, ecoou pelo quarto. "O prédio desabou no incêndio. Você e meu filho foram dados como desaparecidos. E, em breve, a família Duarte acreditará que vocês não sobreviveram."
As palavras de Juan caíram sobre Isabel como um golpe devastador. O mundo ao seu redor parecia girar, e seus joelhos vacilaram sob o peso da notícia. "O... o que ele está dizendo, mãe?" Sua voz era trêmula, quase inaudível, como se implorasse por uma outra versão da verdade.
Viviane apertou a filha com mais força, tentando protegê-la da cruel realidade. "Vocês foram encontrados pouco antes de o prédio explodir... Há dois dias, Isabel." A hesitação na voz de Viviane era dolorosa, e os olhos dela estavam marejados. "Suspeitamos que foi seu pai... Richard... quem provocou o incêndio."
O choque foi como um soco no estômago de Isabel. Ela ofegou, o ar escapando de seus pulmões enquanto o corpo tremia diante da crueza da verdade. As últimas palavras trocadas com Richard antes da tragédia agora ecoavam em sua mente como uma ferida aberta. A traição que sentia cortava fundo demais para ser compartilhada com os outros. Não havia palavras para expressar a profundidade da dor e da traição.
Ela se afastou um pouco de sua mãe, ainda em estado de choque, seus olhos vagando pela figura imóvel de Bryan. O medo que inicialmente a dominava começava a se transformar em uma dor surda, uma raiva contida que fervia dentro dela. A realidade era implacável e cruel, e a sensação de impotência e frustração a consumia, deixando-a lutando contra uma onda de emoções que parecia impossível de controlar.
Semanas haviam se passado desde o incêndio, e Isabel ainda se encontrava escondida na mansão da família Willians, imersa em um tormento interno que não parecia ter fim. As horas se arrastavam e cada segundo era uma eternidade enquanto ela revivia incessantemente a cena daquela noite aterradora.
"Como ele pode... como ele pode afirmar que nunca machucaria alguém da própria família e, ao mesmo tempo, ser o responsável por tentar me matar?" Ela murmurou para si mesma, a voz carregada de mágoa e confusão. O peso das palavras de Richard parecia esmagá-la, tornando cada respiração um esforço doloroso.
Uma batida suave na porta interrompeu seus pensamentos. Isabel piscou, voltando ao presente com dificuldade. "Entre," ela disse, sua voz quase um suspiro.
Viviane entrou, o rosto sombrio e marcado pela preocupação. Sem dizer uma palavra, ela se aproximou da filha e a envolveu em um abraço. Isabel, embora hesitante, retribuiu o gesto, mas o conforto parecia efêmero diante da nuvem de dúvidas e angústias que a envolvia.
"Você está pensando que... que seu pai pode ter causado o incêndio, não é?" Viviane perguntou suavemente, sua voz carregada de uma esperança vacilante. "Richard pode ser severo... mas ele nunca faria algo assim, Isabel. Ele te ama."
As palavras de Viviane soavam vazias, quase como um eco perdido no silêncio opressor do quarto. Isabel sabia da verdade; conhecia a confissão de Richard antes da tragédia. Como sua mãe poderia defendê-lo, ignorando o que estava claro para ela? As perguntas que tentava enterrar começaram a se agitar, recusando-se a ficar silenciadas.
"Mãe..." Isabel hesitou, a voz trêmula e entrecortada. "Richard... ele é realmente meu pai?"
Viviane congelou, o tempo parecia ter parado por um momento. O rosto dela mudou sutilmente, uma faísca de indignação cruzando seus olhos. "Como você pode perguntar uma coisa dessas?" A voz dela era firme, quase agressiva, mas havia algo mais ali — algo escondido, um medo subjacente.
Isabel desviou o olhar, o coração acelerado com a força da verdade não dita. "Você... você tem certeza? Se houve algo que você escondeu de mim, eu entenderia. Se você tivesse tido um caso ou..."
Um tapa. O som reverberou pelo quarto como uma explosão inesperada. Isabel sentiu o ardor no rosto, mas o que realmente a feriu foi o olhar de sua mãe — não era apenas raiva; havia medo e dor ali também.
"Nunca mais diga algo assim!" Viviane gritou, tremendo de raiva e angustia. "Você é a primogênita de Richard, o filho mais velho do Grup'Art! Isso nunca vai mudar!" Ela agarrou os braços de Isabel com uma força quase desesperada, como se tentasse forçá-la a acreditar na realidade que estava apresentando. "Você me ouviu?"
Isabel, com os olhos marejados e o coração partido, assentiu lentamente. Mas, no fundo, algo estava quebrado. O tapa foi mais do que uma agressão física; foi a confirmação de que sua mãe também estava escondendo algo. Algo que Isabel não estava pronta para enfrentar.
Naquela tarde, Isabel vagava pelos corredores da mansão da família Willians, seus passos abafados pelo peso das lembranças que invadiam sua mente. As paredes pareciam se fechar ao seu redor, e cada quadro pendurado nas paredes parecia observá-la, cúmplices de segredos que ela mal começava a desvendar. Seus pés, guiados quase por instinto, a levaram até a porta entreaberta do escritório de Thaís, mãe de Bryan. Lá dentro, vozes baixas trocavam palavras carregadas de uma tensão palpável que fez seu coração acelerar.
"Minha filha já sofreu demais nas mãos do pai. O psicológico dela está destruído... se ela descobrir a verdade..." A voz de Viviane estava trêmula, carregada de uma dor e desespero que Isabel nunca havia ouvido antes. Cada palavra parecia um lamento profundo, uma súplica silenciosa.
Thaís respondeu com um tom firme, mas solidário: "Eu prometo, farei de tudo para que Isabel nunca descubra esse segredo."
Foi como se o chão sob Isabel desmoronasse, e o ar se tornasse pesado demais para ser respirado. Ela recuou, quase tropeçando em seus próprios pés, enquanto seu coração martelava em sua cabeça. "Que segredo?" pensou, o pânico crescendo dentro dela. Sem querer ouvir mais nada, virou-se e correu em direção ao seu quarto, lágrimas começando a embaçar sua visão.
Ao fechar a porta atrás de si, seus joelhos cederam, e ela caiu ao chão, levando as mãos trêmulas até sua barriga ainda lisa. "Bebê... o que a mamãe deve fazer?" sussurrou, suas palavras mal saindo por entre os soluços. Lágrimas escorriam livremente por seu rosto enquanto acariciava o ventre. O futuro, que antes era incerto, agora parecia um campo minado, e o medo do desconhecido a consumia.
Com o peito apertado e o coração batendo acelerado, Isabel tomou uma decisão irrevogável. Não poderia mais permanecer ali, sufocada por mentiras e traições. Levantou-se, tremendo, e começou a jogar roupas e pertences em uma mala, seus movimentos apressados e desajeitados. Cada peça de roupa que caía dentro da mala parecia um pedaço de sua vida passada sendo deixado para trás, cada objeto uma lembrança de um mundo que estava se desintegrando.
Ela pegou o telefone com as mãos trêmulas, hesitou por um breve momento e, finalmente, discou o número de Cristian Soares, seu amigo de infância. Quando ele atendeu, sua voz misturava alívio e desespero. "Cristian... eu preciso de você", disse Isabel, a voz quebrada pela emoção e pelo peso da situação.
"Isabel? O que aconteceu?" Cristian perguntou, a preocupação evidente em cada palavra. "Você está bem?"
"Não... não estou," Isabel admitiu, a voz falhando sob o peso das lágrimas. "Estou em um lugar onde não pertenço, rodeada por mentiras. Eu não consigo mais ficar aqui."
"Calma, eu vou te ajudar," Cristian garantiu, a determinação em sua voz clara e firme. "Diga-me o que você precisa."
Horas depois, o jantar na mansão Willians estava montado com a mesma opulência de sempre: pratos finos, talheres brilhando à luz das velas, tudo cuidadosamente arranjado como se fosse uma cena de um filme. Juan, o patriarca, ergueu uma taça de vinho, seu sorriso melancólico contrastando com o ambiente festivo.
"Quero agradecer por Isabel e meu filho ainda estarem vivos," começou ele, com um tom grave que fez todos ao redor da mesa silenciarem. "A vida é algo frágil, e precisamos valorizar cada momento que temos."
Isabel, no entanto, mal conseguia ouvir. Sua mente estava distante, observando a cena como se estivesse em um pesadelo acordado. As risadas e conversas dos outros membros da família pareciam ecoar em um vácuo, cada som distorcido pelo tumulto que rugia dentro de sua cabeça.
Viviane, sentada ao lado de Juan, estava visivelmente tensa. Suas mãos tremiam, mal conseguindo segurar o guardanapo. Ela evitava olhar para Isabel, mas seu desconforto era palpável. Luna e Eva, as irmãs de Bryan, conversavam em sussurros, seus olhos cheios de tristeza pela condição do irmão, ainda inconsciente.
De repente, o peso da situação tornou-se insuportável para Isabel. Ela se levantou abruptamente, a cadeira arrastando-se no chão com um rangido alto. "Eu... preciso ir," murmurou, a voz falhando sob o peso da emoção. Todos na mesa a olharam em choque, mas antes que pudessem reagir, ela já estava saindo, quase correndo.
A noite fria a envolveu quando ela saiu da casa, o ar gélido batendo em seu rosto, mas não conseguindo acalmar o tumulto dentro dela. Seus pensamentos giravam como um turbilhão, e cada respiração parecia uma luta desesperada. Ela precisava de respostas, não podia mais viver naquele cenário sufocante, em meio a segredos que a consumiam.
Seus passos a levaram pelos vastos jardins da propriedade dos Willians, onde a escuridão parecia engolir tudo. A noite estava sem lua, e o céu carregado de nuvens refletia o caos interno de Isabel. Mas, por dentro, uma chama começava a se acender. Ela não seria mais manipulada. Não seria mais uma peça no jogo de ninguém.
As palavras de Viviane e Thaís ecoavam repetidamente em sua mente: "Se ela descobrir a verdade..." O que sua mãe tanto temia? O que poderia ser pior do que tudo o que Isabel já enfrentara? Ela precisava de respostas. Se sua mãe não as daria, então ela as encontraria por conta própria. Determinada e com a coragem renovada, Isabel sabia que estava prestes a desbravar um caminho cheio de verdades ocultas e confrontos inevitáveis.
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Atualizado até capítulo 53
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