Ao sair do consultório, Isabel sentia como se o chão tivesse sido arrancado debaixo de seus pés. Cada passo que dava parecia incerto, pesado, como se o peso de todas as decisões, de todas as palavras cruéis de Renato, estivessem comprimindo seu peito, dificultando sua respiração. O som das portas do hospital se fechando atrás dela ressoava como um eco distante, e tudo ao seu redor parecia perder o sentido, o brilho. Seus lábios tremiam incontrolavelmente, os olhos marejados, enquanto as lágrimas, agora impossíveis de conter, deslizavam silenciosas e quentes pelo seu rosto.
Ela não sabia mais para onde estava indo. O mundo, antes cheio de possibilidades, agora se tornava uma prisão sem saída. Os corredores, as pessoas ao redor, tudo parecia desfocado, como uma pintura desbotada. E, no fundo de sua mente, a voz de Renato ainda reverberava: "Nós não queremos esses bebês." A crueldade daquelas palavras a cortava profundamente, e a dor que sentia no peito parecia mais intensa a cada passo.
Quando finalmente alcançou a saída do hospital, seus olhos encontraram Cristian. Ele estava lá, esperando, como sempre esteve. O olhar de preocupação em seu rosto era palpável, mas não havia julgamento. Apenas uma compreensão silenciosa, um apoio inabalável. Assim que ele a viu, sem dizer uma palavra, Cristian deu alguns passos à frente e, em um gesto quase automático, a envolveu em um abraço firme, acolhedor.
Naquele momento, o mundo pareceu parar por um segundo. O calor do abraço de Cristian, a segurança que ele transmitia, era o que Isabel precisava. Ela se permitiu afundar naquele conforto, como se todo o peso do universo estivesse, por um breve momento, dividido entre eles. Ele não disse nada. Não precisava. O silêncio entre eles era cheio de significados, de uma amizade profunda, e ele sabia que nenhuma palavra seria suficiente para aliviar o que ela estava sentindo.
Com movimentos cuidadosos, Cristian a conduziu até o carro, segurando-a com a delicadeza de quem segura algo frágil, prestes a se despedaçar. Ao abrir a porta do passageiro, ele a ajudou a se acomodar no assento, e Isabel, exausta emocionalmente, deixou o corpo desabar contra o banco. A fachada de força que ela tentara manter até então finalmente cedeu. As barreiras que a protegiam de desmoronar ruíram, e, com um soluço abafado, Isabel afundou a cabeça nas mãos.
As lágrimas vieram em torrente, carregando toda a dor, o medo, a raiva e a impotência que ela havia tentado reprimir. Cada soluço que escapava de seus lábios parecia mais pesado que o anterior, como se a alma estivesse se esvaindo junto com as lágrimas. Cristian permaneceu ao seu lado, as mãos firmes no volante, mas o olhar cheio de preocupação e empatia voltado para ela. Não havia nada que ele pudesse dizer, mas o simples fato de estar ali, presente, ao lado dela, era a única coisa que ela precisava naquele momento.
O silêncio dentro do carro era cortado apenas pelos soluços suaves de Isabel, enquanto Cristian, com o coração apertado, se perguntava como poderia ajudar mais. "Isa... nós vamos sair dessa," ele disse, finalmente, com a voz baixa, quase um sussurro, tentando oferecer alguma esperança. Mas ele sabia que, por mais que quisesse protegê-la de toda a dor, aquilo era algo que Isabel teria que enfrentar.
Isabel levantou o olhar, os olhos inchados e vermelhos, mas cheios de gratidão pelo amigo ao seu lado. "Eu só queria... que tudo fosse diferente," ela murmurou, sua voz carregada de tristeza e exaustão. "Eu só queria que eles estivessem seguros... que eu pudesse ser suficiente para protegê-los."
Cristian estendeu a mão e apertou a dela suavemente. "Você vai conseguir. Eles são seus filhos, Isa. E eu estarei aqui, com você, em cada passo dessa luta. Não importa o que venha, você não está sozinha."
As palavras de Cristian tocaram fundo no coração de Isabel. Embora a dor ainda estivesse ali, imensa e esmagadora, ela encontrou um fio de esperança na promessa do amigo. O caminho à frente era incerto, cheio de desafios, mas naquele momento, com Cristian ao seu lado, ela soube que não enfrentaria tudo isso sozinha.
Cristian, com uma voz carregada de firmeza e determinação, disse: "Eu vou te ajudar, Isa. Nós vamos sair daqui. Vamos para um lugar onde você possa recomeçar, longe de tudo isso." A promessa estava clara, e o tom de sua voz deixava evidente que ele não recuaria.
Sem hesitar, Isabel seguiu Cristian até o aeroporto, cada passo mais pesado do que o anterior. Era como se o chão a puxasse para baixo, dificultando cada movimento. Suas pernas tremiam, e o coração, dilacerado, batia de maneira irregular, como se cada compasso a lembrasse da devastação de tudo o que havia perdido. O silêncio entre os dois era denso, repleto de palavras não ditas e emoções sufocadas. Cristian, sempre cuidadoso e atento, a conduzia pelo terminal, tomando para si a responsabilidade de lidar com todos os detalhes que Isabel simplesmente não conseguia enfrentar naquele momento.
Cristian havia ligado para Keith Oliveira e Mira Fonseca assim que saíram do hospital, explicando em rápidas palavras o que estava acontecendo e pedindo que fossem ao aeroporto imediatamente. As amigas, tão preocupadas quanto ele, chegaram correndo, os olhos desesperados em busca de Isabel.
Assim que avistaram a amiga, ambas se lançaram em sua direção, abraçando-a com tanta força que Isabel quase perdeu o equilíbrio. Keith foi a primeira a falar, sua voz embargada, mas repleta de preocupação e uma leve indignação.
“Por que você não nos contou que estava viva?!” Keith exclamou, a dor evidente em suas palavras. “Eu, Mira e Cristian... nós fomos ao seu enterro há algumas semanas, Isabel! Você não faz ideia de como foi doloroso. Como pôde nos esconder isso?”
A voz de Keith, carregada de mágoa, cortava Isabel profundamente. Ela sabia que tinha ferido suas amigas, que as deixara na escuridão, acreditando em algo tão cruel. Antes que ela pudesse responder, Cristian se aproximou, colocando uma mão gentil no ombro de Keith e afastando-a um pouco de Isabel.
“Keith, agora não é hora de brigar com ela,” disse Cristian, tentando manter a calma. Ele sabia o quanto Isabel estava fragilizada, e qualquer confronto naquele momento poderia quebrá-la ainda mais.
Mira, no entanto, não estava disposta a deixar passar tão facilmente. Ela limpava as lágrimas que escorriam incessantemente pelo rosto, a dor em seus olhos transformando-se em uma mistura de incredulidade e raiva. “Cristian, você é cínico?” bufou, inconformada. “Você teve a coragem de ir ao enterro dela, de chorar conosco, sabendo que Isabel estava viva e bem? Como pôde mentir para nós?”
A acusação de Mira pesou no ar, e Cristian não soube como responder. Antes que qualquer um deles pudesse reagir, Isabel, sentindo o peso da culpa se acumulando ainda mais sobre seus ombros, interveio, a voz baixa, mas urgente.
“Ele só descobriu recentemente,” Isabel explicou, sua voz trêmula. “Eu pedi a ajuda dele para fugir da mansão da família Willians... sem alarmar a família Duarte.”
Mira e Keith se encararam, confusas e preocupadas. Elas conheciam bem o laço entre Isabel e a família Duarte, sabiam de sua verdadeira identidade como legítima herdeira do Grup'Art. Aquilo que Isabel estava revelando agora era, sem dúvida, parte de algo muito maior. Com a voz carregada de incerteza, Keith formulou a pergunta que pairava no ar.
“O que você quer dizer com fugir, Isa? Você nos enganou sobre amar Bryan?” Ela suspirou. "Aquele casamento parecia tão repentino..." As palavras pairaram no ar, pesadas e cheias de significado.
Antes que a conversa pudesse avançar, Isabel não conseguiu segurar as lágrimas. Um soluço escapou de sua garganta, e ela desabou, o rosto contorcido pela dor. “Me desculpem!” implorou, a voz embargada pelo choro. “Eu não queria que vocês sofressem assim. Mas eu... eu não tive escolha. Hygor... o casamento... eu nunca quis isso...”
Keith, Mira e Cristian a cercaram, suas próprias dores e perguntas se dissipando naquele momento. Elas entendiam, mais do que ninguém, o quanto Isabel havia sofrido. Juntas, as amigas e Cristian a abraçaram, segurando-a firme como se pudessem transferir um pouco de sua força. O abraço era quente e protetor; apesar das palavras não ditas, havia um profundo entendimento naquele gesto silencioso.
Isabel sentia o calor dos abraços, mas também o peso insuportável das últimas semanas. “Eu... estou grávida,” confessou de repente, a voz abafada pelo choro e pelos ombros das amigas. “Grávida de gêmeos. Os bebês são do Hygor.”
O choque atravessou o grupo. Keith e Mira, que nunca gostaram de Hygor desde que ele rejeitou os sentimentos de Isabel na adolescência, se afastaram levemente, o olhar arregalado. “O quê? Grávida? De gêmeos? Você só tem 23 anos, Isabel. Acabou de se formar na universidade,” repetiu Mira, a voz carregada de surpresa e preocupação. "Como isso aconteceu?"
Isabel assentiu, enxugando as lágrimas com as mãos trêmulas. “Descobri um pouco antes do acidente do Hygor. Para salvá-lo, aceitei o casamento arranjado com Bryan Willians. Eu nunca quis casar com ele, nunca quis viver essa mentira, mas tudo fugiu do meu controle.”
Keith, sempre prática, respirou fundo, tentando absorver tudo. “Isa, isso é... muito. E o que você vai fazer agora? O Hygor sabe?”
Isabel balançou a cabeça negativamente. “Ele não sabe... não consegui contar. Quando voltei, ele já estava com a Kyra no hospital. Pareciam tão felizes. Eu... estou sozinha nisso.”
As amigas se entreolharam e, sem mais perguntas, voltaram a abraçar Isabel. Desta vez, o abraço era mais longo e profundo, um gesto que dizia mais do que qualquer palavra. Não importava o quanto Isabel tentasse carregar aquilo sozinha; elas estavam ali, ao seu lado, para o que viesse.
Cristian, observando o momento, se aproximou e apoiou uma mão em seu ombro. “Você nunca esteve sozinha, Isa. E não vai estar agora. Vamos te ajudar... vamos proteger você e esses bebês. Não importa o que aconteça.”
"O Cris tem razão. Podemos odiar o Hygor neste momento, mas amamos você e agora nossos afilhados também," disse Mira, emocionada. "Amiga, saiba que nunca iremos abandonar você."
O calor daquele momento, da verdadeira amizade que compartilhavam, deu a Isabel uma força renovada. Ela sabia que ainda havia uma longa jornada pela frente, mas, com seus amigos ao seu lado, talvez houvesse uma luz no fim do túnel.
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Atualizado até capítulo 53
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