O espelho no corredor refletia sua imagem com uma nitidez perturbadora, como se revelasse mais do que apenas a aparência impecável. Ali estava Isabel, a silhueta elegante e imponente, vestida para o sucesso, emanando confiança e poder. A jaqueta do tailleur ajustava-se perfeitamente ao corpo, os cabelos presos com precisão, os sapatos de salto ecoando no chão frio do apartamento. Mas seus olhos... Ah, os olhos contavam outra história. Aquele brilho que todos associavam à sua força era, na verdade, um disfarce meticuloso. Havia um peso profundo, um abismo de emoções reprimidas que ameaçava transbordar a qualquer momento.
Por fora, era uma fortaleza — inabalável, imponente. Por dentro, o caos. Um turbilhão de sentimentos contraditórios a acompanhava desde a adolescência, como uma tempestade que nunca cessava. Por mais que tentasse, a batalha interna parecia não ter fim. Isabel se aproximou do espelho, seus dedos trêmulos roçando a superfície fria. Encostou a testa no vidro, sentindo o toque gelado como uma âncora à realidade, como se aquilo pudesse impedir que seus pensamentos mergulhassem mais fundo na escuridão. "Você consegue", sussurrou para si mesma, sua voz ecoando no silêncio da casa vazia, como uma prece solitária. Era um mantra que ela repetia todas as manhãs, como se o simples ato de dizer essas palavras em voz alta pudesse transformá-las em verdade, em força.
Mas lá no fundo, ela sabia a verdade. O fantasma de seu passado ainda a rondava, dançando nas sombras que ela mal conseguia controlar. A cada passo que dava, sentia o peso dessas memórias antigas, a culpa, o medo e o arrependimento como correntes invisíveis que a mantinham presa. E no centro desse labirinto de emoções, um nome pairava como uma maldição: Richard.
Richard havia sido o começo de tudo. O homem que a colocou no caminho do poder, mas também aquele que destruiu suas ilusões. A dor daquele relacionamento ainda ecoava em cada decisão que ela tomava. A Grup'Art, a corporação que ele comandava, agora representava uma ameaça constante, uma sombra sobre cada movimento que ela planejava. E agora, depois de tanto tempo arquitetando sua vingança, o momento estava se aproximando. Era como se o tempo estivesse prestes a se dobrar sobre si mesmo, trazendo à tona o passado que ela tentara desesperadamente enterrar.
E então havia Hygor. O nome dele ressoava em sua mente, despertando sentimentos que ela preferia não revisitar. Ele fora uma figura quase esquecida, um detalhe de sua vida que ela achava ter superado. Mas não, ele estava de volta, como um elo inesperado, unindo todas as peças de um quebra-cabeça que Isabel ainda lutava para entender. Hygor representava uma mistura perigosa de desejo e traição. Ele havia estado nas sombras por seis anos, desaparecido sem deixar rastros. O que ele fazia todo esse tempo? Estaria ele ligado ao plano de Richard? Ou, pior, já sabia sobre a nova identidade que Isabel havia assumido?
Ela precisava de respostas. E rápido.
A mensagem do detetive ecoava em sua mente, deixando uma sensação de urgência latejante em suas veias: "Encontro confirmado. Estou com informações novas. Você vai querer ver isso." O que quer que ele tivesse descoberto, poderia mudar o rumo de tudo. Isabel sabia que, a partir desse momento, cada movimento seria crucial.
Ela se afastou do espelho com um suspiro pesado, tentando se recompor. Pegou a xícara de café que estava sobre a mesa e levou aos lábios. O líquido quente escorreu pela garganta, mas o calor não conseguiu dissipar o frio que a dominava por dentro. Era um frio diferente, não o da manhã lá fora, mas o da incerteza que se arrastava dentro de seu peito. "Hygor..." sussurrou ela, quase num lamento. O nome saiu de seus lábios com um peso que ela não esperava. Era como uma ferida aberta que ela pensava ter cicatrizado. "Como pude amar você?" A pergunta reverberou no silêncio da casa, e a resposta, como sempre, ficou perdida no vazio.
Ajustando o tailleur mais uma vez, Isabel fez um esforço consciente para recuperar o controle. Cada movimento seu era calculado, preciso, como se até os gestos de se vestir fossem uma forma de armadura contra o caos que a rodeava. O dia estava começando, e ela precisava estar preparada. O ato de se preparar era, em si, um ritual de poder, um lembrete de que, independentemente do que acontecesse, ela ainda tinha controle sobre sua imagem, sobre o que os outros viam.
Ela atravessou a porta e foi recebida pelo frio cortante da manhã. O vento beijou seu rosto, uma carícia gelada que a fez estreitar os olhos. Mas, desta vez, o frio parecia fortalecê-la. Ao contrário dos dias anteriores, não era uma adversidade, algo a ser suportado. Pelo contrário, era como se o frio refletisse o que ela sentia por dentro: uma determinação fria, implacável, uma força que crescia a cada passo. Isabel ergueu a cabeça, sentindo o vento em seus cabelos e soube, sem sombra de dúvida, que estava pronta para o que viesse. O mundo lá fora poderia ser implacável, mas ela também era.
Isabel caminhava pela rua deserta com passos firmes, o som de seus saltos ecoando no concreto como uma marcha constante, quase hipnotizante. Era uma trilha sonora para a batalha silenciosa que se desenrolava em sua mente. Hoje não era um dia comum. Não se tratava apenas de mais uma reunião de negócios com a Grup'Art, onde as discussões sobre parcerias sempre carregavam veneno disfarçado de promessas, ou uma pacífica reunião com o detetive que havia contratado. Não, hoje era diferente. Cada palavra que dissesse, cada decisão tomada, teria repercussões que iriam muito além dos negócios. Era a vida dela que estava em jogo, e o controle que um dia fora brutalmente arrancado de suas mãos estava prestes a ser reivindicado.
Ela parou por um momento na calçada, permitindo que a brisa leve tocasse seu rosto. Era um contraste com o calor que sentia no peito, uma chama alimentada pela raiva, pelo medo e, acima de tudo, pela determinação. Por um instante, os rostos de Dylan e Diana passaram por sua mente. As últimas palavras que dissera a eles ainda ecoavam, cheias de uma segurança que ela mal sentia por dentro. “Eu volto logo. Vai ficar tudo bem.” Mas a culpa se enrolava em seu coração como uma serpente. Sabia que não lutava apenas por si. Tudo o que fazia agora tinha um reflexo direto neles, seus filhos. A responsabilidade de protegê-los e garantir que eles nunca precisassem conhecer o tipo de sofrimento que ela enfrentara a fazia sentir o peso de cada decisão.
“Eu não posso falhar”, murmurou baixinho, suas palavras se perdendo no vento.
Ela sabia que todo passo que dava a levava mais perto do confronto inevitável. E Hygor estava no centro desse embate. Seis anos haviam se passado desde que ele desaparecera de sua vida, mas seu retorno não era mera coincidência. Ele estava conectado àquela teia de mentiras e traições que agora parecia se apertar ao seu redor. Isabel sabia disso. O problema era: o quanto ele sabia sobre ela? Quem Hygor havia se tornado nesses anos? O que ele queria?
Enquanto seguia em direção ao restaurante onde encontraria o detetive, sua mente fervilhava de pensamentos, como uma tempestade violenta prestes a romper. Os passos eram firmes, mas dentro dela, os sentimentos estavam em turbilhão. Hygor... Ele tinha sido muitas coisas para ela. Um amor, uma traição, uma memória dolorosa. Mas agora ele era mais do que isso. Era uma ameaça real, uma peça central num jogo perigoso.
Ela olhou para o céu cinzento, as nuvens pesadas refletiam o que sentia por dentro. Não sabia o que o detetive iria revelar, mas algo dentro dela dizia que seria algo grande. A tensão era quase insuportável, e mesmo assim, havia uma parte de Isabel — uma parte escura, quase cruel — que ansiava pelo confronto. Havia tanto tempo que ela não sentia uma faísca real, uma emoção genuína. Enfrentar Hygor poderia ser a única forma de finalmente libertar-se das correntes que a prendiam ao passado.
Ela sabia que os últimos anos de sua vida tinham sido uma farsa, um jogo cuidadosamente construído de máscaras e mentiras. Lee In-Na, a presidente da Grup'IC, era apenas um papel, uma identidade criada para esconder quem Isabel realmente era. Mas agora o jogo estava chegando ao fim. As máscaras estavam prestes a cair, e o confronto entre Isabel e seu passado era inevitável. O palco estava montado, e ela estava pronta para encarar a verdade, doa a quem doer.
O telefone vibrou em sua mão, interrompendo seus pensamentos. Era o detetive. A mensagem apareceu na tela com uma urgência palpável:
"Cheguei. Estou no local combinado. A informação que tenho... é maior do que imaginávamos. Prepare-se."
Ela parou por um segundo, os olhos fixos naquelas palavras. Prepare-se? Ela vinha se preparando por anos. Respirou fundo, fechando os olhos brevemente, sentindo o peso da mensagem afundar em seus ossos. O frio da manhã parecia mais forte agora, como se o mundo ao seu redor estivesse se preparando para o impacto que estava por vir. Ajeitou os ombros, endireitando a postura. Não havia mais espaço para hesitação. Não hoje.
Isabel sabia que este era o momento decisivo. Todos os planos, todas as estratégias traçadas nos últimos anos culminavam naquele instante. E ela estava pronta. Não havia mais dúvidas ou inseguranças. O jogo finalmente começara, e Isabel sabia que, dessa vez, não seria apenas uma jogadora — ela seria a vencedora.
Ao recomeçar sua caminhada, cada passo soava como um prelúdio para a batalha. Ela não era mais a mesma mulher que deixara tudo para trás seis anos atrás. Havia uma determinação sombria em seu olhar, uma frieza que contrastava com o calor das emoções reprimidas em seu peito. E, no fundo, uma certeza inabalável: Se Hygor estava no caminho, ela o enfrentaria. E se precisasse destruí-lo, ela o faria.
A sede de justiça, de vingança e de liberdade queimava dentro dela como um fogo que não poderia mais ser contido. Hoje, Isabel não estava apenas indo para uma reunião. Ela estava indo para a guerra.
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Atualizado até capítulo 53
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