Isabel respirou fundo, tentando recuperar o controle sobre as próprias emoções. Sentia-se como se estivesse à beira de um precipício, prestes a desmoronar. Quando finalmente conseguiu encontrar a voz, sua expressão era de uma frieza que contrastava com o turbilhão de sentimentos que a consumia por dentro.
"Então... a vinda de Hygor à Coreia não tem nada a ver com Isabel Cardoso," começou ela, cada palavra carregada de uma dor contida, "mas sim com Lee In-Na." Havia um amargor em seu tom, e seus olhos, antes marejados, agora estavam sombrios, preenchidos por uma decepção profunda. O nome que pronunciou—Lee In-Na—parecia mais pesado do que nunca, como se estivesse finalmente percebendo que não era apenas um disfarce, mas uma parte de si que Hygor jamais reconheceria.
O detetive, sentado à sua frente, observou-a com uma expressão cautelosa. Era evidente que ele tinha mais a dizer, mas parecia pesar cada palavra antes de liberá-las. Quando finalmente falou, sua voz era calma, quase profissional, como se tentasse evitar inflamar ainda mais a situação. "Sim," ele confirmou, com um aceno leve, "Hygor veio à Coreia para tentar convencer você—ou melhor, a presidente Lee In-Na—a fechar uma parceria entre sua empresa e o Grup'Art."
Essas palavras, embora ditas com uma tranquilidade calculada, caíram sobre Isabel como um golpe, cortantes e frias. A fúria que ela vinha tentando controlar finalmente começou a emergir. Sua mandíbula se contraiu, e seus olhos se estreitaram, faiscando com uma indignação crescente.
“Então é isso?” Ela disparou, sua voz baixa, mas repleta de raiva contida. “Ele não veio por mim. Ele nem sequer pensou em mim. Veio em busca de uma parceria, uma maldita negociação de negócios! Como se tudo o que vivemos, tudo o que passamos, não significasse absolutamente nada.”
Sua mão tremia levemente sobre a mesa, mas ela a apertou em um punho, como se isso pudesse conter a tempestade que se formava dentro dela. “Para ele, eu sou apenas a presidente Lee In-Na, uma figura poderosa e distante com quem ele quer fechar um acordo.” Sua voz quebrou por um segundo, mas logo se fortaleceu de novo, carregada de dor. “Isabel Cardoso não existe para ele. Eu não existo para ele.”
O detetive manteve o olhar fixo nela, consciente de que qualquer palavra errada poderia ser o estopim que ela precisava para explodir. Ele sabia o quanto Isabel tinha sofrido nos últimos anos, mas a crueza daquela verdade—de que Hygor estava ali apenas por motivos profissionais—era um fardo pesado demais para ela carregar naquele momento. Mesmo assim, ele tentou, cuidadosamente, fornecer uma explicação.
“Isabel, ele não sabe... não se lembra de nada,” o detetive falou com suavidade, mas a tentativa de acalmar a situação foi recebida com o olhar furioso dela. “Hygor veio à Coreia sem ter consciência de quem você realmente é. Para ele, você é apenas a empresária bem-sucedida que pode salvar o Grup'Art. Ele... ele está vivendo em uma realidade onde o passado de vocês simplesmente não existe.”
“Mas existe para mim!” Isabel interrompeu, sua voz ganhando força, tremendo de emoção. “Eu carrego esse passado todos os dias. Todas as noites em que chorei sozinha, todas as vezes que esperei por uma resposta, por qualquer sinal dele. E agora ele aparece, não por quem eu sou, mas por quem eu me tornei. Como se eu fosse apenas uma peça em sua nova vida, uma transação comercial.”
Ela passou a mão pelos cabelos, tentando acalmar os pensamentos, mas a dor que sentia parecia impossível de suprimir. Era uma mistura cruel de raiva e tristeza, como se tivesse sido despida de qualquer dignidade ou significado na vida de Hygor.
"Ele nunca se lembrou de mim, mas ainda assim achou o caminho até mim. Ele não sabia que Lee In-Na era Isabel Cardoso, mas aqui estamos. É como se o destino estivesse brincando comigo, trazendo ele de volta da maneira mais cruel possível."
O detetive abaixou os olhos, ciente de que suas palavras poderiam soar vazias naquele momento, mas sabendo que, de alguma forma, ela precisava ouvir. “Eu entendo a sua dor. E sei que é injusto. Hygor pode ter perdido a memória, mas você não. Ele seguiu em frente sem saber do que deixou para trás, mas você nunca teve essa chance.”
Isabel assentiu, mas suas lágrimas, agora inevitáveis, começaram a cair silenciosamente. Ela olhou pela janela, vendo o movimento da cidade de Seul como se estivesse distante, como se aquela vida já não fizesse sentido.
"Não é justo,” ela repetiu, a voz se quebrando com o peso daquelas palavras. “Ele está vivendo uma nova vida, enquanto eu fiquei presa no nosso passado. E o pior de tudo... ele não tem ideia do quanto isso me destruiu.”
A fúria ainda ardia dentro dela, mas agora estava misturada com uma tristeza profunda, um sentimento de perda que parecia interminável. Mais uma vez, ela sentiu o vazio tomar conta, uma sensação de que sua existência para Hygor havia sido completamente apagada. "Mas eu vou mudar isso," disse, sua voz cheia de convicção. "Ele vai saber quem eu sou. E vai saber o que me fez."
O detetive observava Isabel atentamente, reconhecendo a mudança sutil em sua expressão. A dor ainda estava lá, mas agora misturada com algo mais profundo: uma determinação que começava a brilhar em seus olhos, como uma chama que resistia a se apagar.
“Você precisa decidir o que realmente deseja,” ele disse com a voz firme, porém serena. “Está em busca de vingança? Ou quer lutar para que Hygor se lembre de quem ele realmente é?”
Isabel abaixou o olhar por um momento, suas emoções em um turbilhão. A ideia de vingança era tentadora. Depois de tantos anos de sofrimento, a possibilidade de fazer Hygor sentir um pouco da dor que ela havia carregado parecia justa, quase necessária. Mas, ao mesmo tempo, havia algo mais. Ela ainda se importava com ele, ainda havia uma parte de seu coração que ansiava pela verdade. Isabel não conseguia ignorar a sensação de que, se Hygor soubesse de tudo, as coisas poderiam ser diferentes.
“Eu...” Ela suspirou, lutando contra as lágrimas que ameaçavam retornar. “Se ele não se lembra de mim, talvez eu seja a única pessoa capaz de trazê-lo de volta ao que ele era. Não posso simplesmente assistir enquanto ele constrói uma vida com Kyra, baseada em mentiras. Ele precisa saber a verdade.”
O detetive a ouviu em silêncio, inclinando-se levemente para a frente, seus olhos avaliando a profundidade das palavras de Isabel. “Você entende que isso pode ser perigoso?” Ele falou com cautela, sua voz firme, mas sem querer assustá-la. “Recuperar as memórias de Hygor não será algo simples ou imediato. O impacto emocional pode ser devastador... tanto para ele quanto para você. E há a chance de que ele não reaja da maneira que você espera.”
“Eu sei,” Isabel respondeu, sua voz vacilante, mas logo se firmando. “Mas o que eu não posso fazer é ficar parada e deixar Kyra e Hygor construírem uma vida juntos, fingindo que nada aconteceu. Isso não é uma opção para mim.” Ela fechou os punhos, sentindo a força interior crescer novamente. “Eu preciso lutar. Mesmo que seja doloroso, mesmo que eu tenha que reviver tudo, ele precisa saber o que aconteceu. Ele merece a verdade.”
O detetive assentiu levemente, reconhecendo o peso da escolha de Isabel. Ele havia acompanhado muitos casos ao longo dos anos, e podia ver que Isabel não estava simplesmente agindo por impulso. Sua dor, sua frustração, e o desejo de justiça estavam profundamente entrelaçados, e isso a tornava tanto forte quanto vulnerável.
“Então, o que vai fazer agora?” ele perguntou, curioso, mas também admirado pela força silenciosa que começava a tomar conta dela.
Isabel respirou fundo, seus olhos agora fixos no horizonte, como se estivesse visualizando o caminho à sua frente. Ela endireitou os ombros, uma postura que não apenas refletia sua decisão, mas também a nova convicção que havia surgido dentro dela. “Eu vou encontrá-lo,” disse com uma firmeza que não deixava espaço para dúvidas. “Não só para confrontá-lo... mas para lutar pela verdade. Hygor está vivendo uma mentira, e Kyra está ao lado dele, se beneficiando dessa amnésia. Eu não vou permitir que eles construam uma vida juntos sem que ele saiba quem realmente é.”
O detetive não pôde deixar de sentir um respeito profundo por aquela mulher que, mesmo depois de tudo que havia passado, se recusava a se render ao desespero. “Esteja ciente, Isabel, que essa jornada pode ser longa e repleta de obstáculos. Você pode descobrir verdades ainda mais difíceis de lidar.” Ele fez uma pausa, sua voz mais suave agora. “Mas se você está disposta a enfrentá-los, saiba que eu estarei ao seu lado. Não precisa fazer isso sozinha.”
Isabel o encarou por um momento, a gratidão por seu apoio visível em seu olhar. Mas havia algo mais. Era como se, naquele instante, ela estivesse sozinha em sua decisão, carregando o fardo daquilo que deveria ter sido uma vida compartilhada. Mesmo assim, uma leve sombra de sorriso tocou seus lábios. “Obrigada,” disse ela suavemente. “Mas essa é uma luta que eu tenho que enfrentar por mim mesma.”
Ela sabia que, no fim das contas, essa batalha era sua. Não era apenas sobre Hygor e suas memórias. Era sobre ela encontrar sua própria verdade e decidir o que fazer com isso, seja para curar antigas feridas ou para reconstruir a mulher que ela tinha se tornado.
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Atualizado até capítulo 53
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