Hygor e Kyra voltaram seus olhares em direção à porta, mas Isabel já havia desaparecido no corredor. O eco de seus passos era abafado pelo martelar de seu coração. O corpo dela tremia, como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. A dor, aguda e implacável, parecia envolvê-la como uma névoa espessa e sufocante. Cada passo que dava exigia um esforço quase sobre-humano, como se seus pés se recusassem a obedecer, desejando apenas ceder ao colapso iminente.
Como isso é possível?, pensava, o pânico crescendo a cada segundo. Hygor, o homem que ela amava com cada fibra de seu ser, o pai do bebê que carregava, estava ali... com Kyra. Não era uma mulher qualquer, era sua prima, sangue do mesmo sangue que a traiu de maneiras que ela ainda mal conseguia processar. A família que a destruíra. O chão parecia se desfazer sob seus pés, como se o mundo estivesse desmoronando ao seu redor, cada pedaço caindo no abismo de sua dor.
Seus olhos, tomados pela confusão e desespero, fixaram-se no visor da porta por onde acabara de sair. Uma parte dela, desesperada e ferida, esperava que Hygor aparecesse, que a perseguisse, que dissesse que tudo não passava de um terrível mal-entendido, uma ilusão cruel. Mas a porta permaneceu fechada. Lá dentro, ela podia ouvir o som abafado de risos, fragmentos de conversas, leves e despreocupados. Como se tudo que eles compartilharam fosse insignificante, como se não passasse de uma sombra esquecida no passado.
"O que eu esperava?" sussurrou para si mesma, a voz rouca de mágoa, enquanto uma lágrima solitária deslizava pelo rosto pálido. O sufocamento dentro dela crescia, tornando-se quase palpável, como se o próprio ar conspirasse para apertar seu peito. A cada segundo que passava, a distância entre ela e Hygor se tornava mais insuportável, uma barreira invisível, mas impenetrável, erguendo-se entre eles.
A memória do sorriso dele, das promessas sussurradas, dos planos que construíram juntos, agora parecia distante, como uma lembrança de outro tempo, outra vida. "Por que não esperou por mim? Por que está com ela?" Os pensamentos corriam livres, mas as respostas não vinham. Ela estava sozinha, mais do que nunca. A solidão era um manto pesado que parecia apertar ainda mais sua garganta, roubando o pouco de ar que conseguia puxar.
Isabel apertou os braços ao redor de seu próprio corpo, como se tentasse se proteger da verdade esmagadora que a cercava. Ela queria gritar, chorar, exigir respostas, mas tudo o que conseguia fazer era andar, mesmo que suas pernas mal a sustentassem. O que restava dela agora?
Cristian retornou rapidamente ao corredor, os olhos atentos imediatamente captando a tensão densa no ar. Ele viu Isabel parada perto da porta, o corpo rígido, os ombros levemente curvados como se suportassem o peso de um mundo inteiro. Kyra estava se aproximando, talvez prestes a cruzar o limiar, e a percepção rápida de Cristian fez com que ele agisse antes que Isabel pudesse tomar qualquer atitude. Com um gesto firme, mas gentil, ele colocou uma mão protetora no ombro dela. Seus olhos, cheios de uma compreensão silenciosa, encontraram os dela, transmitindo uma mensagem clara: Estou aqui com você. Vamos sair daqui.
“Vamos, Isa.” ele sussurrou com determinação, sua voz um ancoradouro em meio à tempestade de emoções que fervilhava dentro dela. “Não há mais nada aqui para você.”
Isabel hesitou, seu coração dividido entre o desejo de confrontar a dura realidade e a necessidade de autopreservação. O olhar dela recaiu mais uma vez no interior do quarto. A cena era quase surreal de tão dolorosa: Hygor estava ali, de costas para ela, conversando casualmente com Kyra, sem a mínima ideia de que a mulher que ele um dia amou estava tão perto, tão quebrada. Isabel sentiu as lágrimas queimando nos olhos, a garganta apertada pela emoção que ameaçava sufocá-la.
Ela tentou gravar cada detalhe daquela cena, por mais torturante que fosse. O sorriso de Hygor, as mãos de Kyra se movendo com familiaridade, como se ela pertencesse àquele lugar, àquele homem. O coração de Isabel se apertou dolorosamente no peito, e ela percebeu que estava dizendo adeus – não apenas a Hygor, mas a toda a vida que eles tinham sonhado juntos.
“Adeus, Hygor.” ela sussurrou quase inaudivelmente, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto, silenciosas, mas devastadoras. A voz saiu trêmula, quebrada, refletindo a dor crua que consumia cada parte de seu ser.
Cada fibra do seu corpo gritava para ela voltar, confrontar Hygor, exigir respostas, perguntar por que ele não a reconheceu, por que estava com Kyra. Mas Isabel sabia que não podia. Não agora. Kyra era um elo direto com Richard, o homem que a destruiu uma vez, e não hesitaria em fazer isso de novo se soubesse de sua presença ali. Isabel não estava mais sozinha. Carregava uma nova vida dentro de si, e precisava proteger seu bebê, mesmo que isso significasse abrir mão de tudo que um dia acreditou.
Cristian apertou levemente seu ombro, incentivando-a a dar o primeiro passo. “Isa, a gente vai sair dessa. Você não está sozinha.”
Ela respirou fundo, limpando as lágrimas rapidamente, embora soubesse que nada poderia apagar a dor gravada em seu peito. Com um último olhar para o quarto – para Hygor, para o passado que agora parecia tão distante – ela se virou, sentindo-se como se estivesse abandonando uma parte de si mesma naquele corredor frio e estéril.
Cada passo que dava ao lado de Cristian parecia pesar mais do que o anterior, como se a dor e o desespero a seguissem implacavelmente. "Eu só queria... entender." murmurou, sua voz vacilando. "Queria saber por que tudo deu tão errado. Ele me trocou assim tão fácil? Cris... É como se eu nunca tivesse existido na vida dele."
Cristian a olhou com compaixão, mas também com uma raiva silenciosa contra o que Richard e Kyra representavam. "Você não merece passar por isso," ele disse, sua voz baixa, mas cheia de convicção. "Eu vou estar ao seu lado até o fim. Não vou deixar ninguém te machucar de novo."
Isabel assentiu, tentando absorver a força que ele lhe oferecia, embora soubesse que a ferida deixada por Hygor nunca cicatrizaria completamente. Agora, ela precisava ser mais forte do que nunca, não apenas por si mesma, mas pelo filho que carregava.
Com um último suspiro profundo, Isabel se preparava para deixar o hospital, sabendo que aquele adeus a Hygor também significava um adeus definitivo ao passado. A dor esmagadora da despedida parecia penetrar em sua alma, mas ela tentava reunir forças para seguir em frente. No entanto, o destino, mais uma vez, parecia conspirar contra ela.
Enquanto ela e Cristian viravam o corredor, uma figura familiar surgiu abruptamente à frente. Era Renato, o pai de Hygor. Seu rosto, inicialmente marcado pelo choque de vê-la, logo se contorceu em uma expressão de fúria incontrolável. Em questão de segundos, ele avançou na direção de Isabel, os passos firmes ecoando pelos azulejos frios do hospital. Antes que ela pudesse reagir, Renato agarrou seus braços com uma força que a fez estremecer, seus dedos apertando sua pele com brutalidade. Seus olhos faiscavam de raiva, e o desprezo em seu rosto era impossível de ignorar.
"Você está viva? O que faz aqui?" A voz de Renato era baixa, mas carregada de ódio, como uma tempestade prestes a explodir. Ele parecia estar à beira de perder completamente o controle.
Cristian, percebendo a gravidade da situação, deu um passo à frente, tentando intervir. "Renato, isso é um hospital. Não faça escândalo. Vamos manter a calma."
Renato lançou um olhar fulminante para Cristian, mas antes que ele pudesse retrucar, Isabel falou, com a voz trêmula e o olhar suplicante. "Cris, por favor... Deixe-me lidar com isso. Sozinha." Seu tom era suave, mas desesperado, como se a cada palavra ela estivesse carregando o peso de anos de dor e arrependimento. Seus olhos estavam marejados, brilhando com uma mistura de medo e determinação.
Cristian hesitou por um momento, claramente preocupado, mas finalmente assentiu. Com relutância, ele se afastou, lançando um último olhar de advertência a Renato antes de seguir em direção ao elevador. Agora, Isabel estava sozinha com o homem que a conhecia desde criança, mas que agora a via apenas como a fonte de todo o sofrimento de seu filho.
Renato não perdeu tempo. Seus olhos eram duros como pedra, a raiva ainda evidente em cada traço de seu rosto. "O que você está fazendo aqui, Isabel? E não me chame de tio." Suas palavras eram como veneno, gotejando desprezo.
Isabel respirou fundo, lutando para manter a compostura diante da intensidade da situação. As lágrimas que ela tentava segurar finalmente escaparam, descendo silenciosamente por suas bochechas. "Renato, por favor... Não conte a ninguém que me viu. Não agora. Eu imploro."
Renato soltou uma risada amarga, completamente desprovida de qualquer traço de humor. "E por que eu faria isso? Você destruiu a vida do meu filho. É por sua causa que ele está nesse hospital. Você deveria estar presa, não aqui." Suas palavras eram duras e implacáveis, como facas cravadas no coração de Isabel.
Ela sentiu seu peito apertar, como se estivesse sendo esmagada pela culpa e pela dor. Mas havia algo que ela precisava dizer, uma última tentativa desesperada de apelar para qualquer humanidade restante em Renato. "Eu estou grávida." A revelação saiu quase como um sussurro, frágil e hesitante, mas repleta de emoção. Sua última esperança.
Os olhos de Renato se estreitaram, agora fixos nela com uma intensidade gélida. "O que você disse?" Sua voz era baixa, mas mortal, como se ele estivesse tentando processar o que acabara de ouvir.
Isabel engoliu em seco, tentando reunir coragem para continuar. "Eu e Hygor... vamos ter um filho." As palavras saíram vacilantes, sua voz tremendo com o peso da revelação. Ela mal teve tempo de respirar antes que Renato a agarrasse novamente, desta vez com uma força ainda maior, arrastando-a pelos corredores do hospital.
"Onde você está me levando? Por favor, me solte!" Isabel tentou se libertar, mas os dedos de Renato se cravavam em sua pele como garras, implacáveis.
Renato, entretanto, não respondeu. Seu rosto estava fechado, seus passos rápidos e decididos, como se estivesse movido por uma fúria cega. Isabel sentiu o medo crescer em seu peito, a desesperança se infiltrando em cada fibra de seu ser. Ela sabia que estava em perigo, mas também sabia que não podia desistir. Precisava proteger seu filho a qualquer custo.
Ela olhou ao redor, tentando encontrar Cristian com os olhos, mas ele já havia desaparecido no elevador. A sensação de estar completamente sozinha se intensificou, e ela só podia contar com sua própria força para sair daquela situação.
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Atualizado até capítulo 53
Comments
Elain
Não consigo parar de ler! 📖
2024-09-20
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