Uma hora depois, Isabel estava de volta ao café. O ambiente familiar não oferecia o conforto de antes, e a tensão que pairava no ar parecia mais densa do que nunca. O detetive já a esperava, sua postura rígida e a expressão mais sombria do que da última vez. Assim que ela se sentou, ele não perdeu tempo em rodeios.
"Recebi novas informações sobre Hygor," ele começou, direto, com a voz grave. "E também sobre Kyra. O que você sabia até agora é apenas a ponta do iceberg."
O coração de Isabel acelerou, e ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Seus olhos buscaram os dele, tentando entender a gravidade da situação. "Do que você está falando?" Sua voz saiu mais baixa do que ela pretendia.
O detetive suspirou, o peso do que estava prestes a revelar visível em seu rosto. Ele parecia escolher as palavras com cautela, como se o que fosse dizer pudesse mudar tudo. "Hygor não perdeu a memória por causa do acidente, pelo menos, não do jeito que acreditávamos. Isso foi o que disseram a todos. Mas eu descobri algo muito mais... sombrio."
Isabel arregalou os olhos, a surpresa misturada com um crescente desconforto. "O que você quer dizer com isso? Ele mentiu sobre a amnésia?"
Ele balançou a cabeça lentamente, seu semblante era de confusão e frustração. "Não... Hygor realmente perdeu as memórias após o acidente. Mas elas teriam voltado com o tempo. Só que alguém não quis que isso acontecesse. Ele foi manipulado para esquecer. Não por vontade própria."
As palavras do detetive pairaram no ar como uma nuvem densa e opressora. Isabel sentiu o peso da revelação lhe pressionar o peito, dificultando sua respiração. "Manipulado? Mas como isso é possível?"
"O tratamento que ele fez logo após o acidente foi em uma clínica particular, algo que Kyra organizou. Ela, com o consentimento dos pais de Hygor, conseguiu que ele fosse submetido a uma terapia experimental. Uma clínica com uma reputação... duvidosa. Os métodos usados lá são controversos. Aparentemente, Hygor passou por um procedimento que bloqueou partes específicas de suas memórias. Partes importantes do seu passado."
Isabel se inclinou para frente, a incredulidade tomando conta de seu rosto. "Então você está dizendo que os próprios pais de Hygor, com a ajuda de Kyra, manipularam as memórias dele? Como eles puderam fazer isso? Como tiveram essa coragem?"
O detetive assentiu devagar, seus olhos refletindo a mesma indignação. "Há indícios de que Kyra os persuadiu. Ela os convenceu de que apagar certas lembranças seria melhor para o bem-estar de Hygor, que ele não suportaria reviver o trauma. Ela foi essencial nesse processo."
As palavras ecoaram na mente de Isabel como um trovão, reverberando por todo seu ser. Se Kyra havia participado ativamente na destruição das memórias de Hygor, então sua presença na vida dele não era fruto do acaso. Era tudo cuidadosamente planejado. Manipulação, traição... e ela, Isabel, estava presa em uma teia muito mais intrincada e perigosa do que jamais imaginou.
Com um misto de fúria e dor, Isabel encarou o detetive, sua voz agora carregada de indignação. "Se isso for verdade... então Kyra também pode ter manipulado Hygor para escrever aquele e-mail cruel para mim?" Ela apertou os punhos, a raiva latente em cada palavra.
O detetive hesitou por um momento antes de responder, a seriedade em seu olhar. "É possível. Se as memórias dele foram adulteradas, ele pode ter sido levado a acreditar em coisas que nunca foram verdade. Aquele e-mail pode ter sido apenas mais uma peça desse quebra-cabeça manipulador."
Isabel deu uma risada amarga, uma tentativa desesperada de lidar com a dor que crescia dentro dela. "Induzido ou não, ele não se importou o suficiente para sequer procurar as crianças. Como alguém pode esquecer disso?" As lágrimas começaram a rolar por seu rosto, quentes e incontroláveis. "Eu vou derrubar todos eles. Não só Kyra, mas qualquer um que tenha feito parte dessa monstruosidade."
O detetive assentiu, compreendendo a fúria que queimava dentro dela. “Você precisa ter cuidado,” advertiu, a voz baixa e grave. "Essas pessoas não jogam limpo. E agora que você está chegando perto da verdade, elas podem tentar te parar. De qualquer maneira."
Isabel respirou fundo, tentando conter o turbilhão de emoções. Cada nova revelação apenas reforçava sua determinação. Não era mais só uma questão de vingança pessoal. Agora, era sobre justiça. E ela sabia, com toda a certeza do mundo, que nada – nem as mentiras mais bem construídas, nem os segredos mais obscuros – iria desviá-la desse caminho.
"Eu estou pronta," disse ela, com uma firmeza inabalável. "Nada vai me parar agora."
O detetive a observou com uma mistura de apreensão e respeito. Ele sabia que Isabel estava prestes a entrar em território perigoso, um lugar onde a verdade podia ser mais mortal do que qualquer arma. Mas, naquele instante, ambos sabiam que a batalha que se aproximava seria implacável. E Isabel não iria recuar. Não dessa vez.
Voltando à sede do Grup’IC, Isabel sentia as palavras do detetive ecoando em sua mente, como um constante zumbido que não a deixava em paz. As revelações haviam cravado garras afiadas em sua alma, mas ela não podia se permitir desmoronar. Precisava agir. Precisava manter o controle.
Ao sair do carro, Isabel ajeitou o lenço que escondia parte do rosto, seus óculos escuros cuidadosamente posicionados para ocultar qualquer vestígio de emoção. Sua máscara não era apenas física; era uma construção cuidadosa de distanciamento, de frieza calculada. Ela não podia se dar ao luxo de demonstrar vulnerabilidade. Não agora.
Os saltos altos batiam contra o mármore do hall de entrada, o som ecoando pelos corredores como um aviso. Funcionários que normalmente ignorariam sua presença agora pareciam hesitar. O ritmo frenético do escritório diminuiu à medida que Isabel avançava. Alguns olhares se desviavam rapidamente, outros permaneciam fixos por tempo demais, desconfiados ou assustados, mas ninguém ousava cruzar seu caminho.
Ela caminhava com firmeza, mas por dentro, tudo era caos. A reunião com o detetive na noite anterior a havia sacudido de um jeito que ela não esperava. Os segredos sobre Hygor, Kyra, as manipulações... tudo a levava a questionar a realidade ao seu redor. Cada nova peça desse quebra-cabeça sombrio tornava seu caminho mais incerto, mas Isabel não tinha escolha. Cada passo, cada movimento, precisava ser milimetricamente calculado.
Ao se aproximar da recepção, o jovem atendente — alguém que sempre fora confiante e relaxado — gaguejou ao tentar cumprimentá-la. "S-Seja bem-vinda, presidente Lee In-Na. P-posso ajudar com algo?"
Isabel não respondeu de imediato. Seus olhos, por trás dos óculos escuros, fixaram-se nele como se pudesse enxergar através de sua fachada nervosa. O silêncio prolongado fez o rapaz engolir em seco. Quando ela finalmente falou, sua voz saiu baixa, controlada, mas com uma frieza cortante. "Quero o relatório da reunião de ontem. Imediatamente."
Ele assentiu com rapidez exagerada, seus dedos tremendo enquanto digitava freneticamente no computador. O ar ao redor dela parecia ter mudado. Os sussurros nos cantos do escritório se dissiparam, como se a presença de Isabel drenasse toda a leveza do ambiente. O burburinho habitual foi substituído por uma tensão palpável, como se todos estivessem à espera de um movimento errado que pudesse desencadear algo pior.
Quando pegou o relatório, Isabel deu meia-volta sem dizer mais nada. Os funcionários que estavam no caminho rapidamente se afastaram, alguns evitando até fazer contato visual. Ela sabia que o medo estava presente. E dessa vez, ela o usaria a seu favor.
Ao se dirigir ao elevador, um dos diretores de setor, um homem que raramente demonstrava insegurança, a interceptou no corredor. "Presidente, precisamos discutir os resultados da última auditoria. Há alguns pontos que..." Ele interrompeu a frase quando viu o olhar que ela lançou. Mesmo por trás dos óculos, ele sentiu o impacto.
"Isso pode esperar," ela disse, a voz carregada de uma ameaça velada. "Há assuntos mais urgentes no momento."
O diretor hesitou, uma gota de suor escorrendo discretamente pela têmpora. "Claro, claro... Como quiser."
Isabel entrou no elevador, e as portas se fecharam com um estalo seco. Assim que o silêncio tomou conta da cabine, ela respirou fundo, tentando acalmar a tempestade dentro dela. Cada encontro, cada diálogo, era uma batalha que ela precisava vencer. Não havia espaço para fraquezas.
Quando as portas do elevador se abriram no andar executivo, Isabel já havia retomado sua postura impenetrável. A secretária a recebeu com um sorriso forçado, claramente incomodada pela aura pesada que Isabel carregava consigo. "Presidente, sua reunião com o conselho foi reagendada para—"
"Não me interessa o que foi reagendado ou cancelado," Isabel cortou, fria. "Agora, ninguém me interrompa. Tenho trabalho a fazer."
A secretária apenas assentiu, encolhendo-se levemente na cadeira.
Ao entrar em sua sala, Isabel fechou a porta com força e caminhou até a enorme janela de vidro, de onde podia ver toda a cidade. Por alguns segundos, deixou que seus ombros caíssem, um leve suspiro escapando. Ela olhou para o horizonte, tentando encontrar alguma clareza em meio à confusão de sentimentos e pensamentos.
Mas a verdade era que não havia mais espaço para hesitação. Hygor, Kyra, os segredos enterrados... tudo isso culminava em algo maior, algo que ela precisaria enfrentar de cabeça erguida. E se os funcionários estavam começando a ter medo dela, que assim fosse. O medo, afinal, era uma ferramenta poderosa. Ela só precisava aprender a controlá-lo.
Isabel fechou os olhos por um momento, reorganizando suas emoções como quem ajusta as peças de um quebra-cabeça. Quando abriu os olhos novamente, já não havia espaço para dúvidas. A Isabel que saiu daquele café, abalada e perdida, já não existia mais. Em seu lugar, havia uma mulher determinada a destruir qualquer um que ousasse ficar em seu caminho. E, ao contrário do que muitos ali poderiam imaginar, ela estava apenas começando.
“O acidente foi uma fachada para ele perder a memória,” murmurou Isabel, a voz carregada de incredulidade e uma raiva crescente. Suas mãos tremiam levemente enquanto segurava o relatório, os olhos fixos na linha que mencionava o coma, a amnésia, o vazio que havia consumido as lembranças de Hygor. Seu peito subia e descia com a respiração descompassada, enquanto tentava processar o que acabara de ler.
“Ele não se lembra de nada… e ainda assim vai se casar com Kyra?” O sussurro saiu quase como um lamento, carregado de dor. As palavras pareceram ecoar pelo quarto vazio, reabrindo uma ferida que Isabel vinha tentando enterrar, mas que agora latejava com uma intensidade sufocante.
A sensação de traição invadiu seu peito com uma força avassaladora, apertando seu coração de maneira quase insuportável. Como ele podia simplesmente ter seguido em frente? Como podia estar construindo uma nova vida ao lado de outra mulher sem ao menos se lembrar do que eles foram, do que haviam sonhado e prometido um ao outro? As memórias que para ela ainda eram tão vívidas, tão presentes, haviam sido apagadas para ele, como se nunca tivessem existido.
A raiva começou a borbulhar dentro dela, misturando-se com a frustração e a tristeza, criando um nó em sua garganta. Por alguns segundos, parecia que o ar havia desaparecido da sala, que o peso das emoções a esmagava, sufocando-a lentamente. Ela sentiu o impulso de gritar, de deixar toda a dor sair de uma vez, mas se conteve. Respirou fundo, embora o esforço fosse doloroso.
Fechou os olhos com força, tentando encontrar algum equilíbrio no meio daquela tempestade interna. Suas mãos se apertaram ao redor do papel, amassando-o sem perceber, enquanto sua mente se debatia entre as lembranças e o presente cruel. Os dias felizes, os planos que haviam feito juntos... tudo isso, agora, parecia nada mais que uma miragem, uma ilusão de algo que ele não lembrava, mas que para ela ainda era tão real quanto o ar que respirava.
“Isso não pode estar acontecendo…” murmurou mais uma vez, a voz falhando. Ela se levantou abruptamente, começando a andar de um lado para o outro no quarto. Cada passo parecia um esforço para conter a avalanche de sentimentos que ameaçava engolir tudo.
O som de seus passos ecoava no ambiente, enquanto sua mente viajava para aquele passado que Hygor havia esquecido. Cada risada compartilhada, cada momento de intimidade, tudo isso havia sido apagado dele. E Kyra... Kyra estava agora no centro de tudo, como uma sombra maligna que havia se aproveitado da vulnerabilidade de Hygor para roubar o que era de Isabel. O casamento, a vida nova... era como se ela tivesse sido substituída, apagada da história.
Ela parou de repente, suas mãos agora trêmulas de fúria. O rosto de Hygor surgiu em sua mente, não como ele era agora, mas como ela o lembrava: o homem que ela amara, o homem que prometera estar ao seu lado para sempre. E agora, ele estava se casando com outra mulher, como se Isabel nunca tivesse existido.
“Isso é uma traição,” murmurou, com a voz carregada de uma dor profunda. “Ele me traiu... mesmo sem lembrar, ele me traiu.” Isabel sentiu as lágrimas quentes subirem aos olhos, mas não as deixou cair. Não agora. Não permitiria que essa dor a quebrasse. Não depois de tudo o que havia descoberto.
A raiva agora dominava completamente seus pensamentos. Ela sabia que Hygor era uma vítima da manipulação de Kyra, mas isso não apagava o fato de que ele havia seguido em frente, deixando-a para trás. Mesmo sem lembrar, ele havia escolhido outra vida. E isso a consumia por dentro. Era como se ela estivesse assistindo à destruição de tudo o que amava, sem poder fazer nada para impedir.
Ela se aproximou da janela, olhando para a cidade lá fora, as luzes piscando no horizonte. O brilho frio das ruas não oferecia consolo. Isabel sentiu o desespero crescer dentro dela, a necessidade de confrontar essa situação, de fazer algo. Ela não podia simplesmente aceitar que seu passado fosse apagado dessa maneira.
"Kyra vai pagar por isso," disse em voz alta, quase como uma promessa para si mesma. "Ela não vai sair impune." A determinação começou a substituir o desespero. Havia uma nova chama dentro dela, alimentada pelo desejo de justiça, ou talvez vingança. Isabel sabia que não podia mais ficar parada, esperando. Tinha que agir.
Ela voltou a olhar para o relatório em suas mãos, o papel agora amassado e vincado. Cada palavra ali, cada detalhe sobre o acidente, a amnésia, a terapia manipuladora... tudo isso a levava para uma única conclusão: alguém tinha que pagar. Kyra não apenas havia roubado Hygor de suas memórias, mas também estava prestes a roubá-lo de sua vida.
E Isabel não permitiria isso.
Respirou fundo, sentindo o ar finalmente preencher seus pulmões com força renovada. "Isso não acabou," sussurrou, com uma frieza que até a surpreendeu. "Isso está apenas começando."
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Atualizado até capítulo 53
Comments
Sueli Simão
ela está muito magoada , mas tem que ver que ela deixou ele a mercê dos crápulas, pai, mãe que aceitaram apagar a memória dele e Kyra para ficar com ele está cobra que eles tenham o que merecem até a mãe dela que escondem a verdade dela Richard a morte sem do e piedade também.
2024-10-07
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