Os dias após a tentativa de assassinato foram diferentes. As detentas da Ala Norte começaram a olhar para mim de outra forma. O que antes era desprezo se transformou em medo e respeito. Sobreviver em Santa Helena é uma conquista, e quanto mais você sobrevive, mais as pessoas começam a acreditar que você tem algo especial — uma sorte incomum ou uma malícia perigosa.
Minha aliança com Serpente ainda era importante, mas agora eu começava a construir minha própria reputação. E isso era essencial. Ninguém quer se curvar para quem apenas recebe ordens de outra pessoa.
Com o tempo, comecei a tomar pequenas decisões sem a aprovação direta de Serpente. Algumas detentas vinham até mim para negociar favores — cigarros, comida, proteção. Eu não recusava nada, mas sempre deixava claro que tudo tem um preço.
Uma detenta novata chamada Bruna, que chegou com uma dívida herdada de outra ala, foi minha primeira oportunidade. Ela precisava de proteção porque sabia que o nome dela estava na lista de várias gangues. Em troca de segurança, consegui que ela realizasse entregas discretas de pacotes para as guardas corruptas.
Sônia Vidal, a diretora, começou a perceber minhas movimentações. Ela sempre observava de longe, como se estivesse esperando que eu cometesse um erro, mas até agora eu me mantinha impecável. Ela sabia que eu estava crescendo, mas enquanto eu não ameaçasse a ordem delicada da prisão, ela me deixaria atuar.
Valquíria havia mudado desde nossa última conversa. Ela não era mais a guarda cruel e desafiadora de antes. Agora, toda vez que nos cruzávamos pelos corredores, havia uma tensão silenciosa, uma hesitação no olhar dela. Eu podia sentir que a ameaça que fiz sobre o segredo do marido a corroía por dentro. E era esse medo que eu usaria a meu favor.
Certa tarde, depois de uma entrega bem-sucedida de cigarros e comida, Valquíria me chamou discretamente para um canto do pátio. Seus olhos estavam sombrios, mas não havia raiva. Apenas medo.
— O que você realmente quer, Suraya? — ela perguntou, a voz baixa, como se falasse com alguém que poderia destruí-la.
Eu sorri, lenta e deliberadamente. Agora eu sabia que até as figuras mais cruéis têm fraquezas.
— O que eu quero? Quero sobreviver. Igual a você.
Valquíria baixou o olhar, derrotada. Ela sabia que eu já tinha o controle. Agora, só restava ela esperar por minha próxima jogada.
Foi através de um comentário solto de Marília que eu descobri a verdadeira extensão da vida dupla de Valquíria. Marília, sempre atenta aos rumores, mencionou que Valquíria era casada com um policial de alto escalão. Isso me chamou atenção, e eu sabia que precisava descobrir mais.
Depois de algumas conversas discretas com outras detentas e favores bem posicionados, a verdade veio à tona: o marido de Valquíria era ninguém menos que o delegado Angelino Gomes — o mesmo homem que liderou minha prisão e investigação após a morte de Fonseca.
A revelação caiu sobre mim como uma bomba. Tudo parecia se conectar: a corrupção que cercava meu caso, as provas forjadas e o desespero em me manter presa. Valquíria e Angelino estavam profundamente envolvidos nesse jogo sujo.
Eu segurei o caderno onde anotava mentalmente cada peça desse quebra-cabeça. Aquilo não era coincidência. Angelino era um homem perigoso, e agora eu sabia que Valquíria era uma peça fundamental no que me trouxe até aqui.
Naquela noite, Serpente me chamou para conversar em sua cela. Havia algo diferente nela. Seus olhos, normalmente frios e calculistas, tinham um brilho estranho de seriedade.
Ela se sentou na beirada da cama e acendeu um cigarro. Eu sabia que algo importante estava por vir.
— Tem gente querendo te apagar, princesa. — disse ela, soltando a fumaça devagar.
Um calafrio percorreu minha espinha. Por mais que eu soubesse que a morte era uma sombra constante em Santa Helena, ouvir aquilo diretamente de Serpente era um aviso que não podia ser ignorado.
— Quem? — perguntei, tentando manter a voz firme. Mostrar medo seria fatal.
Serpente deu de ombros, o cigarro pendendo nos lábios.
— Pessoas de fora. Gente poderosa. Me ofereceram um bom dinheiro pra acabar com você.
Meu coração disparou, mas eu mantive o rosto impassível. E se Serpente aceitasse? Ela sempre disse que alianças dentro da prisão eram temporárias. E agora, eu era apenas um peso — uma grávida vulnerável.
— E por que não aceitou? — perguntei, encarando-a diretamente, tentando esconder o pânico que crescia dentro de mim.
Ela sorriu de forma enigmática.
— Não fiz por consideração a alguém.
Franzi o cenho.
— Quem? — arrisquei perguntar, incapaz de esconder minha curiosidade e apreensão.
— Isso é uma coisa que você não precisa saber agora. — respondeu ela, apagando o cigarro com um toque casual, como se não tivesse acabado de revelar que minha vida estava por um fio.
Depois daquela conversa, um medo novo se instalou em mim. E se Serpente mudasse de ideia? E se aquele “alguém” a quem ela se referia não pudesse mais protegê-la?
Eu precisava agir rápido. Ser apenas uma peça na mão de Serpente não seria suficiente. Se eu quisesse sobreviver, precisaria criar meu próprio plano.
A revelação sobre Valquíria e Angelino me deu uma vantagem inesperada. Agora eu tinha informações preciosas que poderiam virar o jogo a meu favor. Mas precisaria ser cuidadosa.
De volta à cela, sentei-me na cama, com as mãos repousando sobre a barriga. Laila se mexeu suavemente, como se estivesse me lembrando de que eu não lutava apenas por mim.
Minha filha nasceria em breve. E quando isso acontecesse, eu teria que estar no controle de tudo.
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Atualizado até capítulo 65
Comments
♡Pyetra♡
Tô passada gente 😲
2024-12-28
1
Irá
Caraca veio quem será que está fazendo isso com ela? E será que ela vai sair antes da bebê nascer? Se foi armação ela tem que conseguir sai antes dela ganhar a bebê e tomara que seja mesmo uma menina pá acalentar mais e mais a sua vida, que já deu pra sacar quem era quem ali, e lá tinha q aprender mais uma única coisa lutar e sair
2024-12-27
2