Capítulo 17: Crescendo na Hierarquia

Os dias após a tentativa de assassinato foram diferentes. As detentas da Ala Norte começaram a olhar para mim de outra forma. O que antes era desprezo se transformou em medo e respeito. Sobreviver em Santa Helena é uma conquista, e quanto mais você sobrevive, mais as pessoas começam a acreditar que você tem algo especial — uma sorte incomum ou uma malícia perigosa.

Minha aliança com Serpente ainda era importante, mas agora eu começava a construir minha própria reputação. E isso era essencial. Ninguém quer se curvar para quem apenas recebe ordens de outra pessoa.

Com o tempo, comecei a tomar pequenas decisões sem a aprovação direta de Serpente. Algumas detentas vinham até mim para negociar favores — cigarros, comida, proteção. Eu não recusava nada, mas sempre deixava claro que tudo tem um preço.

Uma detenta novata chamada Bruna, que chegou com uma dívida herdada de outra ala, foi minha primeira oportunidade. Ela precisava de proteção porque sabia que o nome dela estava na lista de várias gangues. Em troca de segurança, consegui que ela realizasse entregas discretas de pacotes para as guardas corruptas.

Sônia Vidal, a diretora, começou a perceber minhas movimentações. Ela sempre observava de longe, como se estivesse esperando que eu cometesse um erro, mas até agora eu me mantinha impecável. Ela sabia que eu estava crescendo, mas enquanto eu não ameaçasse a ordem delicada da prisão, ela me deixaria atuar.

Valquíria havia mudado desde nossa última conversa. Ela não era mais a guarda cruel e desafiadora de antes. Agora, toda vez que nos cruzávamos pelos corredores, havia uma tensão silenciosa, uma hesitação no olhar dela. Eu podia sentir que a ameaça que fiz sobre o segredo do marido a corroía por dentro. E era esse medo que eu usaria a meu favor.

Certa tarde, depois de uma entrega bem-sucedida de cigarros e comida, Valquíria me chamou discretamente para um canto do pátio. Seus olhos estavam sombrios, mas não havia raiva. Apenas medo.

— O que você realmente quer, Suraya? — ela perguntou, a voz baixa, como se falasse com alguém que poderia destruí-la.

Eu sorri, lenta e deliberadamente. Agora eu sabia que até as figuras mais cruéis têm fraquezas.

— O que eu quero? Quero sobreviver. Igual a você.

Valquíria baixou o olhar, derrotada. Ela sabia que eu já tinha o controle. Agora, só restava ela esperar por minha próxima jogada.

Foi através de um comentário solto de Marília que eu descobri a verdadeira extensão da vida dupla de Valquíria. Marília, sempre atenta aos rumores, mencionou que Valquíria era casada com um policial de alto escalão. Isso me chamou atenção, e eu sabia que precisava descobrir mais.

Depois de algumas conversas discretas com outras detentas e favores bem posicionados, a verdade veio à tona: o marido de Valquíria era ninguém menos que o delegado Angelino Gomes — o mesmo homem que liderou minha prisão e investigação após a morte de Fonseca.

A revelação caiu sobre mim como uma bomba. Tudo parecia se conectar: a corrupção que cercava meu caso, as provas forjadas e o desespero em me manter presa. Valquíria e Angelino estavam profundamente envolvidos nesse jogo sujo.

Eu segurei o caderno onde anotava mentalmente cada peça desse quebra-cabeça. Aquilo não era coincidência. Angelino era um homem perigoso, e agora eu sabia que Valquíria era uma peça fundamental no que me trouxe até aqui.

Naquela noite, Serpente me chamou para conversar em sua cela. Havia algo diferente nela. Seus olhos, normalmente frios e calculistas, tinham um brilho estranho de seriedade.

Ela se sentou na beirada da cama e acendeu um cigarro. Eu sabia que algo importante estava por vir.

— Tem gente querendo te apagar, princesa. — disse ela, soltando a fumaça devagar.

Um calafrio percorreu minha espinha. Por mais que eu soubesse que a morte era uma sombra constante em Santa Helena, ouvir aquilo diretamente de Serpente era um aviso que não podia ser ignorado.

— Quem? — perguntei, tentando manter a voz firme. Mostrar medo seria fatal.

Serpente deu de ombros, o cigarro pendendo nos lábios.

— Pessoas de fora. Gente poderosa. Me ofereceram um bom dinheiro pra acabar com você.

Meu coração disparou, mas eu mantive o rosto impassível. E se Serpente aceitasse? Ela sempre disse que alianças dentro da prisão eram temporárias. E agora, eu era apenas um peso — uma grávida vulnerável.

— E por que não aceitou? — perguntei, encarando-a diretamente, tentando esconder o pânico que crescia dentro de mim.

Ela sorriu de forma enigmática.

— Não fiz por consideração a alguém.

Franzi o cenho.

— Quem? — arrisquei perguntar, incapaz de esconder minha curiosidade e apreensão.

— Isso é uma coisa que você não precisa saber agora. — respondeu ela, apagando o cigarro com um toque casual, como se não tivesse acabado de revelar que minha vida estava por um fio.

Depois daquela conversa, um medo novo se instalou em mim. E se Serpente mudasse de ideia? E se aquele “alguém” a quem ela se referia não pudesse mais protegê-la?

Eu precisava agir rápido. Ser apenas uma peça na mão de Serpente não seria suficiente. Se eu quisesse sobreviver, precisaria criar meu próprio plano.

A revelação sobre Valquíria e Angelino me deu uma vantagem inesperada. Agora eu tinha informações preciosas que poderiam virar o jogo a meu favor. Mas precisaria ser cuidadosa.

De volta à cela, sentei-me na cama, com as mãos repousando sobre a barriga. Laila se mexeu suavemente, como se estivesse me lembrando de que eu não lutava apenas por mim.

Minha filha nasceria em breve. E quando isso acontecesse, eu teria que estar no controle de tudo.

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Comments

♡Pyetra♡

♡Pyetra♡

Tô passada gente 😲

2024-12-28

1

Irá

Irá

Caraca veio quem será que está fazendo isso com ela? E será que ela vai sair antes da bebê nascer? Se foi armação ela tem que conseguir sai antes dela ganhar a bebê e tomara que seja mesmo uma menina pá acalentar mais e mais a sua vida, que já deu pra sacar quem era quem ali, e lá tinha q aprender mais uma única coisa lutar e sair

2024-12-27

2

Ver todos
Capítulos
1 Avisos
2 Prólogo
3 Capítulo 1: O começo do Fim
4 Capítulo 2: Primeira Noite na Cela 676
5 Capítulo 3: Tortura e Quebra Psicológica
6 Capítulo 4: Primeiras Lições na Cela
7 Capítulo 5: A Primeira Tentativa de Assassinato
8 Capítulo 6: Primeiras Suspeitas e Conflito Interno
9 Capítulo 7: Aliança com a Serpente
10 Capítulo 8: Confirmação Brutal
11 Capítulo 9: Alianças e Sobrevivência
12 Capítulo 10: O Corpo Cobra seu Preço
13 Capítulo 11: A Chegada de Valquíria
14 Capítulo 12: A Primeira Grande Tarefa
15 Capítulo 13: Mudanças no Poder
16 Capítulo 14: O Preço das Dívidas
17 Capítulo 15: A Manipulação das Guardas
18 Capítulo 16: Dúvidas sobre a Maternidade
19 Capítulo 17: Crescendo na Hierarquia
20 Capítulo 18: A Segunda Tentativa de Reabrir o Caso
21 Capítulo 19: O Jogo da Sobrevivência
22 Capítulo 20: O Último Trimestre
23 Palavra do Autor - Uma Pausa para conversamos
24 Capítulo 21: A Filha Arrancada
25 Capítulo 22: A Tortura Final
26 Capítulo 23: A Escuridão
27 Capítulo 24: O Grande Confronto
28 Capítulo 25: O que tem lá Fora?
29 Capítulo 26: Cada Um paga a sua dívida
30 Capítulo 27: O Passado de Sônia Vidal
31 Capítulo 28: O Controle Total
32 Capítulo 29: A História de Rato
33 Capítulo 30: Laila e o Futuro
34 Capítulo 31: A Revolta e Queda
35 Palavra do Autor: Vamos Conversar Sobre a Nossa Viúva?
36 Capítulo 32: O Retorno da Viúva
37 Capítulo 33: O Retorno da Viúva - Parte II
38 Capítulo 34: As Sombras se Movem
39 Capítulo 35: Lembranças de Belo Monte
40 Capítulo 36: O Preço da Dívida
41 Capítulo 37: O Novo Diretor
42 Capítulo 38: Reflexos de um Sistema Quebrado
43 Capítulo 39: O Estopim do Caos
44 Capítulo 40: Sementes de Rebelião
45 Capítulo 41: A Tempestade Se Aproxima
46 Capítulo 42: A Proposta de Aliança de Rato
47 Capítulo 43: Humilhação e Rebelião Sutil
48 Capítulo 44: A Traição e o Assassinato de Marília
49 Capítulo 45: O Estopim da Rebelião
50 Capítulo 46: O Diretor e a Viúva
51 Capítulo 47: A Negociação das Sombras
52 Capítulo 48: O Monopólio da Viúva
53 Capítulo 49: A Infiltração da Ordem
54 Capítulo 50: O Ataque na Sombra
55 Capítulo 51: A Reabertura do Caso
56 Capítulo 52: Confronto com o Passado
57 Capítulo 53: O Encontro com Ayana
58 Capítulo 54: O Declínio do Diretor
59 Capítulo 55: A Grande Batalha
60 Capítulo 56: A Tentativa de Assassinato
61 Capítulo 57: A Carta e a Despedida
62 Capítulo 58: O Coração de Santa Helena Parte
63 Capítulo 59: A Última Palavra
64 Epílogo: Liberdade
65 Nota de Agradecimento aos Leitores
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Atualizado até capítulo 65

1
Avisos
2
Prólogo
3
Capítulo 1: O começo do Fim
4
Capítulo 2: Primeira Noite na Cela 676
5
Capítulo 3: Tortura e Quebra Psicológica
6
Capítulo 4: Primeiras Lições na Cela
7
Capítulo 5: A Primeira Tentativa de Assassinato
8
Capítulo 6: Primeiras Suspeitas e Conflito Interno
9
Capítulo 7: Aliança com a Serpente
10
Capítulo 8: Confirmação Brutal
11
Capítulo 9: Alianças e Sobrevivência
12
Capítulo 10: O Corpo Cobra seu Preço
13
Capítulo 11: A Chegada de Valquíria
14
Capítulo 12: A Primeira Grande Tarefa
15
Capítulo 13: Mudanças no Poder
16
Capítulo 14: O Preço das Dívidas
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Capítulo 15: A Manipulação das Guardas
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Capítulo 16: Dúvidas sobre a Maternidade
19
Capítulo 17: Crescendo na Hierarquia
20
Capítulo 18: A Segunda Tentativa de Reabrir o Caso
21
Capítulo 19: O Jogo da Sobrevivência
22
Capítulo 20: O Último Trimestre
23
Palavra do Autor - Uma Pausa para conversamos
24
Capítulo 21: A Filha Arrancada
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Capítulo 22: A Tortura Final
26
Capítulo 23: A Escuridão
27
Capítulo 24: O Grande Confronto
28
Capítulo 25: O que tem lá Fora?
29
Capítulo 26: Cada Um paga a sua dívida
30
Capítulo 27: O Passado de Sônia Vidal
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Capítulo 28: O Controle Total
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Capítulo 29: A História de Rato
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Capítulo 30: Laila e o Futuro
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Capítulo 31: A Revolta e Queda
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Palavra do Autor: Vamos Conversar Sobre a Nossa Viúva?
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Capítulo 32: O Retorno da Viúva
37
Capítulo 33: O Retorno da Viúva - Parte II
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Capítulo 34: As Sombras se Movem
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Capítulo 35: Lembranças de Belo Monte
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Capítulo 36: O Preço da Dívida
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Capítulo 37: O Novo Diretor
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Capítulo 38: Reflexos de um Sistema Quebrado
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Capítulo 59: A Última Palavra
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Epílogo: Liberdade
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