O som das correntes ecoava pelo corredor estreito. Eu não conseguia ignorar o barulho, metálico, cruel, implacável. Assim como tudo ao meu redor. As vozes do tribunal ainda ressoavam na minha cabeça, a sentença reverberando como um eco maldito: trinta e cinco anos. Trinta e cinco anos. Como isso pode acontecer? A sentença pesava em meu peito como uma âncora, arrastando-me para as profundezas de um abismo sem fim. Aos vinte e quatro anos, eu havia perdido tudo: meu marido, minha liberdade, e agora, meu futuro.
O furgão da polícia sacolejava pelas ruas enquanto eu permanecia algemada, o corpo rígido de tensão. Ao meu redor, outras presas me olhavam de soslaio, como se já soubessem o que me aguardava. Algumas tinham os rostos endurecidos, marcados pelo tempo, pela vida cruel que eu ainda estava por conhecer. Eu ainda não era como elas.
Chegamos à prisão. O Instituto Penitenciário Santa Helena. Quando as portas do furgão se abriram, fui recebida por um ar sufocante e o cheiro azedo de suor, sujeira e desespero. Olhei para o imponente prédio de tijolos cinza à minha frente, com suas cercas altas e arame farpado, e senti o medo subir pela minha garganta, quase me sufocando. Mas eu o engoli. Não podia demonstrar fraqueza, não agora.
Fui empurrada para fora do veículo e levada diretamente para a triagem. Tudo aconteceu rápido demais, como se o sistema estivesse ansioso para me devorar, para me quebrar desde o primeiro minuto. A sala era fria e mal iluminada, o barulho de portas batendo e vozes ásperas preenchendo o ar.
"Nome completo," disse a agente penitenciária à minha frente, sem olhar para mim. Seus olhos estavam fixos em uma prancheta.
"Suraya Lemos Abreu." Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria, quase um sussurro. Ela não se importou.
"Idade?"
"Vinte e quatro."
"Crime?"
"Envenenamento..." Respondi, sentindo minha garganta apertar. Era como se cada vez que eu repetisse essa palavra, o peso da acusação me esmagasse um pouco mais. Eles acreditavam que eu havia matado meu marido, Fonseca. Mas a verdade? A verdade ninguém parecia querer ouvir.
Ela rabiscou algo em seu papel e acenou para os guardas. Fui levada para o que parecia ser um vestiário. Era ali que tudo seria tirado de mim.
"Tire a roupa," ordenou a agente, dessa vez me encarando com olhos frios e indiferentes. Demorei a reagir. A vergonha, a humilhação já começavam a consumir a pouca dignidade que ainda me restava.
"Tudo?" perguntei, hesitante, minha voz trêmula.
"Agora."
Senti minhas mãos trêmulas desabotoando a blusa. Minhas roupas caíram no chão, uma peça de cada vez, até que fiquei completamente exposta sob as luzes duras do teto. O frio da sala parecia cravar suas garras em minha pele, e a vergonha queimava meu rosto. Sem uma palavra de conforto, a agente começou a inspecionar meu corpo, em busca de contrabando ou objetos escondidos. Era um procedimento padrão, disseram, mas nada naquela situação parecia normal ou aceitável. Eu queria chorar, gritar, lutar. Mas permaneci imóvel, rígida. Eu não daria a eles a satisfação de me ver quebrar.
Depois de me revistarem, me deram o uniforme: um macacão laranja gasto e sujo, com o número da cela bordado no peito. O tecido áspero raspava contra minha pele enquanto eu o vestia. Senti como se estivesse trocando minha identidade, meu nome, por um número. Agora eu era a detenta 676.
"Vamos," disse o guarda, me empurrando para fora do vestiário. Eu mal tive tempo de absorver o que estava acontecendo antes de ser conduzida por corredores labirínticos, cada porta de metal fechando com um som que me fazia estremecer. Cada passo me levava mais fundo naquele inferno.
Finalmente, chegamos à cela. O barulho das outras detentas me atingiu como uma onda. Gritos, risadas, insultos – tudo misturado em um caos sonoro. O medo crescia dentro de mim a cada segundo. Eu sabia que aquele lugar estava cheio de mulheres endurecidas pela vida, mulheres que sabiam exatamente como sobreviver ali. E eu? Eu não fazia ideia de como sobreviver.
"Você vai ficar aqui," disse o guarda, abrindo uma cela estreita e sombria. "Bons primeiros dias."
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Atualizado até capítulo 65
Comments
Angela S Silva
vinte quatro ela não tinha menos quando foi presa??
2025-02-03
1
Odailma
Uma realidade, que nos leitoras, não conhecemos….
2025-01-20
1
Ana Zélia
Que tristeza
2024-12-30
1