Quando uma nova guarda retorna ao Instituto Santa Helena, o clima na prisão muda de imediato. Valquíria, conhecida entre as detentas pela crueldade e arrogância, havia passado um tempo fora em férias, mas seu retorno foi como uma tempestade anunciada. Ela não era uma simples guarda; era um problema que respirava violência.
Assim que pisou na Ala Norte, o silêncio tomou conta do corredor. Até as detentas mais violentas abaixaram a cabeça, evitando cruzar o olhar com ela. Valquíria tinha uma presença ameaçadora, movendo-se como alguém que sabe que a força está do seu lado e que não precisa dar explicações para ninguém.
Logo nas primeiras horas de seu retorno, Valquíria deixou claro que não havia espaço para brincadeiras ou falhas. No refeitório, ela jogou uma bandeja inteira de comida no chão porque uma detenta não se levantou rápido o suficiente para passar a vez. No pátio, ela puxou uma mulher pelos cabelos por se mover durante a contagem matinal. As outras guardas não se intrometiam, sabiam que Valquíria não tolerava interferências. Ela era um rolo compressor que fazia questão de esmagar qualquer sinal de desobediência.
— Comigo, é no tapa. Tão avisadas. — disse Valquíria, enquanto um sorriso fino cortava seu rosto, mais uma ameaça do que um aviso.
Mesmo Serpente, que costumava ter o controle das situações, evitava interações diretas com ela. Era claro que a aliança com Serpente não seria suficiente para me proteger da fúria de Valquíria.
A rotina da prisão já era um pesadelo, mas Valquíria a tornava ainda pior. Ela parecia caçar motivos para punir, revistando celas aleatoriamente e tornando a humilhação uma parte do processo. Ninguém estava segura, e naquela manhã, foi a vez da minha cela.
— De pé, todo mundo! — gritou Valquíria, batendo o cassetete contra a parede. Eu e as outras detentas obedecemos sem hesitar.
— Quem é você? A princesa do rolê? — Ela parou na minha frente, os olhos cheios de desprezo. — O que você tá escondendo?
Antes que eu pudesse responder, ela me empurrou com força contra a parede. Minha cabeça girou por um segundo, mas fiquei firme, sabendo que qualquer reação pioraria tudo.
Valquíria, insatisfeita com a minha calma, chutou meu estômago com toda a força.
A dor foi imediata e aguda, irradiando por todo meu corpo. Caí no chão, ofegante, as mãos pressionando a barriga instintivamente. O terror me envolveu como uma maré escura: e se o bebê...?
Senti um calor entre as pernas. Quando olhei para baixo, vi o que mais temia: sangue.
Fui arrastada para a enfermaria por duas guardas que não se deram ao trabalho de disfarçar o desprezo. A dor na barriga persistia, e eu não sabia se era apenas medo ou algo pior. Cada segundo de espera era um tormento silencioso.
Na enfermaria, a enfermeira Cecília me lançou um olhar apático. Ela não parecia surpresa ao ver sangue. Para ela, a gravidez de uma detenta era apenas mais um problema que precisava ser tratado com a mesma frieza que uma febre ou uma ferida.
— Deita aí. Vamos ver o que tá rolando. — disse, sem emoção.
Ela fez o exame com a mesma falta de cuidado com que inspecionava qualquer outra paciente. Cada toque seu era frio e impessoal. Meu coração batia acelerado, esperando pela pior notícia. Mas então, finalmente, ela falou:
— O bebê tá bem. O sangramento foi leve. — Ela tirou as luvas e deu de ombros. — Mas da próxima vez, pode não ter a mesma sorte.
Essas palavras ficaram gravadas na minha mente como uma sentença silenciosa. Cecília não se importava se eu sobrevivia ou não, e muito menos se o bebê nasceria com vida. Para ela, eu e minha filha éramos apenas mais um número na lista de presas.
Enquanto voltava à cela, a dor física era nada comparada ao peso do medo que me esmagava. O pensamento de perder minha filha antes mesmo de conhecê-la era insuportável. Eu tinha aceitado que Laila seria minha única razão para continuar lutando, mas agora essa possibilidade parecia se esvair como areia entre os dedos.
Deitada no colchão fino, com as mãos protegendo a barriga, me perguntei se havia sido a escolha certa manter essa gravidez. E se eu não fosse capaz de protegê-la? E se tudo acabasse antes mesmo de começar?
Foi no meio da noite que aconteceu algo inesperado. Um pequeno movimento fraco, mas inconfundível, veio de dentro da minha barriga.
Por um instante, eu congelei, sem acreditar no que estava sentindo. Então aconteceu de novo: um leve chute. Era como se Laila estivesse me dizendo que estava lá, que sobreviveria.
Uma onda de emoção tomou conta de mim. Lágrimas brotaram nos meus olhos, mas não eram de tristeza. Era uma mistura de alívio, esperança e uma força renovada que eu não sabia que ainda existia dentro de mim. Por um momento, nada mais importava além daquela pequena vida que pulsava dentro de mim.
— Vai ficar tudo bem, Laila. Eu prometo. — murmurei na escuridão, com uma determinação que queimava como fogo.
Aquele pequeno chute foi mais poderoso do que qualquer golpe que Valquíria pudesse me dar. Minha filha estava viva. E agora, eu sabia que faria qualquer coisa para protegê-la.
Na manhã seguinte, o pátio estava mais silencioso que o normal. As detentas perceberam minha vulnerabilidade, e algumas cochichavam enquanto eu passava, observando cada passo meu com olhares calculistas.
Serpente se aproximou enquanto eu caminhava lentamente até um banco na sombra. Ela não perguntou nada, mas seu olhar deixou claro que sabia o que havia acontecido.
— A Valquíria vai continuar te testando. Não vai ser a última vez que ela tenta te quebrar. — disse, enquanto acendia um cigarro e me oferecia um.
— Ela não vai me quebrar. — respondi, segurando o cigarro entre os dedos sem acendê-lo.
Serpente deu um sorriso quase imperceptível, como se estivesse aprovando a resposta.
— Bom. Porque aqui, só os fortes vivem. E você tem mais o que perder agora, não é?
Eu não respondi, mas ela estava certa. Eu tinha Laila. E agora, cada passo meu dentro daquela prisão seria por ela.
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Atualizado até capítulo 65
Comments
Lucilene Palheta
poxa ninguém vai visitar ela ,ver como ela estar ,malditos
2024-12-09
2
Irá
Autor pprq nem um advogado foi procurá-la? Mesmo que ela tivesse matando o seu esposo ela teria um advogado pprq até então ela seria a única erdeira do esposo! Já não era pra ela ter um advogado para lutar e tirar ela fã prisão e pegar quem fez essa armação é ppr ela presa?
2024-12-27
3