Capítulo 6: Primeiras Suspeitas e Conflito Interno

O tempo dentro de Santa Helena passava diferente. Os dias se arrastavam como uma corrente presa aos tornozelos, e a única certeza era que cada amanhecer trazia novos perigos. Porém, meu corpo começou a dar sinais claros de que algo estava mudando. Tonturas, cansaço incontrolável, e o enjoo que me assombrava a qualquer hora do dia. Eu tentava ignorar, dizia a mim mesma que era apenas o estresse e a comida podre, mas a verdade estava se tornando impossível de negar.

Minha menstruação não aparecia há semanas ou seja nem mas me lembro quando foi a última vez, e o medo se agarrava a mim como uma sombra que eu não conseguia espantar.

Na cela, Rosa e Janaína estavam sempre à espreita, aproveitando qualquer oportunidade para zombar de mim. Elas viam minhas tonturas e enjoos como um sinal de fraqueza, e a fraqueza ali era diversão para quem estava entediado.

— Olha só... Será que a princesinha trouxe um presente do magnata? — disse Rosa com uma risada curta, enquanto enrolava um cigarro.

— Deve ser, né? Essas madames não sabem nem usar camisinha. — completou Janaína, soltando uma gargalhada.

Eu tentei não reagir, mas as palavras ressoaram como um golpe direto no peito. Elas não sabiam que estavam certas. A possibilidade de estar grávida martelava na minha cabeça o tempo todo, mas ouvir isso em voz alta fez a realidade parecer mais real e cruel do que nunca.

Eu engoli a raiva e a humilhação, tentando manter o controle. Mostrar qualquer emoção era um erro.

— Vai se ferrar, Rosa. — murmurei, seca, antes de me encolher no canto da cela.

Rosa riu, como se já tivesse vencido uma batalha que eu nem sabia que estava lutando.

— Deixa a madame quieta. Vai ver, ela só tá com saudade do marido morto.

Enquanto as risadas delas ecoavam na cela, um nó se apertava em meu estômago. Eu não podia estar grávida. A ideia era absurda. A última vez que fiz amor com Fonseca foi na noite em que ele morreu — e mesmo assim, como poderia a vida ter surgido no meio da morte? Era uma ironia que meu coração se recusava a aceitar.

Mas os sinais estavam ali, claros como o sol que queimava o pátio lá fora. Cada enjoo, cada tontura, cada semana sem menstruação era um lembrete de que eu não estava mais sozinha.

O medo me consumia: ter uma criança na prisão era impensável. Eu sabia que, se confirmasse a gravidez, não haveria como manter isso em segredo por muito tempo. A notícia se espalharia como fogo, e qualquer um que soubesse usaria isso contra mim.

Foi em uma noite sufocante que, pela primeira vez em muito tempo, deixei a máscara cair. Marília estava encostada na parede da cela vizinha, tremendo como sempre por falta de drogas. Havia algo de trágico em seu olhar vazio, como se ela fosse um lembrete constante de onde eu poderia acabar se perdesse o controle.

— Marília... Posso te perguntar uma coisa? — minha voz saiu mais fraca do que eu queria.

Ela deu de ombros, puxando o cobertor fino para cima do corpo magro.

— O que foi agora, princesa?

Hesitei por um momento, mas a necessidade de desabafar foi maior que o medo.

— E se eu... Se eu estiver grávida?

Marília me olhou, seus olhos fundos e tristes como os de alguém que já tinha desistido de tudo.

— Grávida? Aqui? — Ela soltou uma risada baixa e amarga. — Reza, princesa. E torce pra não nascer aqui dentro.

A frieza na voz dela me atingiu como uma marretada. Não havia compaixão ou piedade ali, apenas uma verdade dura e amarga: uma criança não sobreviveria naquele lugar, e se sobrevivesse, não teria chance.

— O que eu faço? — perguntei, quase num sussurro, odiando o tom vulnerável da minha própria voz.

Marília deu outro sorriso vazio.

— O que todo mundo faz, princesa: sobrevive. E, se puder, morre rápido.

Voltei para o colchão e me encolhi na escuridão da cela, com as palavras de Marília ecoando na minha mente. Reza, e torce para não nascer aqui. Eu sabia que ela estava certa. Trazer uma criança ao mundo naquelas condições seria condenar uma vida inocente à mesma escuridão que me cercava. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia algo diferente crescendo dentro de mim: uma pequena centelha de esperança.

Se eu realmente estivesse grávida, aquela criança seria a única coisa boa que restava de mim e de Fonseca. Ela seria a razão pela qual eu ainda teria que lutar, mesmo quando tudo em mim dizia para desistir. Por ela, eu teria que sobreviver.

Mas havia também um medo profundo: como proteger um bebê em um lugar onde eu mal conseguia proteger a mim mesma? Como garantir que ele não seria arrancado de mim assim que nascesse?

A confusão dentro de mim era insuportável. Entre o medo e a esperança, eu estava sendo consumida. A cada momento de enjoo, a cada tontura, eu me sentia mais perdida — como se a mulher que fui um dia estivesse desaparecendo completamente.

Na manhã seguinte, no pátio, Serpente me observava com o mesmo olhar frio e calculista de sempre. Eu sabia que ela estava de olho em mim, esperando para ver até onde eu aguentaria. Ela não perguntou nada, mas sabia que algo estava errado.

— Tá ficando cada vez mais fraca, princesa. — Ela comentou, sem tirar os olhos de mim. — Vai durar quanto tempo assim?

Eu não respondi. Ainda não podia contar nada a ninguém, nem mesmo a Serpente. Mas havia uma promessa silenciosa naquele olhar dela. Serpente não se importava se eu estava grávida ou doente — ela só se importava se eu ainda poderia ser útil.

E eu teria que ser. Por mim e por essa criança.

Naquela noite, deitada na cela enquanto o cheiro úmido das paredes me sufocava, eu finalmente encarei a verdade que estava evitando. Eu estava grávida. Não havia mais como negar. Cada sinal no meu corpo era um lembrete cruel e inevitável.

Com os olhos fechados, coloquei a mão sobre a barriga e senti um nó apertar minha garganta. Ali, no meio daquele inferno, uma nova vida estava crescendo.

E, naquele momento, tomei uma decisão silenciosa. Eu faria qualquer coisa para proteger essa criança.

Mesmo que significasse me perder completamente no processo.

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Comments

Maria Clarete Bueno

Maria Clarete Bueno

estou lendo e gostando.

2025-01-25

1

Irá

Irá

Nossa que estranho ninguém tá lendo esse livro! E olha que eu digo que tenho estômago fraco, mais acredito que na prisão onde ela está é estando grávida é um sinal de sobrevivência assim como eu conseguir sobreviver uma gravidez e depois dlea nascer eu ainda continuar lutando pelo seu bém estar, entre juízes,família de pai, famílias de mãe que foi meu maior amor e meu pior inferno, mais mesmo assim batalhei e ela nasceu, foi tirada de mim como se tivesse nascido um cachorro e o vizinho deixou largado fora no quintal de alguém! E esse alguém seria seus avós paternos e sua vó e tias maternas como ei fosse a cadela q no sio pegou, filhote só que até seus 5 anos lutei e conseguir sua guarda até qd eu sofri um acidente e lá foi de novo eu ficar sem ela e assim aconteceu com as minhas duas filhas mulheres e qd conheci o API do meu 2° filho e nasceu homem e preto* como dis minha adorada mãe, só que não nada de adorada me jogou dentro de uma prisão, não cadeia mais a pior prisão que vc possa imaginar não ter com quem apoiá-la é a família viaja as costas só por o bebê ser negro 😢😭😭😭🥺🥹🥹 ela só aceitava se fosse branco, o racismo das pessoas é uma prisão q nos pasamso pprq comigo foi assim tb, eu sou negra e fui largada a Deus do ara por minha mãe.

2024-12-27

2

Ver todos
Capítulos
1 Avisos
2 Prólogo
3 Capítulo 1: O começo do Fim
4 Capítulo 2: Primeira Noite na Cela 676
5 Capítulo 3: Tortura e Quebra Psicológica
6 Capítulo 4: Primeiras Lições na Cela
7 Capítulo 5: A Primeira Tentativa de Assassinato
8 Capítulo 6: Primeiras Suspeitas e Conflito Interno
9 Capítulo 7: Aliança com a Serpente
10 Capítulo 8: Confirmação Brutal
11 Capítulo 9: Alianças e Sobrevivência
12 Capítulo 10: O Corpo Cobra seu Preço
13 Capítulo 11: A Chegada de Valquíria
14 Capítulo 12: A Primeira Grande Tarefa
15 Capítulo 13: Mudanças no Poder
16 Capítulo 14: O Preço das Dívidas
17 Capítulo 15: A Manipulação das Guardas
18 Capítulo 16: Dúvidas sobre a Maternidade
19 Capítulo 17: Crescendo na Hierarquia
20 Capítulo 18: A Segunda Tentativa de Reabrir o Caso
21 Capítulo 19: O Jogo da Sobrevivência
22 Capítulo 20: O Último Trimestre
23 Palavra do Autor - Uma Pausa para conversamos
24 Capítulo 21: A Filha Arrancada
25 Capítulo 22: A Tortura Final
26 Capítulo 23: A Escuridão
27 Capítulo 24: O Grande Confronto
28 Capítulo 25: O que tem lá Fora?
29 Capítulo 26: Cada Um paga a sua dívida
30 Capítulo 27: O Passado de Sônia Vidal
31 Capítulo 28: O Controle Total
32 Capítulo 29: A História de Rato
33 Capítulo 30: Laila e o Futuro
34 Capítulo 31: A Revolta e Queda
35 Palavra do Autor: Vamos Conversar Sobre a Nossa Viúva?
36 Capítulo 32: O Retorno da Viúva
37 Capítulo 33: O Retorno da Viúva - Parte II
38 Capítulo 34: As Sombras se Movem
39 Capítulo 35: Lembranças de Belo Monte
40 Capítulo 36: O Preço da Dívida
41 Capítulo 37: O Novo Diretor
42 Capítulo 38: Reflexos de um Sistema Quebrado
43 Capítulo 39: O Estopim do Caos
44 Capítulo 40: Sementes de Rebelião
45 Capítulo 41: A Tempestade Se Aproxima
46 Capítulo 42: A Proposta de Aliança de Rato
47 Capítulo 43: Humilhação e Rebelião Sutil
48 Capítulo 44: A Traição e o Assassinato de Marília
49 Capítulo 45: O Estopim da Rebelião
50 Capítulo 46: O Diretor e a Viúva
51 Capítulo 47: A Negociação das Sombras
52 Capítulo 48: O Monopólio da Viúva
53 Capítulo 49: A Infiltração da Ordem
54 Capítulo 50: O Ataque na Sombra
55 Capítulo 51: A Reabertura do Caso
56 Capítulo 52: Confronto com o Passado
57 Capítulo 53: O Encontro com Ayana
58 Capítulo 54: O Declínio do Diretor
59 Capítulo 55: A Grande Batalha
60 Capítulo 56: A Tentativa de Assassinato
61 Capítulo 57: A Carta e a Despedida
62 Capítulo 58: O Coração de Santa Helena Parte
63 Capítulo 59: A Última Palavra
64 Epílogo: Liberdade
65 Nota de Agradecimento aos Leitores
Capítulos

Atualizado até capítulo 65

1
Avisos
2
Prólogo
3
Capítulo 1: O começo do Fim
4
Capítulo 2: Primeira Noite na Cela 676
5
Capítulo 3: Tortura e Quebra Psicológica
6
Capítulo 4: Primeiras Lições na Cela
7
Capítulo 5: A Primeira Tentativa de Assassinato
8
Capítulo 6: Primeiras Suspeitas e Conflito Interno
9
Capítulo 7: Aliança com a Serpente
10
Capítulo 8: Confirmação Brutal
11
Capítulo 9: Alianças e Sobrevivência
12
Capítulo 10: O Corpo Cobra seu Preço
13
Capítulo 11: A Chegada de Valquíria
14
Capítulo 12: A Primeira Grande Tarefa
15
Capítulo 13: Mudanças no Poder
16
Capítulo 14: O Preço das Dívidas
17
Capítulo 15: A Manipulação das Guardas
18
Capítulo 16: Dúvidas sobre a Maternidade
19
Capítulo 17: Crescendo na Hierarquia
20
Capítulo 18: A Segunda Tentativa de Reabrir o Caso
21
Capítulo 19: O Jogo da Sobrevivência
22
Capítulo 20: O Último Trimestre
23
Palavra do Autor - Uma Pausa para conversamos
24
Capítulo 21: A Filha Arrancada
25
Capítulo 22: A Tortura Final
26
Capítulo 23: A Escuridão
27
Capítulo 24: O Grande Confronto
28
Capítulo 25: O que tem lá Fora?
29
Capítulo 26: Cada Um paga a sua dívida
30
Capítulo 27: O Passado de Sônia Vidal
31
Capítulo 28: O Controle Total
32
Capítulo 29: A História de Rato
33
Capítulo 30: Laila e o Futuro
34
Capítulo 31: A Revolta e Queda
35
Palavra do Autor: Vamos Conversar Sobre a Nossa Viúva?
36
Capítulo 32: O Retorno da Viúva
37
Capítulo 33: O Retorno da Viúva - Parte II
38
Capítulo 34: As Sombras se Movem
39
Capítulo 35: Lembranças de Belo Monte
40
Capítulo 36: O Preço da Dívida
41
Capítulo 37: O Novo Diretor
42
Capítulo 38: Reflexos de um Sistema Quebrado
43
Capítulo 39: O Estopim do Caos
44
Capítulo 40: Sementes de Rebelião
45
Capítulo 41: A Tempestade Se Aproxima
46
Capítulo 42: A Proposta de Aliança de Rato
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Capítulo 43: Humilhação e Rebelião Sutil
48
Capítulo 44: A Traição e o Assassinato de Marília
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Capítulo 45: O Estopim da Rebelião
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Capítulo 47: A Negociação das Sombras
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Capítulo 48: O Monopólio da Viúva
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Capítulo 49: A Infiltração da Ordem
54
Capítulo 50: O Ataque na Sombra
55
Capítulo 51: A Reabertura do Caso
56
Capítulo 52: Confronto com o Passado
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Capítulo 53: O Encontro com Ayana
58
Capítulo 54: O Declínio do Diretor
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Capítulo 57: A Carta e a Despedida
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Capítulo 59: A Última Palavra
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