O tempo dentro de Santa Helena passava diferente. Os dias se arrastavam como uma corrente presa aos tornozelos, e a única certeza era que cada amanhecer trazia novos perigos. Porém, meu corpo começou a dar sinais claros de que algo estava mudando. Tonturas, cansaço incontrolável, e o enjoo que me assombrava a qualquer hora do dia. Eu tentava ignorar, dizia a mim mesma que era apenas o estresse e a comida podre, mas a verdade estava se tornando impossível de negar.
Minha menstruação não aparecia há semanas ou seja nem mas me lembro quando foi a última vez, e o medo se agarrava a mim como uma sombra que eu não conseguia espantar.
Na cela, Rosa e Janaína estavam sempre à espreita, aproveitando qualquer oportunidade para zombar de mim. Elas viam minhas tonturas e enjoos como um sinal de fraqueza, e a fraqueza ali era diversão para quem estava entediado.
— Olha só... Será que a princesinha trouxe um presente do magnata? — disse Rosa com uma risada curta, enquanto enrolava um cigarro.
— Deve ser, né? Essas madames não sabem nem usar camisinha. — completou Janaína, soltando uma gargalhada.
Eu tentei não reagir, mas as palavras ressoaram como um golpe direto no peito. Elas não sabiam que estavam certas. A possibilidade de estar grávida martelava na minha cabeça o tempo todo, mas ouvir isso em voz alta fez a realidade parecer mais real e cruel do que nunca.
Eu engoli a raiva e a humilhação, tentando manter o controle. Mostrar qualquer emoção era um erro.
— Vai se ferrar, Rosa. — murmurei, seca, antes de me encolher no canto da cela.
Rosa riu, como se já tivesse vencido uma batalha que eu nem sabia que estava lutando.
— Deixa a madame quieta. Vai ver, ela só tá com saudade do marido morto.
Enquanto as risadas delas ecoavam na cela, um nó se apertava em meu estômago. Eu não podia estar grávida. A ideia era absurda. A última vez que fiz amor com Fonseca foi na noite em que ele morreu — e mesmo assim, como poderia a vida ter surgido no meio da morte? Era uma ironia que meu coração se recusava a aceitar.
Mas os sinais estavam ali, claros como o sol que queimava o pátio lá fora. Cada enjoo, cada tontura, cada semana sem menstruação era um lembrete de que eu não estava mais sozinha.
O medo me consumia: ter uma criança na prisão era impensável. Eu sabia que, se confirmasse a gravidez, não haveria como manter isso em segredo por muito tempo. A notícia se espalharia como fogo, e qualquer um que soubesse usaria isso contra mim.
Foi em uma noite sufocante que, pela primeira vez em muito tempo, deixei a máscara cair. Marília estava encostada na parede da cela vizinha, tremendo como sempre por falta de drogas. Havia algo de trágico em seu olhar vazio, como se ela fosse um lembrete constante de onde eu poderia acabar se perdesse o controle.
— Marília... Posso te perguntar uma coisa? — minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
Ela deu de ombros, puxando o cobertor fino para cima do corpo magro.
— O que foi agora, princesa?
Hesitei por um momento, mas a necessidade de desabafar foi maior que o medo.
— E se eu... Se eu estiver grávida?
Marília me olhou, seus olhos fundos e tristes como os de alguém que já tinha desistido de tudo.
— Grávida? Aqui? — Ela soltou uma risada baixa e amarga. — Reza, princesa. E torce pra não nascer aqui dentro.
A frieza na voz dela me atingiu como uma marretada. Não havia compaixão ou piedade ali, apenas uma verdade dura e amarga: uma criança não sobreviveria naquele lugar, e se sobrevivesse, não teria chance.
— O que eu faço? — perguntei, quase num sussurro, odiando o tom vulnerável da minha própria voz.
Marília deu outro sorriso vazio.
— O que todo mundo faz, princesa: sobrevive. E, se puder, morre rápido.
Voltei para o colchão e me encolhi na escuridão da cela, com as palavras de Marília ecoando na minha mente. Reza, e torce para não nascer aqui. Eu sabia que ela estava certa. Trazer uma criança ao mundo naquelas condições seria condenar uma vida inocente à mesma escuridão que me cercava. Mas, ao mesmo tempo, eu sentia algo diferente crescendo dentro de mim: uma pequena centelha de esperança.
Se eu realmente estivesse grávida, aquela criança seria a única coisa boa que restava de mim e de Fonseca. Ela seria a razão pela qual eu ainda teria que lutar, mesmo quando tudo em mim dizia para desistir. Por ela, eu teria que sobreviver.
Mas havia também um medo profundo: como proteger um bebê em um lugar onde eu mal conseguia proteger a mim mesma? Como garantir que ele não seria arrancado de mim assim que nascesse?
A confusão dentro de mim era insuportável. Entre o medo e a esperança, eu estava sendo consumida. A cada momento de enjoo, a cada tontura, eu me sentia mais perdida — como se a mulher que fui um dia estivesse desaparecendo completamente.
Na manhã seguinte, no pátio, Serpente me observava com o mesmo olhar frio e calculista de sempre. Eu sabia que ela estava de olho em mim, esperando para ver até onde eu aguentaria. Ela não perguntou nada, mas sabia que algo estava errado.
— Tá ficando cada vez mais fraca, princesa. — Ela comentou, sem tirar os olhos de mim. — Vai durar quanto tempo assim?
Eu não respondi. Ainda não podia contar nada a ninguém, nem mesmo a Serpente. Mas havia uma promessa silenciosa naquele olhar dela. Serpente não se importava se eu estava grávida ou doente — ela só se importava se eu ainda poderia ser útil.
E eu teria que ser. Por mim e por essa criança.
Naquela noite, deitada na cela enquanto o cheiro úmido das paredes me sufocava, eu finalmente encarei a verdade que estava evitando. Eu estava grávida. Não havia mais como negar. Cada sinal no meu corpo era um lembrete cruel e inevitável.
Com os olhos fechados, coloquei a mão sobre a barriga e senti um nó apertar minha garganta. Ali, no meio daquele inferno, uma nova vida estava crescendo.
E, naquele momento, tomei uma decisão silenciosa. Eu faria qualquer coisa para proteger essa criança.
Mesmo que significasse me perder completamente no processo.
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Atualizado até capítulo 65
Comments
Maria Clarete Bueno
estou lendo e gostando.
2025-01-25
1
Irá
Nossa que estranho ninguém tá lendo esse livro! E olha que eu digo que tenho estômago fraco, mais acredito que na prisão onde ela está é estando grávida é um sinal de sobrevivência assim como eu conseguir sobreviver uma gravidez e depois dlea nascer eu ainda continuar lutando pelo seu bém estar, entre juízes,família de pai, famílias de mãe que foi meu maior amor e meu pior inferno, mais mesmo assim batalhei e ela nasceu, foi tirada de mim como se tivesse nascido um cachorro e o vizinho deixou largado fora no quintal de alguém! E esse alguém seria seus avós paternos e sua vó e tias maternas como ei fosse a cadela q no sio pegou, filhote só que até seus 5 anos lutei e conseguir sua guarda até qd eu sofri um acidente e lá foi de novo eu ficar sem ela e assim aconteceu com as minhas duas filhas mulheres e qd conheci o API do meu 2° filho e nasceu homem e preto* como dis minha adorada mãe, só que não nada de adorada me jogou dentro de uma prisão, não cadeia mais a pior prisão que vc possa imaginar não ter com quem apoiá-la é a família viaja as costas só por o bebê ser negro 😢😭😭😭🥺🥹🥹 ela só aceitava se fosse branco, o racismo das pessoas é uma prisão q nos pasamso pprq comigo foi assim tb, eu sou negra e fui largada a Deus do ara por minha mãe.
2024-12-27
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