O peso da gravidez começava a cobrar seu preço. Cada passo dentro da prisão era uma luta silenciosa, um teste constante de resistência. A barriga agora estava visível, e a cada dia que passava, as dores nas costas e nas pernas se tornavam mais intensas. À noite, o colchão fino não ajudava em nada. A posição desconfortável me fazia acordar com câimbras, e os momentos de alívio eram cada vez mais raros.
O medo estava sempre lá, à espreita. Ter decidido continuar com a gravidez parecia agora uma escolha cada vez mais insustentável. E se Laila não sobrevivesse? E se ela nascesse em meio a esse caos e fosse só mais uma vítima do sistema? E se, depois de todo o esforço, ela fosse arrancada de mim no momento em que nascesse?
Marília era a única pessoa com quem eu ainda conseguia falar. Ela passava boa parte das noites sentada comigo na cela, tentando me confortar da melhor forma possível. Mas a proximidade dela começava a me incomodar.
— Vai ficar tudo bem, Suraya. — dizia ela, com uma confiança que eu sabia que não era real. — Você é forte, e essa menina vai nascer forte também.
Eu tentei acreditar, mas as palavras dela pareciam vazias. Quanto mais ela tentava me dar esperança, mais eu me afastava. Não era seguro depender de ninguém.
— Para de tentar me consolar, Marília. — respondi uma noite, fria. — Aqui nada fica bem. E ninguém sai vivo.
Ela se calou, ofendida, mas eu não me importava. Quanto mais perto ela chegava, mais frágil eu me sentia. Precisava erguer barreiras, proteger meu coração antes que a esperança me destruísse.
Os dias eram uma névoa pesada de cansaço e dor. Mesmo assim, as rotinas da prisão continuavam como sempre. Uma manhã, durante o banho coletivo, algo deu errado.
Eu estava sob o chuveiro frio, com a água escorrendo pela pele, quando senti um movimento estranho atrás de mim. Quando virei o rosto, vi o brilho de uma lâmina improvisada — uma faca feita de um pedaço de metal enferrujado.
A mulher era de uma gangue rival e tinha sido enviada para me matar. Seus olhos estavam injetados de ódio, como se minha simples existência fosse motivo suficiente para tirar minha vida. Ela avançou rápido, e tudo que consegui fazer foi erguer os braços para me proteger. A lâmina cortou o ar, rápida e certeira.
No último segundo, um corpo surgiu entre mim e a faca.
Serpente.
Ela segurou o pulso da mulher com força e a empurrou contra a parede com violência. A faca caiu ao chão com um tilintar metálico.
— Você é louca? — Serpente rosnou, pressionando o rosto da detenta contra o azulejo úmido. — Ninguém toca na minha gente sem pagar o preço.
A mulher tentou se debater, mas Serpente não deu chance. Com um último empurrão, jogou-a ao chão e pisou em sua mão até o osso estalar.
— Se tentar de novo, vai sair daqui num saco preto.
A guarda Valquíria apareceu logo depois, mas ao ver Serpente no comando, preferiu não intervir. Aqui dentro, até as guardas sabiam quando era melhor se afastar.
Mais tarde, de volta à cela, eu me sentei com dificuldade, a barriga pesando mais do que nunca. Serpente estava ao meu lado, acendendo um cigarro e me observando em silêncio. Ela não pediu nada em troca por ter salvado minha vida. Sabíamos que a aliança entre nós era mais do que interesse — era uma questão de sobrevivência mútua.
— Você precisa de mim mais do que nunca, princesa. — disse Serpente, com um sorriso de canto. — E eu vou garantir que você sobreviva. Mas precisa se acostumar com isso: aqui dentro, ninguém luta sozinha.
Eu sabia que ela estava certa. Por mais que eu quisesse me isolar e me tornar forte o suficiente para enfrentar tudo sozinha, a verdade era que eu precisava dela. Sem Serpente, eu já estaria morta.
A relação entre Serpente e as outras detentas era muito mais complexa do que eu imaginava. Não se tratava apenas de domínio físico ou de favores estratégicos. Serpente controlava as emoções das mulheres que a rodeavam. Ela era o centro de um sistema de dependência emocional que mantinha muitas delas sob seu controle.
Naquela noite, enquanto eu observava do canto da cela, Serpente levou uma das detentas para sua cama. Não era a primeira vez que isso acontecia, e eu sabia que não seria a última.
O sexo ali não era apenas desejo. Era uma moeda de troca, uma forma de poder, um modo de lembrar a todas quem estava no comando. A mulher que ela escolheu naquela noite não era ninguém importante na hierarquia da prisão, mas o suficiente para que, na manhã seguinte, ela caminhasse pelo pátio com um olhar de triunfo, como se o toque de Serpente tivesse lhe dado um novo status.
Eu assistia a tudo em silêncio, aprendendo cada dia mais sobre o que significava sobreviver ali dentro.
Naquela mesma noite, enquanto me encolhia no colchão, Laila se mexeu de novo. O pequeno chute me trouxe uma sensação estranha de esperança e medo ao mesmo tempo.
Será que eu estava fazendo a coisa certa? Será que ela sobreviveria àquilo tudo? Ou seria apenas mais uma vida que o sistema destruiria sem piedade?
Eu queria afastar essas dúvidas, mas elas eram como sombras que não desaparecem, não importa o quanto você tente fugir. A verdade é que eu não sabia o que me esperava.
Mas uma coisa era certa: se eu queria sobreviver e dar uma chance à minha filha, precisava continuar jogando o jogo. E isso significava aceitar a proteção de Serpente — e aprender a manipular a prisão como ela fazia.
A fragilidade da maternidade começava a me transformar, mas não em uma mulher mais fraca. Eu não podia ser frágil. Não ali.
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Atualizado até capítulo 65
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Luanna Martyns
foto dos personagens autora
2024-12-15
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