A aliança com Serpente não trouxe alívio imediato. Aqui dentro, cada nova conexão era uma corrente: ou te puxava para cima, ou te arrastava mais fundo. Eu estava no meio desse jogo agora. Com a guarda Guimarães comprada e minha inserção oficial nos negócios ilícitos de Serpente, passei a ser mais observada — e mais testada.
Não havia descanso na Ala Norte. Se não eram as detentas que queriam testar os limites, eram as guardas que nos colocavam no chão para mostrar quem realmente mandava. A cada dia, minha resistência era levada ao limite, e a única coisa que me mantinha de pé era o pensamento de que eu não estava mais lutando só por mim. A gravidez havia se tornado meu segredo mais precioso — e também meu maior fardo.
As coisas mudaram depois que mostrei minha lealdade a Serpente. Serpente não era generosa — ela era calculista. E tudo que ela dava vinha com um preço. Comecei a entender como seus negócios se espalhavam pelas alas da prisão como uma teia. O tráfico de drogas e cigarros, favores sexuais, chantagens e ameaças — tudo passava pelas mãos dela. E agora, eu fazia parte dessa máquina.
A Ala Sul, onde ficavam as detentas mais frágeis e novatas, era um dos territórios que Serpente queria conquistar completamente. As líderes locais ainda se mantinham resistentes, especialmente uma mulher chamada Luísa, conhecida como “Rato”. Luísa era pequena e dissimulada, mas tinha influência. Serpente queria que eu a persuadisse a ceder.
— Você parece inofensiva. Use isso. — Serpente me disse, enquanto enrolava um cigarro e o acendia. — Ninguém resiste a uma mulher que parece quebrada, até que descubra tarde demais que não está.
Ela me olhou por cima da fumaça, seu sorriso carregado de veneno. Eu precisava aprender a jogar como ela.
Eu fui até a Ala Sul em uma manhã abafada. O cheiro de desinfetante barato misturado com suor impregnava o ar. Naquele canto da prisão, a tensão era diferente. As mulheres da Ala Sul viviam com medo constante, sabendo que qualquer falha poderia jogá-las direto nas mãos das veteranas da Ala Norte.
Luísa me recebeu com um sorriso desconfiado. Ela era menor e mais magra do que eu esperava, mas seu olhar era afiado como uma lâmina.
— Então, é você a nova cachorrinha da Serpente? — ela disse, sem rodeios.
Ignorei a provocação e sentei no banco ao lado dela. Aqui dentro, você tinha que escolher quando reagir e quando deixar passar.
— Não precisa ser assim, Luísa. A Serpente só quer fazer negócios. Tem muito espaço para todo mundo.
Luísa riu, mas não havia alegria no som.
— Não tem espaço pra todos, garota. Ou você manda, ou é mandada. E eu não vou me ajoelhar pra ninguém.
Respirei fundo, tentando esconder a irritação. Serpente me avisou que seria difícil, mas aquela era minha primeira missão, e eu não podia falhar.
— Você quer continuar na Ala Sul? Então vai precisar de proteção. E você sabe muito bem que Serpente é a única que pode oferecer isso.
Luísa estreitou os olhos, avaliando cada palavra minha. Por um momento, achei que ela fosse rir novamente, mas ao invés disso, ela apenas balançou a cabeça.
— Parece que você já aprendeu rápido, hein?
— Rápido o suficiente para saber que ninguém sobrevive sozinha aqui dentro.
Ela me lançou um último olhar desconfiado, mas percebi que plantei a semente da dúvida. Era apenas uma questão de tempo até que Luísa entendesse que resistir era inútil.
Voltei para a Ala Norte com a cabeça cheia de pensamentos e o corpo cada vez mais cansado. A gravidez começava a cobrar um preço alto. Eu sentia uma exaustão constante e carregava uma fome que nunca parecia ser saciada.
— Tá comendo por dois, é? — Janaína zombou uma noite, ao me ver devorar o mingau aguado que serviam no jantar.
Eu apenas a ignorei, mas por dentro sentia o medo crescer. Se alguém descobrisse sobre a gravidez, estaria perdida. Ter uma criança na prisão era como carregar uma sentença de morte. Ou você perdia o bebê para o sistema, ou ele era usado como moeda de troca.
Para as outras detentas, minha fadiga e náuseas eram apenas sinais de fraqueza. Mas para mim, eram lembretes de que eu precisava sobreviver a qualquer custo.
Certa noite, Marília, a viciada que dividia a cela ao lado, veio até mim. Ela estava magra demais, com os olhos fundos e as mãos tremendo.
— Ouvi dizer que você agora é a queridinha da Serpente. Consegue arranjar algo pra mim?
— Não sou traficante, Marília. — respondi com frieza, tentando afastá-la.
Ela se aproximou mais, a voz num sussurro desesperado.
— Por favor... só um pouco. Eu pago. Eu faço qualquer coisa.
O olhar dela era um espelho do que eu poderia me tornar se não jogasse minhas cartas direito. Marília era uma mulher quebrada pelo sistema, usada por todos e descartada por quem não precisava mais dela. Eu não podia me dar ao luxo de ser como ela.
— Arruma outro jeito, Marília.
Ela me lançou um olhar cheio de mágoa, mas eu não me importei. Ali, o egoísmo era a única forma de sobrevivência. E eu já não podia me dar ao luxo de salvar ninguém além de mim mesma e da criança que carregava.
O controle das guardas sobre nós era quase absoluto. Guimarães era a mais suja delas, sempre aberta a subornos e favores. Inês, por outro lado, gostava da violência pela violência — era o tipo de pessoa que quebrava alguém por puro prazer.
Por cima de todas elas estava Sônia Vidal, a diretora. Sônia era uma mulher fria, com um olhar que parecia atravessar sua alma. Ela não sujava as mãos com as pequenas brigas internas. Ela se mantinha distante, deixando as guardas e as líderes das alas controlarem o caos. Desde que ninguém manchasse a reputação da prisão, Sônia não se importava se vivíamos ou morríamos.
Havia rumores de que Sônia mantinha relações próximas com políticos e empresários, usando o instituto como um palco para negociações ilícitas. Se algo acontecia ali dentro, Sônia sabia — e permitia.
De volta à cela, encontrei Serpente esperando por mim, fumando calmamente no canto. O cheiro de tabaco encheu o ar, e ela me olhou como se já soubesse tudo que havia acontecido.
— Então? Como foi com a Rato? — perguntou, soprando a fumaça lentamente.
— Ela vai ceder. É só uma questão de tempo.
Serpente deu um sorriso satisfeito. Eu estava aprendendo rápido, e ela sabia disso.
— Bom. Mas lembra de uma coisa, princesa... aqui, o tempo é um inimigo. Não espere demais para ela não ter tempo de pensar.
Antes que eu pudesse responder, uma pontada de dor atravessou meu estômago, me fazendo ofegar. Serpente franziu o cenho, como se notasse algo que eu não queria mostrar.
— Tá doente?
— Não é nada. — murmurei, tentando esconder a dor.
Serpente se aproximou, estreitando os olhos.
— Você não é boa em mentir ainda. — Ela deu uma última tragada e apagou o cigarro na parede. — Mas vai aprender. E rápido.
Sozinha na escuridão da cela, me encolhi no colchão fino, protegendo instintivamente a barriga. Cada dia que passava, eu sentia a vida crescendo dentro de mim — e junto com ela, minha determinação. Eu não era mais a mulher que entrou ali frágil e perdida. Agora eu tinha um motivo para sobreviver.
E sobreviver não significava apenas passar mais um dia. Significava lutar, manipular, e dominar
A aliança com Serpente era apenas o começo. Eu faria o que fosse necessário para sair daquele lugar e proteger minha filha. E se for menino?
Porque agora, eu não estava mais sozinha. E isso mudava tudo.
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Atualizado até capítulo 65
Comments
Angela S Silva
e ninguém vai notar essa barriga crescendo
2025-02-03
1
Irá
Eu só queria saber quem foi que armou pra ela! E ela tem que sai da prisão pra destruir o que já destruíram dela e aí sim vai nascer das sinzas igual uma fenex
2024-12-27
4
Marilda Visona
Eu também estou louca pra saber, mais essa coitada quanto sofrimento
2024-12-16
2