Aquela noite estava envolta em uma escuridão sufocante, como se o próprio céu estivesse refletindo o desespero que pairava sobre nossa casa. A velha casa grande dos Lemos Monteiro, que sempre fora um refúgio seguro, agora parecia um labirinto sombrio, cheio de sombras e sussurros que ecoavam pelas paredes antigas.
Mamãe não cozinhou como de costume. A cozinha, normalmente o coração pulsante de nosso lar, estava vazia e fria, assim como nós. Eu, Anaya e Ayana estávamos sentadas juntas no sofá da sala, unidas como se pudéssemos nos proteger do que estava por vir. Os gritos de mamãe e papai vinham do fundo da casa, do escritório, reverberando pelos corredores como trovões em uma noite de tempestade.
Mamãe gritava aos quatro ventos, xingando papai com todas as ofensas que conhecia, sua voz carregada de dor e raiva. Ela o acusava de ter nos condenado, de ter arruinado nossas vidas e destruído nosso futuro. E ela não estava errada. Papai, com seu vício maldito, havia jogado fora não apenas nossas terras, mas também nossa paz e nosso futuro.
— Como você pôde fazer isso conosco? Com as suas filhas Gustavo! — ouvi sua voz esganiçada ecoar pela casa. — Essa fazenda é nosso lar, onde nascemos, onde nossos antepassados repousam! E agora você nos condena à ruína por causa do seu vício maldito!
Cada palavra era uma facada no coração. Eu sentia a dor dela como se fosse minha. Mas o que me feriu mais profundamente foram as palavras que vieram em seguida, quando mamãe começou a falar sobre mim.
— Suraya é apenas uma criança! Uma adolescente, queres mesmo condenar a sua filha? — ela gritava, a voz quebrada pelo choro. — Ela ainda nem mulher é! Só tem 17 anos, Gustavo! Como você pode pensar em casá-la com um homem que tem a idade do seu pai? Não, pior, a idade do seu avô, Gustavo!
As palavras dela ecoaram em minha mente, me atingindo com a força de um trem desgovernado. Eu sabia que mamãe estava certa, mas ouvir aquilo em voz alta, saber que minha própria mãe via minha situação como um sacrifício, me quebrou de uma maneira que eu nunca imaginei ser possível.
Enquanto as palavras de mamãe preenchiam a casa, papai tentava se justificar, mas sua voz soava fraca e cheia de desespero.
— Eu não vejo outra saída, Bianca... — ele balbuciava, como se estivesse falando consigo mesmo. — É a única maneira de salvar a fazenda. Se Suraya se casar com o Sr. Fonseca, ele perdoará nossas dívidas, pagará todas as contas, eu vou propor isso... e nós poderemos manter nosso lar.
— Ao custo da vida da nossa filha? Isso é sério! Não, posso crê no que estou a ouvir — mamãe retrucou, a voz carregada de uma fúria impotente. — Como você pode sequer considerar isso, Gustavo? Ela é sua filha, nossa menina! E você quer vendê-la como se fosse uma simples mercadoria!
As palavras dela fizeram meu coração parar por um momento. A ideia de que papai estava disposto a me "vender" para salvar a fazenda era insuportável. Não conseguia entender como ele podia cogitar algo tão cruel. Mas, ao mesmo tempo, eu via o desespero em seus olhos, a maneira como ele se agarrava à ideia de que esse sacrifício era o único caminho.
As vozes de meus pais continuavam a ecoar pela casa, misturadas com soluços e gritos. Eu, Anaya e Ayana estávamos quietas, sem saber o que fazer ou dizer. Sabíamos que nossa vida havia mudado para sempre, mas estávamos impotentes para mudar o curso dos acontecimentos.
— Suraya, o que vamos fazer? — sussurrou Ayana, a voz trêmula.
Eu não tinha uma resposta. Não sabia o que fazer. Tudo o que queria era fugir, desaparecer e acordar de um pesadelo que, infelizmente, era a minha realidade.
Anaya apertou minha mão, o toque dela me trazendo de volta ao presente.
— Não podemos deixar que isso aconteça, Suraya — disse ela, sua voz firme apesar das lágrimas nos olhos. — Você não pode se casar com ele. Vamos encontrar uma maneira de sair dessa...
Eu queria acreditar nela, queria desesperadamente encontrar uma saída, mas no fundo, sabia que papai estava convencido de que esse era o único caminho. E o que mais me assustava era a ideia de que, no fundo, ele poderia estar certo. A fazenda estava à beira da ruína, nossas dívidas eram impagáveis, e a única oferta de salvação vinha de um homem que eu desprezava com cada fibra do meu ser.
Quando os gritos finalmente cessaram, a casa mergulhou em um silêncio pesado, como se todos os sons tivessem sido sugados para um abismo. O relógio na parede parecia marcar cada segundo com um som ensurdecedor, enquanto o resto do mundo parava.
Mamãe entrou na sala, seus olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Ela se aproximou de nós, e por um momento, achei que ia desabar. Mas, com uma força que só as mães parecem ter, ela nos puxou para um abraço apertado, como se quisesse nos proteger de todo o mal do mundo.
— Vamos dar um jeito nisso — murmurou ela, embora sua voz tremesse. — De algum jeito, vamos encontrar uma saída.
Eu queria acreditar nela, queria acreditar que havia uma solução, mas as palavras de papai ainda ecoavam em minha mente, me enchendo de medo e desespero.
— Suraya... — começou papai, entrando na sala com passos hesitantes. Ele parecia um homem derrotado, seu rosto marcado por rugas que eu nunca havia notado antes. — Sei que você deve me odiar agora, mas preciso que entenda, meu amor... Não vejo outra opção.
Eu queria gritar, queria dizer a ele que sim, eu o odiava por me colocar nessa posição. Mas as palavras ficaram presas na minha garganta. Eu estava tão assustada, tão confusa, que não conseguia articular meus sentimentos.
— Vamos discutir isso amanhã, Gustavo — cortou mamãe, sua voz firme. — Hoje, nossas filhas precisam descansar. Nós todos precisamos.
Papai assentiu, parecendo mais velho do que nunca, e saiu da sala em silêncio. Mamãe nos guiou até o nosso quarto, e deitamos juntas, como costumávamos fazer quando éramos pequenas, em busca de conforto e proteção uma na outra.
A noite estava fria, e o silêncio da casa parecia gritar em meus ouvidos. Deitada entre Anaya e Ayana, eu não conseguia fechar os olhos. A imagem do velho, com seu olhar faminto, não saía da minha mente. O medo de que a decisão já estivesse tomada me mantinha acordada, o pânico crescendo dentro de mim.
— Suraya... — sussurrou Anaya, sua voz mal se ouvindo na escuridão. — Vamos fugir. Podemos sair daqui antes que eles façam algo.
— E para onde iríamos? — murmurei de volta, tentando controlar o tremor na minha voz.
— Não sei, mas qualquer lugar é melhor do que aqui, não é? — Ayana se juntou à conversa, sua voz cheia de esperança desesperada.
Eu sabia que elas estavam tentando encontrar uma solução, tentando me proteger, elas só queriam me ajudar. Mas também sabia que fugir não seria tão simples. Não tínhamos para onde ir, e o mundo lá fora era cruel e impiedoso. E, mais importante, não conseguíamos fugir do destino que parecia nos agarrar como um predador pronto para atacar.
Mamãe voltou ao quarto e se sentou ao nosso lado, acariciando nossos cabelos como fazia quando éramos crianças. Seus olhos estavam fixos em um ponto distante, como se estivesse buscando respostas em um lugar que nós não podíamos alcançar.
— Vai ficar tudo bem, minhas meninas... — ela sussurrou, mas nem mesmo ela parecia acreditar nas próprias palavras.
O desespero em sua voz me fez perceber a gravidade da situação. Por mais que eu quisesse, por mais que todas nós quiséssemos acreditar que haveria uma saída, algo me dizia que estávamos prestes a enfrentar algo muito maior do que podíamos imaginar.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelos nossos próprios pensamentos, cada uma perdida em seus medos e angústias. Eu, particularmente, me sentia esmagada pelo peso da responsabilidade que estava sendo colocada sobre meus ombros. Como poderia aceitar um destino tão cruel? Mas como poderia rejeitá-lo, sabendo que nossa família estava à beira da destruição? E eu, era a única que poderia dar uma solução para a minhas irmãs, uma possibilidade de uma vida melhor.
A noite passou devagar, e quando o primeiro raio de sol entrou pela janela, eu soube que minha vida nunca mais seria a mesma. E, mais uma vez, eu me perguntava o que o futuro reservava para mim, para nós?
Mas uma coisa era certa: a batalha estava apenas começando, e eu precisaria de toda a coragem que pudesse reunir para enfrentar o que estava por vir. Porque, no fundo, eu sabia que o acordo do Sr. Fonseca não era apenas uma proposta. Era uma sentença. E agora, cabia a mim decidir se iria lutar contra ela... ou me render.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Marly G Vieira
tadinha ela ela só tem 17 anos
2025-02-22
1
Fatima Vieira
pai cafajeste
2025-01-31
1