O primeiro raio de sol atravessou a janela do meu quarto, iluminando o espaço com uma luz suave, mas o calor que deveria trazer conforto apenas realçava o frio que sentia por dentro. Eu mal havia pregado os olhos durante a noite, e quando finalmente me deixei sucumbir ao cansaço, os pesadelos me acordaram, ofegante e assustada. Ao meu lado, Anaya e Ayana ainda dormiam, seus rostos pacíficos contrastando com o turbilhão de emoções que agitava meu coração.
Eu me sentei na cama, Tentando ordenar os pensamentos, mas a sensação de desesperança apenas crescia. O peso das últimas 24 horas era insuportável, e as palavras do velho Fonseca ecoavam na minha mente como uma sentença de morte.
— Suraya? — a voz suave de Anaya me tirou de meus pensamentos. Ela abriu os olhos lentamente, piscando contra a luz do sol que começava a invadir o quarto. — Você não dormiu nada, não é?
— Como poderia? — sussurrei, olhando para ela com uma tristeza que parecia transbordar. — Não consigo parar de pensar em tudo isso... Não consigo acreditar que isso está acontecendo.
Ayana, que havia acordado em silêncio, se juntou à conversa, seus olhos grandes e preocupados.
— Talvez haja uma saída... — ela sugeriu, mas sua voz não tinha convicção. — E se... e se fugíssemos? Ontem à noite, falamos sobre isso, mas... poderíamos tentar, não é?
Eu balancei a cabeça, sabendo que, por mais desesperador que fosse o plano, ele não resolveria nossos problemas. O Sr. Fonseca era um homem poderoso, com recursos e influência, e não éramos mais do que crianças tentando sobreviver em um mundo de adultos.
— Fugir para onde, Ayana? — perguntei, a voz pesada de cansaço. — E como viveríamos? Como escaparíamos do controle dele?
Anaya suspirou, seus ombros caindo sob o peso da realidade.
— Talvez a única saída seja enfrentar isso... — ela murmurou, como se estivesse falando para si mesma. — Talvez... seja preciso fazer algum sacrifício.
As palavras dela me atingiram como uma bofetada. Era como se estivéssemos todas sendo empurradas para um abismo sem fim, e a única escolha que tínhamos era nos jogar ou seremos empurradas.
Mas antes que pudesse responder, ouvi o som de passos apressados subindo as escadas. O coração disparou em meu peito, e as três nos entreolhamos com medo, tentando adivinhar o que estava por vir. A porta se abriu com força, revelando mamãe, com o rosto pálido e os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Vocês precisam descer agora — disse ela, sua voz tensa, quase um sussurro. — O café está pronto, e precisamos falar sobre o que vai acontecer a partir de agora.
— E o papai? — Anaya perguntou, sua voz carregada de preocupação.
Mamãe hesitou por um instante, antes de responder.
— Ele... ele está no escritório. Não saiu de lá desde ontem à noite.
O peso das palavras dela caiu sobre nós como uma pedra. Papai, o homem que sempre foi nosso pilar, agora estava afundado no desespero, trancado no escritório, buscando consolo em uma garrafa. O que restava dele era uma sombra do homem que conhecíamos.
Descemos juntas, nossos passos ecoando no silêncio pesado da casa. A cozinha, que antes era um lugar de conforto, agora parecia uma câmara de tortura. A mesa estava posta, mas o lugar do papai estava vazio, uma lembrança cruel de que nossa família estava desmoronando.
Mamãe nos serviu em silêncio, seus movimentos automáticos, como se ela estivesse tentando se manter ocupada para não pensar na realidade. O cheiro do café fresco e do pão recém-saído do forno enchia o ar, mas eu não conseguia sentir apetite. Cada mordida era amarga, como se estivesse mastigando minha própria angústia.
— O que vamos fazer, mamãe? — perguntei finalmente, a voz quase inaudível.
Ela colocou sua xícara de café sobre a mesa, os olhos fixos no líquido escuro como se estivesse buscando respostas ali.
— Precisamos falar com seu pai... — disse ela, finalmente levantando o olhar para mim. — Ele precisa entender que essa não pode ser a única solução.
Mas antes que pudéssemos continuar a conversa, o som de passos ecoou pelo corredor. Era o papai. Ele entrou na cozinha, o rosto abatido, os olhos fundos e cansados, com a barba por fazer. Parecia ter envelhecido anos em uma única noite. Sem olhar para nenhuma de nós, ele se dirigiu à mesa e sentou-se, pegando a garrafa de cachaça que estava em sua mão. Encheu um copo e o bebeu de uma só vez, sem dizer uma palavra.
— Gustavo, por favor... — mamãe começou, mas ele a interrompeu com um gesto brusco.
— Não adianta, Bianca... — sua voz estava rouca, desesperançada. — Eu já decidi. É isso ou perderemos tudo e vivemos na rua como mendigo.
Senti um nó se formar na garganta, a vontade de chorar queimando meus olhos. Como papai podia ser tão insensível? Como ele podia me colocar nessa posição? Moeda de troca?
— Papai... — minha voz saiu trêmula. — Não pode me obrigar a isso... Não posso me casar com ele.
Ele finalmente olhou para mim, e o que vi em seus olhos me quebrou completamente. Havia dor ali, mas também havia uma decisão final, uma resolução que me aterrorizava.
— Suraya... — ele disse, a voz cheia de tristeza. — Não é o que eu quero, mas não vejo outra saída. O Sr. Fonseca é um homem poderoso, cruel quando quer e ele prometeu que, se você se casar com ele, não só perdoará a dívida, mas também nos ajudará a manter a fazenda. Não posso arriscar perder tudo. Não posso arriscar deixar vocês sem um teto, sem nada. Está é a última jogada...
As palavras dele me atingiram como um golpe, e percebi que não havia como escapar dessa situação. Papai estava disposto a sacrificar meu futuro, minha felicidade, para salvar a fazenda, e ele acreditava que estava fazendo o melhor para todos nós.
Mamãe soltou um suspiro profundo, a expressão em seu rosto indicando que ela sabia que essa conversa não levaria a lugar nenhum. Ela tentou se manter forte por mim, mas eu podia ver o desespero em seus olhos, o medo de que estávamos sendo forçadas a algo que nenhuma de nós queria.
— Não precisa ser assim... — disse mamãe, embora sua voz soasse frágil. — Ainda há tempo para encontrar outra solução.
— Que outra solução? — papai retrucou, a voz aumentando de volume. — Não há mais tempo, Bianca! A carta esta na mesa, essa é a única saída, e precisamos aceitá-la, gostemos ou não!
As lágrimas encheram meus olhos, e antes que pudesse ser consumida pelo desespero, me levantei bruscamente da mesa, empurrando a cadeira com força. Eu precisava sair dali, precisava de ar, de espaço, de qualquer coisa que me afastasse daquela realidade sufocante.
— Suraya, espere! — mamãe chamou, mas eu já estava correndo para fora da cozinha, ignorando os olhares preocupados de Anaya e Ayana.
Saí da casa, sentindo o sol quente contra minha pele, mas o calor não conseguia aquecer a frieza que havia se alojado em meu coração. Eu precisava encontrar uma solução, precisava de ajuda, e só havia uma pessoa em quem eu podia confiar naquele momento.
Heitor.
Ele sempre tinha sido meu porto seguro, meu confidente. Se havia alguém que poderia me ajudar a escapar dessa armadilha, era ele. Eu sabia onde ele estaria; no campo, perto do riacho onde costumávamos nos encontrar.
Corri pelos campos, sentindo o vento passar pelos meus cabelos, o som das folhas sussurrando ao meu redor. Mas, ao chegar ao local onde sempre encontrava Heitor, meu coração parou. O lugar estava vazio, apenas o som do riacho correndo suavemente, como se zombasse do meu desespero.
— Heitor! — chamei, minha voz ecoando pelo vale. Mas não houve resposta.
O pânico começou a crescer dentro de mim. Onde ele estava? Por que não estava aqui?
Continuei a procurar, andando de um lado para o outro, chamando por ele, mas o silêncio era a única resposta que eu recebia. O desespero me dominou, e eu caí de joelhos perto da beira do riacho, lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
— Por favor, Heitor... onde você está? — sussurrei, sentindo a impotência tomar conta de mim.
As horas passaram lentamente, e eu continuei a esperar, rezando para que ele aparecesse, para que pudesse me salvar dessa situação terrível. Mas, conforme o sol começava a se pôr, a realidade se tornou clara como cristal.
Heitor havia desaparecido.
O que isso significava? Será que ele sabia sobre o que estava acontecendo? Será que havia fugido, me abandonando no momento em que mais precisava dele?
Com o coração pesado e o medo crescendo a cada segundo, comecei a voltar para casa, o peso do mundo em meus ombros . As sombras da noite começaram a se estender sobre o campo, e eu sabia que a decisão de papai estava se aproximando, e com ela, a inevitabilidade de um futuro que eu não conseguia aceitar.
Ao retornar para a casa, o silêncio estava ainda mais profundo. Mamãe, Anaya e Ayana estavam à mesa, esperando por mim, seus olhares carregados de preocupação.
— Não conseguimos encontrá-lo... — minha voz era um sussurro, quase inaudível. — Heitor desapareceu.
O desespero nos olhos de mamãe era quase tangível, e eu sabia que estava em uma encruzilhada. A decisão que papai havia tomado não poderia ser revertida facilmente, e agora, com Heitor fora de alcance, a sensação de que estava completamente sozinha era esmagadora.
O futuro parecia se desintegrar diante dos meus olhos, e eu sabia que precisava encontrar uma solução antes que fosse tarde demais. A noite estava apenas começando, e o verdadeiro desafio ainda estava por vir.
A batalha não era apenas sobre salvar a fazenda ou fugir do casamento arranjado; era uma luta pela própria alma, pela esperança e pela liberdade. E, com Heitor desaparecido, eu estava mais perdida do que nunca.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Erly Moreira
sabe se lá o que falaram dela pra ele.pra ter sumido
2025-01-23
1
Livia Pereira
o pai dele com certeza o mandou pra bem longe, e o medo de ficar sem emprego, sem moradia ?
2024-12-18
1
Operons Cameluns
É verdade , o que será que ouve com o Heitor!
2024-10-19
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