O sol ainda não havia se posto, mas já sentíamos o cansaço do dia. Estávamos nas plantações de laranjas, eu, Anaya e Ayana. A terra quente sob nossos pés, os aromas das árvores e o zumbido distante dos insetos compunham o cenário de uma tarde qualquer em Belo Monte. As laranjas maduras nos atraíam, brilhando entre as folhas, quase que nos chamando para colhê-las. Não resistíamos à tentação de pegar algumas, como fazíamos tantas outras vezes, quase como um ritual inocente.
Enquanto colhíamos as laranjas, ríamos e brincávamos, esquecendo por um momento as tensões em casa. O cheiro doce das frutas recém-colhidas misturava-se com o suor que escorria pelo meu rosto. Sentia uma certa liberdade nesses pequenos atos de rebeldia, um breve escape da realidade que nos cercava.
— Vamos, Suraya! — disse Ayana, rindo enquanto enchia sua cesta. — Vamos pegar mais, antes que alguém nos veja!
— Heitor vai nos pegar de novo — respondi, rindo com ela. — Mas ele não vai fazer nada, como sempre.
Heitor, filho do capataz, era nosso amigo e cúmplice em nossas travessuras. Ele sempre nos via, mas nunca nos denunciava. Havia algo de reconfortante em saber que, ao menos ali, tínhamos alguém que cuidava de nós, ainda que em segredo.
Mas, naquele dia, algo diferente aconteceu. Enquanto ríamos e nos movíamos entre as árvores, ouvimos o som de passos pesados se aproximando. Não era Heitor. Era um grupo de homens, e à frente deles, um homem que eu nunca tinha visto antes.
— Quem são essas meninas? — perguntou o estranho, com uma voz grave que fez o sangue gelar nas minhas veias.
Ele era alto, com uma presença que imediatamente dominava o espaço. Seu olhar era duro, implacável, e ao mesmo tempo... curioso. Havia algo no modo como ele nos olhava que me incomodava profundamente, como se estivesse nos avaliando, nos julgando.
— São filhas do Sr. Gustavo, o dono da fazenda vizinha aqui os Lemos Monteiro — respondeu um dos trabalhadores, quase que num sussurro, temeroso de dizer algo errado.
O homem avançou até onde estávamos, e pela primeira vez, senti o peso real do medo. Ele parou diante de mim, seus olhos fixos nos meus. Tentei não desviar o olhar, mas a intensidade com que ele me encarava era desconcertante.
— Como se chamam? — perguntou ele, mais para si mesmo do que para nós.
— Sou Suraya... estas são minhas irmãs, Ayana e Anaya — respondi, tentando manter a voz firme, mas a verdade é que eu estava tremendo por dentro.
Ele se abaixou levemente, ainda mantendo aquele olhar intenso, e pegou uma laranja de minha cesta. Examinou-a por um momento antes de levá-la ao nariz e inalar seu aroma. Era quase como se ele estivesse degustando a própria essência da nossa liberdade.
— Sabe que é proibido roubar as frutas da fazenda, não sabe? — disse, num tom que misturava acusação e diversão.
Engoli seco, sentindo a tensão crescer ao redor. Os outros trabalhadores observavam a cena em silêncio, como se temessem o que poderia acontecer a seguir.
— Nós... só pegamos algumas, não faz mal, senhor — respondi, tentando apelar para alguma parte dele que pudesse entender nossa inocência.
— Não faz mal, é? — Ele repetiu minhas palavras, pensativo, antes de olhar novamente para mim. — Há consequências para tudo, menina. Mas... — Ele parou, como se reconsiderasse. — Talvez, desta vez, eu possa ser mais... leniente.
Havia algo de predatório no sorriso que ele me lançou. Senti um frio percorrer minha espinha. Pela primeira vez, desejei não estar ali, não ter cruzado o caminho daquele homem. Ele entregou a laranja de volta para mim, mas a forma como seus dedos roçaram os meus fez meu estômago se revirar.
— Vão embora, antes que eu mude de ideia — ordenou ele, finalmente se afastando, mas não sem antes lançar um último olhar em minha direção.
Não demoramos a obedecer. Com as cestas de laranjas ainda nas mãos, corremos até estarmos longe o suficiente, o mais longe que pudemos das plantações e daquele homem. Quando finalmente paramos, estávamos ofegantes, e os olhos de minhas irmãs refletiam o mesmo pavor que eu sentia.
— Quem era aquele homem? — perguntou Anaya, com a voz trêmula.
— Não sei... mas não gosto dele — respondi, ainda tentando entender o que havia acontecido.
Afastando-nos apressadamente das terras de La Rosa, eu, Anaya e Ayana tentávamos nos recompor. O coração ainda batia descompassado no meu peito, e a imagem daquele velhote permanecia gravada em minha mente como uma sombra ameaçadora. O caminho de volta parecia mais longo do que o normal, e o silêncio entre nós era apenas interrompido pelo som de nossos passos rápidos sobre as folhas secas que cobriam o solo.
— Suraya, o que vamos fazer? — sussurrou Anaya, sua voz ainda trêmula.
— Nada, Anaya. Vamos esquecer o que aconteceu e nunca mais voltar lá, está bem? — respondi, tentando soar mais confiante do que realmente me sentia.
— Eu não quero voltar lá nunca mais! — exclamou Ayana, quase em prantos. Foi então que notei que suas roupas estavam molhadas.
— Ayana... você... fez xixi? — perguntei, surpresa.
Ela apenas assentiu com a cabeça, os olhos marejados de lágrimas. O medo que sentimos era palpável, algo que nenhuma de nós conseguia explicar. O homem era mais do que apenas um estranho; ele era uma ameaça real que tinha nos abalado profundamente.
Ao chegarmos ao riacho que separava as terras da nossa fazenda das de La Rosa, paramos por um momento. As pedras que formavam uma pequena ponte natural estavam escorregadias, e atravessamos com cuidado, segurando uma à outra. Quando finalmente pisamos em nosso lado das terras, senti um breve alívio, como se tivéssemos deixado o perigo para trás, mesmo que apenas por um instante.
Os trabalhadores da nossa fazenda estavam sentados à sombra de algumas árvores, descansando após um longo dia de trabalho. Vi que muitos deles tinham a mesma expressão cansada e abatida que minha mãe sempre carregava. O cansaço, o peso das dificuldades, estavam estampados em cada rosto.
Ao avistar-nos, mamãe, levantou-se rapidamente e veio ao nosso encontro. Ela estava com as mãos na cintura, uma expressão de preocupação misturada com raiva em seu rosto.
— Onde vocês estavam, meninas? — ela perguntou, a voz firme.
— Mãe, só fomos pegar algumas laranjas... — tentei explicar, mas ela me interrompeu.
— Laranjas? Vocês estão malucas meu Deus! Estavam na fazenda La Rosa? — Bianca parecia chocada. — Vocês sabem que é proibido ir lá! O que vocês estavam pensando?
— Desculpe, mamãe. Nós não sabíamos que era tão sério... — disse Anaya, sua voz tímida.
— Não sabiam? E se alguém tivesse pegado vocês? Se o dono estivesse lá? Vocês não têm noção dos perigos que correm! — Mamãe Bianca balançou a cabeça, desapontada. — Vocês têm sorte de não terem sido pegas.
Ela não fazia ideia de que possivelmente o proprietário havia nos pegos, e que estava em Belo Monte, e menos ainda do quanto aquele encontro havia nos assustado. Não quisemos preocupar ainda mais nossa mãe, então não contamos sobre o que realmente havia acontecido. Ainda assim, o medo não desaparecia.
A tarde se arrastou. Após o trabalho nas plantações, voltei para casa com minhas irmãs. Papai Gustavo estava mais calado do que o normal, o que era um mau sinal. Ele parecia pensativo, como se estivesse planejando algo, e essa sensação não me deixava tranquila.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Deigues Costa
sei bem oq elas passaram. quando era criança as laranjas e jáboticabas do vizinho era sempre mais doce kkk. Mas quando pegava agente saia correndo morrendo de medo
2025-03-29
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