Capítulo 4: O Peso da Dívida

O som insistente do despertador preencheu o silêncio do quarto, me arrancando de um sono inquieto. Estava escuro ainda, as primeiras luzes do amanhecer apenas começando a romper o horizonte. Cada manhã em Belo Monte parecia começar mais cedo que a anterior, mas naquela em particular, havia uma tensão no ar que eu não conseguia ignorar.

Enquanto me vestia, minha mente não parava de girar em torno da preocupação constante que rondava nossa família: as finanças. Desde que me entendia por gente, o dinheiro sempre fora uma questão delicada na fazenda. Mas agora, parecia que a situação estava se tornando insustentável. Eu podia ver isso nos olhos do meu pai, cada vez mais sombrios e exaustos, como se ele estivesse carregando o peso do mundo nos ombros.

Saí do quarto e fui direto para a cozinha. Mamãe, já estava lá, preparando o café da manhã. Ela parecia ainda mais abatida do que o normal. As olheiras escuras em seu rosto mostravam que ela, assim como eu, não tinha dormido bem. Mas, como sempre, ela tentava manter as aparências, mesmo quando tudo ao nosso redor parecia estar desmoronando.

– Bom dia, mamãe – eu disse, tentando soar animada.

– Bom dia, minha filha – ela respondeu, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. – Pode levar esses pratos para a mesa? Seu pai deve estar descendo logo.

Peguei os pratos e os coloquei na mesa. O cheiro de café fresco enchia a cozinha, mas não conseguia afastar o frio que sentia no estômago. Quando Anaya e Ayana chegaram à mesa, logo atrás do meu pai, o ambiente ficou carregado de uma tensão que todos percebíamos, mas que ninguém se atrevia a mencionar.

Sentamos em silêncio, comendo nossa refeição de forma mecânica. Papai, com sua expressão fechada e olhar distante, parecia mais preocupado do que nunca. Era como se uma nuvem negra pairasse sobre sua cabeça, e a cada dia ela parecia mais densa.

Não demorou muito para que a primeira faísca da manhã fosse acesa. Ele colocou a xícara de café sobre a mesa com mais força do que o necessário, fazendo com que o líquido escuro transbordasse ligeiramente pela borda.

– As dívidas estão se acumulando, Bianca – ele disse, sem olhar para ninguém em particular, mas suas palavras eram um tiro direto na atmosfera já tensa. – A safra não rendeu como esperávamos, e agora os credores estão batendo à porta.

Minha mãe suspirou profundamente, mas não respondeu de imediato. Todos nós sabíamos que ela estava ciente da situação, mas discutir sobre isso só parecia agravar o problema.

– Gustavo, nós já conversamos sobre isso – ela começou, tentando manter a voz calma. – Estamos fazendo o melhor que podemos. Não há como fazer o dinheiro aparecer do nada.

A menção às dívidas sempre provocava esse tipo de reação nele. Meu pai era um homem orgulhoso, e a ideia de que estava falhando em sustentar a família corroía sua alma. A pressão financeira estava esmagando-o, e eu podia ver que ele estava à beira do colapso.

– O melhor que podemos não é o suficiente – ele retrucou, sua voz ficando mais alta. – Estamos afundando, Bianca! Se não fizermos algo logo, vamos perder tudo!

Eu, Anaya e Ayana trocamos olhares preocupados. Essas discussões estavam se tornando cada vez mais frequentes, e cada vez mais intensas. Era difícil assistir ao desespero de nossos pais sem sentir um aperto no peito.

Depois de mais algumas trocas amargas, meu pai se levantou abruptamente, deixando a mesa antes de terminar a refeição. O som de seus passos pesados ecoou pela casa enquanto ele saía, provavelmente indo para o escritório, onde passava horas analisando os livros de contabilidade, buscando alguma solução mágica que aliviasse a pressão financeira ou então bebendo.

Mamãe ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos na xícara de café que ela ainda segurava, como se estivesse tentando encontrar conforto no calor do líquido.

– Mãe, o que vamos fazer? – Ayana finalmente perguntou, a voz suave e hesitante.

Ela ergueu o olhar, forçando outro sorriso, mas era evidente que ela estava tão perdida quanto nós.

– Vamos continuar tentando, querida – ela respondeu, com uma calma que soou mais como uma tentativa de acalmar a si mesma do que a nós. – Vamos encontrar uma saída. Sempre encontramos, não é? A final somos os Monteiro.

Mas, naquela manhã, suas palavras soaram vazias. Até mesmo eu, que sempre tentei manter a esperança, comecei a duvidar de que conseguiríamos escapar da sombra crescente das dívidas.

Depois do café da manhã, as tarefas na fazenda começaram como de costume, mas havia um peso sobre nossos ombros que não estava presente antes. Enquanto ajudava minha mãe a cuidar do jardim e das galinhas, eu não conseguia parar de pensar no que meu pai dissera. As dívidas estavam se acumulando. A safra não rendeu. Os credores estavam batendo à porta.

Essas palavras ecoavam na minha mente, misturando-se com o canto distante dos pássaros e o farfalhar das folhas. Sabia que as coisas estavam ruins, mas não tinha percebido que estávamos tão próximos do abismo.

Mais tarde, no final da tarde, meu pai nos chamou para uma reunião na sala de estar. Isso era algo raro. Normalmente, ele lidava com os problemas sozinho, talvez tentando nos poupar do peso das responsabilidades que carregava. Mas agora, parecia que ele precisava de nós para enfrentar a tempestade.

Sentamo-nos no sofá, com a luz do pôr do sol entrando pela janela e lançando sombras longas na parede. Papai estava em pé, segurando um maço de papéis em uma das mãos. Sua expressão era sombria, mas havia uma determinação em seus olhos que não víamos há algum tempo.

– Não há mais como evitar a verdade – ele começou, olhando para cada uma de nós. – Estamos à beira da falência. Se não fizermos algo agora, perderemos a fazenda, nossa casa, tudo.

As palavras caíram como pedras no silêncio da sala. Olhei para minha mãe, que estava sentada ao meu lado, e vi a dor em seus olhos. Ela já sabia, é claro, mas ouvir aquilo dito em voz alta fazia tudo parecer ainda mais real.

– Gustavo, o que você está planejando? – minha mãe perguntou, a voz trêmula.

Ele respirou fundo antes de responder.

– Estou pensando em vender parte da fazenda – ele disse, como se a própria ideia o machucasse. – É a única forma de conseguir dinheiro suficiente para pagar as dívidas mais urgentes. Se conseguirmos manter uma parte da terra, podemos começar de novo, com menos pressão.

Anaya, sempre prática, foi a primeira a reagir.

– Isso vai resolver o problema? Ou só vai nos dar mais tempo? – ela perguntou, com a franqueza que lhe era característica.

Papai a encarou, como se considerasse a pergunta por um momento.

– Talvez só nos dê mais tempo – ele admitiu. – Mas é melhor do que ficar parado enquanto tudo desmorona ao nosso redor.

Houve um silêncio pesado enquanto todos digeriam suas palavras. Sabíamos que não havia uma solução fácil, mas a ideia de vender parte da fazenda, de perder uma parte de nossa história, era dolorosa.

Ayana, que até então permanecera calada, finalmente falou.

– E se não for o suficiente, papai? – ela perguntou, com os olhos marejados.

Papai abaixou a cabeça, como se a pergunta tivesse perfurado suas defesas.

– Então faremos o que for necessário – ele disse, sua voz quase um sussurro. – Lutaremos até o fim, juntos.

A reunião terminou com poucas palavras. A decisão ainda estava no ar, mas o peso da escolha pairava sobre nós. Sentíamos que, de uma forma ou de outra, nossas vidas estavam prestes a mudar para sempre.

Naquela noite, enquanto me deitava, não conseguia afastar a sensação de que estávamos à beira de algo grande e inevitável. O vento soprava suavemente lá fora, fazendo as árvores sussurrarem no escuro. Fechei os olhos, tentando encontrar consolo na escuridão, mas minha mente estava cheia de pensamentos sobre o futuro incerto que nos aguardava.

O que quer que estivesse por vir, eu sabia que precisaria ser mais forte do que nunca. E, pela primeira vez, me perguntei se realmente estávamos preparados para o que viria a seguir.

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Comments

Fatima Vieira

Fatima Vieira

elas são inteligentes

2025-01-31

1

Livia Pereira

Livia Pereira

Bom de burra nenhuma das três são, pois souberam o que perguntar

2024-12-18

1

Ver todos
Capítulos
1 Prólogo
2 Capítulo 1: Vida em Belo Monte
3 Capítulo 2: A Casa em Desarmonia
4 Capítulo 3: Laços de Sangue e Coração
5 Capítulo 4: O Peso da Dívida
6 Capítulo 5: Segredos à Luz do Entardecer
7 Capítulo 6: Sombras Sobre a Mesa
8 Capítulo 7: O Declínio Silencioso
9 Capítulo 8: O Clímax do Conflito
10 Capítulo 9: Sonhos em Meio ao Café Amargo
11 Capítulo 10: A Chegada do Senhor Fonseca Abreu
12 Capítulo 11: O Encontro que Mudou Tudo
13 Capítulo 12: O Erro Fatal - A Aposta Maldita
14 Capítulo 13: O Acordo Sombrio - Porquê eu?
15 Capítulo 14: O Peso da Escolha
16 Capítulo 15: A Última Carta
17 Capítulo 16: O Desespero da Impossibilidade
18 Capítulo 17: Preparativos para o Casamento
19 Capítulo 18: O Casamento
20 Capítulo 19: A Viagem para a Cidade Grande
21 Capítulo 20: Chegada à Cidade Grande
22 Capítulo 21: A Vida Luxuosa e Sufocante na Mansão de Fonseca
23 Capítulo 22: A Dama da Mansão
24 Capítulo 23: O Jantar dos Poderosos
25 Capítulo 24: No Silêncio da Mansão
26 Capítulo 25: O Despertar de um Monstro
27 Capítulo 26: A Revelação do Cativeiro
28 Capítulo 27: A Sombra da Liberdade
29 Capítulo 28: A Virada de uma Vida
30 Capítulo 29: No Limiar de Sentimentos
31 Capítulo 30: Sob o Véu do Desconhecido
32 Capítulo 31: Adeus, Dubai; Olá, Lagoas
33 Capítulo 32: A Casa Nova, O Novo Eu
34 Capítulo 33: As Correntes Invisíveis
35 Capítulo 34: Um Novo Horizonte
36 Capítulo 35: Sob o Peso da Ira e do Desejo
37 Capítulo 36: Um Conto de Fadas na Realidade
38 Capítulo 37: Duas Vidas, Um Amor: Entre a Realidade e o Disfarce
39 Capítulo 38: Entre Dois Mundos: O Agito do Campus e a Realidade do Poder
40 Capítulo 39: Suspiros à Meia-Luz
41 Capítulo 40: O Veneno do Silêncio
42 Capítulo 41: Desespero e Solidão
43 Capítulo 42: O Funeral da Esperança
44 Capítulo 43: Quando Tudo Estava Contra Mim?
45 Capítulo 44: Os Muros da Injustiça
46 Capítulo 45: O Veredito Final
47 Série Sombras de Um Amor Fatal
Capítulos

Atualizado até capítulo 47

1
Prólogo
2
Capítulo 1: Vida em Belo Monte
3
Capítulo 2: A Casa em Desarmonia
4
Capítulo 3: Laços de Sangue e Coração
5
Capítulo 4: O Peso da Dívida
6
Capítulo 5: Segredos à Luz do Entardecer
7
Capítulo 6: Sombras Sobre a Mesa
8
Capítulo 7: O Declínio Silencioso
9
Capítulo 8: O Clímax do Conflito
10
Capítulo 9: Sonhos em Meio ao Café Amargo
11
Capítulo 10: A Chegada do Senhor Fonseca Abreu
12
Capítulo 11: O Encontro que Mudou Tudo
13
Capítulo 12: O Erro Fatal - A Aposta Maldita
14
Capítulo 13: O Acordo Sombrio - Porquê eu?
15
Capítulo 14: O Peso da Escolha
16
Capítulo 15: A Última Carta
17
Capítulo 16: O Desespero da Impossibilidade
18
Capítulo 17: Preparativos para o Casamento
19
Capítulo 18: O Casamento
20
Capítulo 19: A Viagem para a Cidade Grande
21
Capítulo 20: Chegada à Cidade Grande
22
Capítulo 21: A Vida Luxuosa e Sufocante na Mansão de Fonseca
23
Capítulo 22: A Dama da Mansão
24
Capítulo 23: O Jantar dos Poderosos
25
Capítulo 24: No Silêncio da Mansão
26
Capítulo 25: O Despertar de um Monstro
27
Capítulo 26: A Revelação do Cativeiro
28
Capítulo 27: A Sombra da Liberdade
29
Capítulo 28: A Virada de uma Vida
30
Capítulo 29: No Limiar de Sentimentos
31
Capítulo 30: Sob o Véu do Desconhecido
32
Capítulo 31: Adeus, Dubai; Olá, Lagoas
33
Capítulo 32: A Casa Nova, O Novo Eu
34
Capítulo 33: As Correntes Invisíveis
35
Capítulo 34: Um Novo Horizonte
36
Capítulo 35: Sob o Peso da Ira e do Desejo
37
Capítulo 36: Um Conto de Fadas na Realidade
38
Capítulo 37: Duas Vidas, Um Amor: Entre a Realidade e o Disfarce
39
Capítulo 38: Entre Dois Mundos: O Agito do Campus e a Realidade do Poder
40
Capítulo 39: Suspiros à Meia-Luz
41
Capítulo 40: O Veneno do Silêncio
42
Capítulo 41: Desespero e Solidão
43
Capítulo 42: O Funeral da Esperança
44
Capítulo 43: Quando Tudo Estava Contra Mim?
45
Capítulo 44: Os Muros da Injustiça
46
Capítulo 45: O Veredito Final
47
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