O som insistente do despertador preencheu o silêncio do quarto, me arrancando de um sono inquieto. Estava escuro ainda, as primeiras luzes do amanhecer apenas começando a romper o horizonte. Cada manhã em Belo Monte parecia começar mais cedo que a anterior, mas naquela em particular, havia uma tensão no ar que eu não conseguia ignorar.
Enquanto me vestia, minha mente não parava de girar em torno da preocupação constante que rondava nossa família: as finanças. Desde que me entendia por gente, o dinheiro sempre fora uma questão delicada na fazenda. Mas agora, parecia que a situação estava se tornando insustentável. Eu podia ver isso nos olhos do meu pai, cada vez mais sombrios e exaustos, como se ele estivesse carregando o peso do mundo nos ombros.
Saí do quarto e fui direto para a cozinha. Mamãe, já estava lá, preparando o café da manhã. Ela parecia ainda mais abatida do que o normal. As olheiras escuras em seu rosto mostravam que ela, assim como eu, não tinha dormido bem. Mas, como sempre, ela tentava manter as aparências, mesmo quando tudo ao nosso redor parecia estar desmoronando.
– Bom dia, mamãe – eu disse, tentando soar animada.
– Bom dia, minha filha – ela respondeu, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos. – Pode levar esses pratos para a mesa? Seu pai deve estar descendo logo.
Peguei os pratos e os coloquei na mesa. O cheiro de café fresco enchia a cozinha, mas não conseguia afastar o frio que sentia no estômago. Quando Anaya e Ayana chegaram à mesa, logo atrás do meu pai, o ambiente ficou carregado de uma tensão que todos percebíamos, mas que ninguém se atrevia a mencionar.
Sentamos em silêncio, comendo nossa refeição de forma mecânica. Papai, com sua expressão fechada e olhar distante, parecia mais preocupado do que nunca. Era como se uma nuvem negra pairasse sobre sua cabeça, e a cada dia ela parecia mais densa.
Não demorou muito para que a primeira faísca da manhã fosse acesa. Ele colocou a xícara de café sobre a mesa com mais força do que o necessário, fazendo com que o líquido escuro transbordasse ligeiramente pela borda.
– As dívidas estão se acumulando, Bianca – ele disse, sem olhar para ninguém em particular, mas suas palavras eram um tiro direto na atmosfera já tensa. – A safra não rendeu como esperávamos, e agora os credores estão batendo à porta.
Minha mãe suspirou profundamente, mas não respondeu de imediato. Todos nós sabíamos que ela estava ciente da situação, mas discutir sobre isso só parecia agravar o problema.
– Gustavo, nós já conversamos sobre isso – ela começou, tentando manter a voz calma. – Estamos fazendo o melhor que podemos. Não há como fazer o dinheiro aparecer do nada.
A menção às dívidas sempre provocava esse tipo de reação nele. Meu pai era um homem orgulhoso, e a ideia de que estava falhando em sustentar a família corroía sua alma. A pressão financeira estava esmagando-o, e eu podia ver que ele estava à beira do colapso.
– O melhor que podemos não é o suficiente – ele retrucou, sua voz ficando mais alta. – Estamos afundando, Bianca! Se não fizermos algo logo, vamos perder tudo!
Eu, Anaya e Ayana trocamos olhares preocupados. Essas discussões estavam se tornando cada vez mais frequentes, e cada vez mais intensas. Era difícil assistir ao desespero de nossos pais sem sentir um aperto no peito.
Depois de mais algumas trocas amargas, meu pai se levantou abruptamente, deixando a mesa antes de terminar a refeição. O som de seus passos pesados ecoou pela casa enquanto ele saía, provavelmente indo para o escritório, onde passava horas analisando os livros de contabilidade, buscando alguma solução mágica que aliviasse a pressão financeira ou então bebendo.
Mamãe ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos na xícara de café que ela ainda segurava, como se estivesse tentando encontrar conforto no calor do líquido.
– Mãe, o que vamos fazer? – Ayana finalmente perguntou, a voz suave e hesitante.
Ela ergueu o olhar, forçando outro sorriso, mas era evidente que ela estava tão perdida quanto nós.
– Vamos continuar tentando, querida – ela respondeu, com uma calma que soou mais como uma tentativa de acalmar a si mesma do que a nós. – Vamos encontrar uma saída. Sempre encontramos, não é? A final somos os Monteiro.
Mas, naquela manhã, suas palavras soaram vazias. Até mesmo eu, que sempre tentei manter a esperança, comecei a duvidar de que conseguiríamos escapar da sombra crescente das dívidas.
Depois do café da manhã, as tarefas na fazenda começaram como de costume, mas havia um peso sobre nossos ombros que não estava presente antes. Enquanto ajudava minha mãe a cuidar do jardim e das galinhas, eu não conseguia parar de pensar no que meu pai dissera. As dívidas estavam se acumulando. A safra não rendeu. Os credores estavam batendo à porta.
Essas palavras ecoavam na minha mente, misturando-se com o canto distante dos pássaros e o farfalhar das folhas. Sabia que as coisas estavam ruins, mas não tinha percebido que estávamos tão próximos do abismo.
Mais tarde, no final da tarde, meu pai nos chamou para uma reunião na sala de estar. Isso era algo raro. Normalmente, ele lidava com os problemas sozinho, talvez tentando nos poupar do peso das responsabilidades que carregava. Mas agora, parecia que ele precisava de nós para enfrentar a tempestade.
Sentamo-nos no sofá, com a luz do pôr do sol entrando pela janela e lançando sombras longas na parede. Papai estava em pé, segurando um maço de papéis em uma das mãos. Sua expressão era sombria, mas havia uma determinação em seus olhos que não víamos há algum tempo.
– Não há mais como evitar a verdade – ele começou, olhando para cada uma de nós. – Estamos à beira da falência. Se não fizermos algo agora, perderemos a fazenda, nossa casa, tudo.
As palavras caíram como pedras no silêncio da sala. Olhei para minha mãe, que estava sentada ao meu lado, e vi a dor em seus olhos. Ela já sabia, é claro, mas ouvir aquilo dito em voz alta fazia tudo parecer ainda mais real.
– Gustavo, o que você está planejando? – minha mãe perguntou, a voz trêmula.
Ele respirou fundo antes de responder.
– Estou pensando em vender parte da fazenda – ele disse, como se a própria ideia o machucasse. – É a única forma de conseguir dinheiro suficiente para pagar as dívidas mais urgentes. Se conseguirmos manter uma parte da terra, podemos começar de novo, com menos pressão.
Anaya, sempre prática, foi a primeira a reagir.
– Isso vai resolver o problema? Ou só vai nos dar mais tempo? – ela perguntou, com a franqueza que lhe era característica.
Papai a encarou, como se considerasse a pergunta por um momento.
– Talvez só nos dê mais tempo – ele admitiu. – Mas é melhor do que ficar parado enquanto tudo desmorona ao nosso redor.
Houve um silêncio pesado enquanto todos digeriam suas palavras. Sabíamos que não havia uma solução fácil, mas a ideia de vender parte da fazenda, de perder uma parte de nossa história, era dolorosa.
Ayana, que até então permanecera calada, finalmente falou.
– E se não for o suficiente, papai? – ela perguntou, com os olhos marejados.
Papai abaixou a cabeça, como se a pergunta tivesse perfurado suas defesas.
– Então faremos o que for necessário – ele disse, sua voz quase um sussurro. – Lutaremos até o fim, juntos.
A reunião terminou com poucas palavras. A decisão ainda estava no ar, mas o peso da escolha pairava sobre nós. Sentíamos que, de uma forma ou de outra, nossas vidas estavam prestes a mudar para sempre.
Naquela noite, enquanto me deitava, não conseguia afastar a sensação de que estávamos à beira de algo grande e inevitável. O vento soprava suavemente lá fora, fazendo as árvores sussurrarem no escuro. Fechei os olhos, tentando encontrar consolo na escuridão, mas minha mente estava cheia de pensamentos sobre o futuro incerto que nos aguardava.
O que quer que estivesse por vir, eu sabia que precisaria ser mais forte do que nunca. E, pela primeira vez, me perguntei se realmente estávamos preparados para o que viria a seguir.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Fatima Vieira
elas são inteligentes
2025-01-31
1
Livia Pereira
Bom de burra nenhuma das três são, pois souberam o que perguntar
2024-12-18
1