Capítulo 8: O Clímax do Conflito

O sol nasceu radiante naquela manhã, espalhando seus raios dourados por toda a fazenda, como se tentasse afastar a escuridão que havia se instalado em nossas vidas. Pela primeira vez em semanas, um sentimento de leveza pairava no ar, e, por um breve momento, permiti-me acreditar que talvez aquele dia trouxesse alguma alegria para nós.

As primeiras horas da manhã foram envoltas em uma atmosfera incomum de felicidade. Minhas irmãs e eu estávamos no banheiro, o espaço pequeno e apertado ecoando com nossos risos e conversas animadas. Anaya e Ayana, sempre cheias de energia, discutiam animadamente sobre seus sonhos e futuros, deixando-se levar por fantasias sobre uma vida melhor, longe dos problemas que nos cercavam.

– Quando eu crescer, vou me mudar para a cidade grande! – disse Anaya, com a confiança típica de sua idade. – Vou ser uma médica famosa e ajudar muita gente, eu ainda vou estudar no UFL.

Ayana, que sempre seguia os passos da irmã mais velha, sorriu largamente.

– Eu, também vou estudar na UFL, mas vou ser uma professora e ensinar crianças como nós – disse ela, seus olhos brilhando de entusiasmo.

Eu sorri, ouvindo-as compartilhar seus sonhos com tanto fervor. O calor da água no banho parecia afastar, mesmo que temporariamente, a realidade difícil que enfrentávamos todos os dias.

Enquanto ajudava Ayana a lavar o cabelo, senti-me envolta em uma sensação de nostalgia. Eu também já tive sonhos tão simples e puros, como o de estudar no Campus Universitário Federal de Lagoas, me formar em Direito e ser uma advogada de renome, até que as responsabilidades da vida se abatessem sobre mim. E, embora soubesse que nosso futuro era incerto, não pude deixar de me permitir uma pequena dose de esperança naquele momento.

– Vocês sabiam que eu tive meu primeiro beijo? – disse de repente, o tom da minha voz ligeiramente provocador.

Anaya e Ayana pararam o que estavam fazendo e me olharam com os olhos arregalados.

– O quê? Com quem? – Anaya perguntou, sua voz cheia de curiosidade.

Eu ri, vendo o interesse genuíno em seus rostos.

– Com Heitor – confessei, sentindo minhas bochechas corarem um pouco ao mencionar o nome dele.

As duas começaram a rir e a me encher de perguntas. Queriam saber como foi, onde aconteceu, e, claro, se eu gostava dele. Eu respondi com um sorriso tímido, deixando que soubessem que sim, eu gostava de Heitor, e que ele era a única pessoa que fazia meu coração acelerar.

– Vamos nos casar um dia – disse, quase sem pensar, mas as palavras saíram com uma certeza que me surpreendeu. – Vamos sair daqui e construir nossa própria vida.

Elas olharam para mim com admiração, como se eu tivesse acabado de lhes contar o segredo do universo. Eu sabia que, na inocência delas, a ideia de amor e casamento parecia algo mágico e distante, quase como um conto de fadas.

Depois de um tempo, desligamos o chuveiro e nos secamos rapidamente. O calor do banheiro começava a se dissipar, substituído pelo ar fresco da manhã que entrava pela pequena janela aberta. Colocamos nossas roupas, ainda trocando risadas e comentários, enquanto arrumávamos nossos cabelos. Era como se aquele momento de felicidade fosse uma bolha de proteção, isolando-nos temporariamente dos problemas que nos aguardavam lá fora.

Mas a realidade não demorou a nos alcançar.

Assim que saímos do banheiro, fomos recebidas por um som estridente vindo do fundo da casa. Era uma voz elevada, carregada de raiva, que ecoava pelos corredores. O som vinha do quarto dos nossos pais.

Meu coração afundou. Era uma briga, e das feias. O som cortante das palavras de minha mamãe, era inconfundível, e o silêncio pesado que a precedia revelava a tensão crescente.

– Suraya... o que está acontecendo? – perguntou Ayana, sua voz tremendo um pouco.

Eu hesitei por um momento, mas sabia que não podia esconder a verdade delas. Havíamos enfrentado muitas discussões antes, mas algo me dizia que essa era diferente.

– Fiquem aqui – ordenei, tentando soar calma. – Vou ver o que está acontecendo.

Caminhei em direção ao quarto dos meus pais, cada passo mais pesado que o anterior. Quando me aproximei, as palavras se tornaram mais claras, penetrando como lâminas em meus ouvidos.

– Como você pôde fazer isso, Gustavo? – a voz de minha mãe era um misto de raiva e desespero. – Como teve coragem de gastar aquele dinheiro?

– Eu estava tentando... – a voz do papai soou fraca, quase suplicante.

– Tentando o quê? Afundar-nos ainda mais? Você sabe quanto tempo eu guardei aquele dinheiro? Aquilo era para as sementes, para a vaca leiteira! – a raiva de minha mãe se intensificou.

– Bianca, eu só queria...

– Você só queria jogar, Gustavo! – interrompeu minha mãe, a voz dela agora soando como se estivesse prestes a chorar. – Sempre é a mesma desculpa e a mesma história! Eu não sei mais o que fazer com você.

Fiquei parada na porta, incapaz de me mover. O choque do que ouvi fez meu estômago revirar. O dinheiro que minha mãe havia guardado com tanto esforço, na esperança de melhorar nossa situação, tinha sido desperdiçado em uma aposta. Ele havia apostado na corrida de cavalos.

Entrei no quarto sem pensar, meus pés movendo-se por conta própria.

– Mãe? – minha voz saiu baixa, quase inaudível.

Eles pararam de discutir e olharam para mim, a surpresa em seus rostos refletindo o quanto estavam envolvidos em sua própria briga. Mamãe estava de pé ao lado da cama, as mãos trêmulas segurando uma toalha velha. Papai, sentado na beirada do colchão, parecia cansado, derrotado.

– Suraya... – começou mamãe, mas ela não terminou a frase.

Eu olhei para o meu pai, esperando que ele dissesse algo, qualquer coisa que pudesse aliviar aquela situação. Mas ele apenas desviou o olhar, incapaz de encarar a vergonha que sentia.

– Mãe, e agora? – perguntei, sentindo a gravidade da situação pesar sobre mim. – Como vamos conseguir o dinheiro agora?

Minha mãe respirou fundo, tentando se recompor. A tristeza nos olhos dela era profunda, mas havia também uma determinação inabalável.

– Eu não sei, Suraya. Seu pai está aí porquê não pergunte nele? – respondeu, sua voz finalmente quebrando. – Mas vou encontrar um jeito. Não podemos nos dar ao luxo de desistir agora.

Meu pai não disse nada, e o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ele sabia que havia cometido um erro grave, e as consequências eram maiores do que qualquer um de nós poderia suportar. A dor em seus olhos mostrava que ele entendia o que havia feito, mas também mostrava que ele estava perdido, preso em um ciclo vicioso do qual parecia não conseguir escapar.

Eu queria abraçá-lo, dizer que tudo ficaria bem, mas não havia palavras que pudessem consertar o que estava quebrado. Então, em vez disso, simplesmente me virei e saí do quarto, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.

Minhas irmãs ainda estavam no corredor, olhando para mim com expressões preocupadas. Eu as abracei, tentando transmitir uma força que eu mesma não sentia.

– Vamos ficar bem – menti, tentando acalmá-las. – Papai vai dar um jeito nisso.

Mas, por dentro, eu sabia que as coisas estavam se deteriorando rapidamente. A cada discussão, a cada erro, a tensão em nossa família aumentava, aproximando-nos de um ponto de ruptura.

Enquanto caminhávamos para fora da casa, sentindo o peso do que havíamos acabado de presenciar, uma pergunta inquietante começou a se formar em minha mente: até onde a nossa família poderia resistir antes de tudo desabar de vez?

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Comments

Silvaneide de lima barbosa Silvinha

Silvaneide de lima barbosa Silvinha

É incrível como na realidade isso acontecem as pessoas mesmo endividado joga um pouquinho que tem não acho que é na esperança de ganhar é só pelo vício mesmo

2025-03-05

0

Josevaldo Antunes

Josevaldo Antunes

pai safado

2025-04-01

0

Fatima Vieira

Fatima Vieira

q pai cretino

2025-01-31

1

Ver todos
Capítulos
1 Prólogo
2 Capítulo 1: Vida em Belo Monte
3 Capítulo 2: A Casa em Desarmonia
4 Capítulo 3: Laços de Sangue e Coração
5 Capítulo 4: O Peso da Dívida
6 Capítulo 5: Segredos à Luz do Entardecer
7 Capítulo 6: Sombras Sobre a Mesa
8 Capítulo 7: O Declínio Silencioso
9 Capítulo 8: O Clímax do Conflito
10 Capítulo 9: Sonhos em Meio ao Café Amargo
11 Capítulo 10: A Chegada do Senhor Fonseca Abreu
12 Capítulo 11: O Encontro que Mudou Tudo
13 Capítulo 12: O Erro Fatal - A Aposta Maldita
14 Capítulo 13: O Acordo Sombrio - Porquê eu?
15 Capítulo 14: O Peso da Escolha
16 Capítulo 15: A Última Carta
17 Capítulo 16: O Desespero da Impossibilidade
18 Capítulo 17: Preparativos para o Casamento
19 Capítulo 18: O Casamento
20 Capítulo 19: A Viagem para a Cidade Grande
21 Capítulo 20: Chegada à Cidade Grande
22 Capítulo 21: A Vida Luxuosa e Sufocante na Mansão de Fonseca
23 Capítulo 22: A Dama da Mansão
24 Capítulo 23: O Jantar dos Poderosos
25 Capítulo 24: No Silêncio da Mansão
26 Capítulo 25: O Despertar de um Monstro
27 Capítulo 26: A Revelação do Cativeiro
28 Capítulo 27: A Sombra da Liberdade
29 Capítulo 28: A Virada de uma Vida
30 Capítulo 29: No Limiar de Sentimentos
31 Capítulo 30: Sob o Véu do Desconhecido
32 Capítulo 31: Adeus, Dubai; Olá, Lagoas
33 Capítulo 32: A Casa Nova, O Novo Eu
34 Capítulo 33: As Correntes Invisíveis
35 Capítulo 34: Um Novo Horizonte
36 Capítulo 35: Sob o Peso da Ira e do Desejo
37 Capítulo 36: Um Conto de Fadas na Realidade
38 Capítulo 37: Duas Vidas, Um Amor: Entre a Realidade e o Disfarce
39 Capítulo 38: Entre Dois Mundos: O Agito do Campus e a Realidade do Poder
40 Capítulo 39: Suspiros à Meia-Luz
41 Capítulo 40: O Veneno do Silêncio
42 Capítulo 41: Desespero e Solidão
43 Capítulo 42: O Funeral da Esperança
44 Capítulo 43: Quando Tudo Estava Contra Mim?
45 Capítulo 44: Os Muros da Injustiça
46 Capítulo 45: O Veredito Final
47 Série Sombras de Um Amor Fatal
Capítulos

Atualizado até capítulo 47

1
Prólogo
2
Capítulo 1: Vida em Belo Monte
3
Capítulo 2: A Casa em Desarmonia
4
Capítulo 3: Laços de Sangue e Coração
5
Capítulo 4: O Peso da Dívida
6
Capítulo 5: Segredos à Luz do Entardecer
7
Capítulo 6: Sombras Sobre a Mesa
8
Capítulo 7: O Declínio Silencioso
9
Capítulo 8: O Clímax do Conflito
10
Capítulo 9: Sonhos em Meio ao Café Amargo
11
Capítulo 10: A Chegada do Senhor Fonseca Abreu
12
Capítulo 11: O Encontro que Mudou Tudo
13
Capítulo 12: O Erro Fatal - A Aposta Maldita
14
Capítulo 13: O Acordo Sombrio - Porquê eu?
15
Capítulo 14: O Peso da Escolha
16
Capítulo 15: A Última Carta
17
Capítulo 16: O Desespero da Impossibilidade
18
Capítulo 17: Preparativos para o Casamento
19
Capítulo 18: O Casamento
20
Capítulo 19: A Viagem para a Cidade Grande
21
Capítulo 20: Chegada à Cidade Grande
22
Capítulo 21: A Vida Luxuosa e Sufocante na Mansão de Fonseca
23
Capítulo 22: A Dama da Mansão
24
Capítulo 23: O Jantar dos Poderosos
25
Capítulo 24: No Silêncio da Mansão
26
Capítulo 25: O Despertar de um Monstro
27
Capítulo 26: A Revelação do Cativeiro
28
Capítulo 27: A Sombra da Liberdade
29
Capítulo 28: A Virada de uma Vida
30
Capítulo 29: No Limiar de Sentimentos
31
Capítulo 30: Sob o Véu do Desconhecido
32
Capítulo 31: Adeus, Dubai; Olá, Lagoas
33
Capítulo 32: A Casa Nova, O Novo Eu
34
Capítulo 33: As Correntes Invisíveis
35
Capítulo 34: Um Novo Horizonte
36
Capítulo 35: Sob o Peso da Ira e do Desejo
37
Capítulo 36: Um Conto de Fadas na Realidade
38
Capítulo 37: Duas Vidas, Um Amor: Entre a Realidade e o Disfarce
39
Capítulo 38: Entre Dois Mundos: O Agito do Campus e a Realidade do Poder
40
Capítulo 39: Suspiros à Meia-Luz
41
Capítulo 40: O Veneno do Silêncio
42
Capítulo 41: Desespero e Solidão
43
Capítulo 42: O Funeral da Esperança
44
Capítulo 43: Quando Tudo Estava Contra Mim?
45
Capítulo 44: Os Muros da Injustiça
46
Capítulo 45: O Veredito Final
47
Série Sombras de Um Amor Fatal

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