O sol nasceu radiante naquela manhã, espalhando seus raios dourados por toda a fazenda, como se tentasse afastar a escuridão que havia se instalado em nossas vidas. Pela primeira vez em semanas, um sentimento de leveza pairava no ar, e, por um breve momento, permiti-me acreditar que talvez aquele dia trouxesse alguma alegria para nós.
As primeiras horas da manhã foram envoltas em uma atmosfera incomum de felicidade. Minhas irmãs e eu estávamos no banheiro, o espaço pequeno e apertado ecoando com nossos risos e conversas animadas. Anaya e Ayana, sempre cheias de energia, discutiam animadamente sobre seus sonhos e futuros, deixando-se levar por fantasias sobre uma vida melhor, longe dos problemas que nos cercavam.
– Quando eu crescer, vou me mudar para a cidade grande! – disse Anaya, com a confiança típica de sua idade. – Vou ser uma médica famosa e ajudar muita gente, eu ainda vou estudar no UFL.
Ayana, que sempre seguia os passos da irmã mais velha, sorriu largamente.
– Eu, também vou estudar na UFL, mas vou ser uma professora e ensinar crianças como nós – disse ela, seus olhos brilhando de entusiasmo.
Eu sorri, ouvindo-as compartilhar seus sonhos com tanto fervor. O calor da água no banho parecia afastar, mesmo que temporariamente, a realidade difícil que enfrentávamos todos os dias.
Enquanto ajudava Ayana a lavar o cabelo, senti-me envolta em uma sensação de nostalgia. Eu também já tive sonhos tão simples e puros, como o de estudar no Campus Universitário Federal de Lagoas, me formar em Direito e ser uma advogada de renome, até que as responsabilidades da vida se abatessem sobre mim. E, embora soubesse que nosso futuro era incerto, não pude deixar de me permitir uma pequena dose de esperança naquele momento.
– Vocês sabiam que eu tive meu primeiro beijo? – disse de repente, o tom da minha voz ligeiramente provocador.
Anaya e Ayana pararam o que estavam fazendo e me olharam com os olhos arregalados.
– O quê? Com quem? – Anaya perguntou, sua voz cheia de curiosidade.
Eu ri, vendo o interesse genuíno em seus rostos.
– Com Heitor – confessei, sentindo minhas bochechas corarem um pouco ao mencionar o nome dele.
As duas começaram a rir e a me encher de perguntas. Queriam saber como foi, onde aconteceu, e, claro, se eu gostava dele. Eu respondi com um sorriso tímido, deixando que soubessem que sim, eu gostava de Heitor, e que ele era a única pessoa que fazia meu coração acelerar.
– Vamos nos casar um dia – disse, quase sem pensar, mas as palavras saíram com uma certeza que me surpreendeu. – Vamos sair daqui e construir nossa própria vida.
Elas olharam para mim com admiração, como se eu tivesse acabado de lhes contar o segredo do universo. Eu sabia que, na inocência delas, a ideia de amor e casamento parecia algo mágico e distante, quase como um conto de fadas.
Depois de um tempo, desligamos o chuveiro e nos secamos rapidamente. O calor do banheiro começava a se dissipar, substituído pelo ar fresco da manhã que entrava pela pequena janela aberta. Colocamos nossas roupas, ainda trocando risadas e comentários, enquanto arrumávamos nossos cabelos. Era como se aquele momento de felicidade fosse uma bolha de proteção, isolando-nos temporariamente dos problemas que nos aguardavam lá fora.
Mas a realidade não demorou a nos alcançar.
Assim que saímos do banheiro, fomos recebidas por um som estridente vindo do fundo da casa. Era uma voz elevada, carregada de raiva, que ecoava pelos corredores. O som vinha do quarto dos nossos pais.
Meu coração afundou. Era uma briga, e das feias. O som cortante das palavras de minha mamãe, era inconfundível, e o silêncio pesado que a precedia revelava a tensão crescente.
– Suraya... o que está acontecendo? – perguntou Ayana, sua voz tremendo um pouco.
Eu hesitei por um momento, mas sabia que não podia esconder a verdade delas. Havíamos enfrentado muitas discussões antes, mas algo me dizia que essa era diferente.
– Fiquem aqui – ordenei, tentando soar calma. – Vou ver o que está acontecendo.
Caminhei em direção ao quarto dos meus pais, cada passo mais pesado que o anterior. Quando me aproximei, as palavras se tornaram mais claras, penetrando como lâminas em meus ouvidos.
– Como você pôde fazer isso, Gustavo? – a voz de minha mãe era um misto de raiva e desespero. – Como teve coragem de gastar aquele dinheiro?
– Eu estava tentando... – a voz do papai soou fraca, quase suplicante.
– Tentando o quê? Afundar-nos ainda mais? Você sabe quanto tempo eu guardei aquele dinheiro? Aquilo era para as sementes, para a vaca leiteira! – a raiva de minha mãe se intensificou.
– Bianca, eu só queria...
– Você só queria jogar, Gustavo! – interrompeu minha mãe, a voz dela agora soando como se estivesse prestes a chorar. – Sempre é a mesma desculpa e a mesma história! Eu não sei mais o que fazer com você.
Fiquei parada na porta, incapaz de me mover. O choque do que ouvi fez meu estômago revirar. O dinheiro que minha mãe havia guardado com tanto esforço, na esperança de melhorar nossa situação, tinha sido desperdiçado em uma aposta. Ele havia apostado na corrida de cavalos.
Entrei no quarto sem pensar, meus pés movendo-se por conta própria.
– Mãe? – minha voz saiu baixa, quase inaudível.
Eles pararam de discutir e olharam para mim, a surpresa em seus rostos refletindo o quanto estavam envolvidos em sua própria briga. Mamãe estava de pé ao lado da cama, as mãos trêmulas segurando uma toalha velha. Papai, sentado na beirada do colchão, parecia cansado, derrotado.
– Suraya... – começou mamãe, mas ela não terminou a frase.
Eu olhei para o meu pai, esperando que ele dissesse algo, qualquer coisa que pudesse aliviar aquela situação. Mas ele apenas desviou o olhar, incapaz de encarar a vergonha que sentia.
– Mãe, e agora? – perguntei, sentindo a gravidade da situação pesar sobre mim. – Como vamos conseguir o dinheiro agora?
Minha mãe respirou fundo, tentando se recompor. A tristeza nos olhos dela era profunda, mas havia também uma determinação inabalável.
– Eu não sei, Suraya. Seu pai está aí porquê não pergunte nele? – respondeu, sua voz finalmente quebrando. – Mas vou encontrar um jeito. Não podemos nos dar ao luxo de desistir agora.
Meu pai não disse nada, e o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ele sabia que havia cometido um erro grave, e as consequências eram maiores do que qualquer um de nós poderia suportar. A dor em seus olhos mostrava que ele entendia o que havia feito, mas também mostrava que ele estava perdido, preso em um ciclo vicioso do qual parecia não conseguir escapar.
Eu queria abraçá-lo, dizer que tudo ficaria bem, mas não havia palavras que pudessem consertar o que estava quebrado. Então, em vez disso, simplesmente me virei e saí do quarto, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
Minhas irmãs ainda estavam no corredor, olhando para mim com expressões preocupadas. Eu as abracei, tentando transmitir uma força que eu mesma não sentia.
– Vamos ficar bem – menti, tentando acalmá-las. – Papai vai dar um jeito nisso.
Mas, por dentro, eu sabia que as coisas estavam se deteriorando rapidamente. A cada discussão, a cada erro, a tensão em nossa família aumentava, aproximando-nos de um ponto de ruptura.
Enquanto caminhávamos para fora da casa, sentindo o peso do que havíamos acabado de presenciar, uma pergunta inquietante começou a se formar em minha mente: até onde a nossa família poderia resistir antes de tudo desabar de vez?
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Silvaneide de lima barbosa Silvinha
É incrível como na realidade isso acontecem as pessoas mesmo endividado joga um pouquinho que tem não acho que é na esperança de ganhar é só pelo vício mesmo
2025-03-05
0
Josevaldo Antunes
pai safado
2025-04-01
0
Fatima Vieira
q pai cretino
2025-01-31
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