Capítulo 13: O Acordo Sombrio - Porquê eu?

Acordei naquela manhã com uma sensação de inquietação, como se o ar estivesse pesado, impregnado de algo sombrio que eu não conseguia identificar. Não havia o som habitual dos passos apressados de minha mãe pela cozinha, nem os resmungos matinais de meu pai. Tudo estava envolto em um silêncio incomum, perturbador.

Levantei-me da cama, ainda tentando afastar os resquícios do sonho que tive. Era um sonho estranho, cheio de sombras e sussurros, mas que se dissipou assim que abri os olhos. Ao sair do quarto, fui direto para a cozinha, onde encontrei a mamãe, em silêncio, mexendo uma panela com uma expressão distante.

— Bom dia, mãe — murmurei, esperando uma resposta que não veio.

Ela apenas acenou com a cabeça, mas continuou concentrada no que estava fazendo. Aquilo não era normal. Minha mãe, apesar de todas as dificuldades, sempre tinha uma palavra ou outra para dizer pela manhã. O silêncio dela, naquele momento, me deu um nó na garganta.

— Posso ajudar? — ofereci, tentando dissipar o mal-estar que sentia.

Ela assentiu novamente e me entregou uma colher de pau, indicando que eu deveria mexer a panela. Comecei a mexer a comida, mas o silêncio entre nós era opressor. Finalmente, meu pai entrou na cozinha, com passos lentos e cabeça baixa, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros. Ele nos saudou com um murmúrio, mas minha mãe não respondeu, o que me pareceu ainda mais estranho. Havia algo errado, algo que eu ainda não entendia, mas que estava prestes a se revelar.

— Suraya, vá acordar suas irmãs — pediu mamãe, sua voz baixa e desprovida de emoção.

Havia algo na maneira como ela falou, um tom que me fez perceber que era melhor não questionar. Assenti, deixei a colher de lado e subi as escadas até o quarto que dividia com Ayana e Anaya.

Quando entrei, encontrei Ayana sentada na cama, contando algo em voz baixa para Anaya, que a escutava com atenção.

— Tive um sonho, Anaya. Sonhei que você casava com um homem horrível, um homem asqueroso — disse Ayana, sua voz trêmula.

Anaya deu uma risadinha, tentando minimizar a situação, mas pude ver que estava perturbada com o que Ayana havia dito. Sentei-me ao lado delas, tentando entender o que aquele sonho poderia significar, mas antes que pudesse perguntar mais, lembrei-me do pedido de nossa mãe.

— Vamos, meninas, é hora de descer. A mãe está esperando por nós — disse, tentando afastar a preocupação que começava a se instalar em meu coração.

Descemos juntas para a cozinha, onde tomamos o café da manhã em silêncio. O desconforto entre nossos pais era palpável, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer, mas ninguém ousava falar. O café tinha um gosto amargo, mesmo com açúcar.

O silêncio foi quebrado apenas pela chegada do Sr. Paulo, o pai do Heitor, que apareceu à porta, pedindo licença para entrar.

— Com licença, Dona Bianca, Seu Gustavo. Oh de casa! — disse ele, hesitante.

Levantei-me junto com minhas irmãs, e seguimos nossos pais até a porta para ver o que estava acontecendo. Ao nos aproximarmos, meu coração parou quando vi, lá fora, a figura imponente de Sr. Fonseca, o homem que havia nos aterrorizado no dia anterior por termos pego laranjas em sua fazenda, La Rosa.

— Não pode ser — murmurei para mim mesma, enquanto Ayana começava a tremer ao meu lado, suas lágrimas surgindo rapidamente.

Ela estava apavorada, e não era para menos. Todas nós estávamos. O medo e o nojo que senti ao olhar para o Sr. Fonseca eram indescritíveis. Eu mal podia acreditar que aquele homem estava ali, na porta de nossa casa, como se tivesse direito de estar.

— O que ele quer aqui? — sussurrou Anaya, a voz cheia de apreensão.

Papai deu um passo à frente, limpando a garganta como se precisasse de coragem para falar.

— Ele veio... ele veio para tratar de negócios, meninas. Preciso que vocês voltem para dentro, está bem?

Antes que pudéssemos responder, ouvi as palavras que saíram da boca de meu pai, e que imediatamente me fizeram congelar no lugar.

— Precisamos encontrar um lugar para morar. Alguns dias, talvez... — ele murmurou, sua voz quebrada e cheia de vergonha.

— O quê? Que história é essa, papai? — Anaya perguntou, tentando entender o que estava acontecendo.

Mamãe segurou sua mão, pedindo que ela ficasse em silêncio, mas já era tarde demais. Todas nós entendíamos o que aquelas palavras significavam: havíamos perdido nossa casa, nossas terras e nossa dignidade. Papai havia perdido tudo no maldito vício de jogo.

E então, como se não bastasse, a voz grave do Sr. Fonseca se fez ouvir, cortando o ar como uma lâmina.

— Talvez haja uma forma de resolver isso — disse ele, olhando diretamente para mim, com uma expressão que fez minha pele se arrepiar. — Seu Gustavo, estive pensando... talvez possamos fazer um acordo.

Papai olhou para ele, confuso, enquanto minha mãe, apertando as mãos sobre o avental, parecia pronta para desmaiar.

— Um acordo? — meu pai perguntou, a voz cheia de desconfiança.

O velhote asqueroso assentiu, dando um passo à frente, seu olhar ainda fixo em mim. Eu me senti como um animal encurralado, incapaz de escapar.

— Sim. Perdoarei sua dívida, Sr. Gustavo. Mas em troca... quero a mão de sua filha, Suraya, em casamento.

O mundo pareceu parar naquele momento. As palavras dele ecoaram em minha mente como um trovão. Não podia ser verdade, eu pensei, tentando compreender o que estava acontecendo. Mas era. Sr. Fonseca estava pedindo minha mão em casamento como se eu fosse uma simples moeda de troca, uma solução para os problemas que meu pai havia criado, que culpa tenho eu? Eu nem sequer estive presente nas suas malditas apostas.

— Não! — A voz de Anaya rompeu o silêncio. Ela se libertou das mãos de mamãe e deu um passo à frente, indignada. — O senhor não pode fazer isso! Suraya não é um objeto!

Mamãe segurou Anaya novamente, desta vez com mais força, enquanto meu pai parecia chocado demais para reagir. O Sr. Fonseca, por outro lado, continuava calmo, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Não vejo outra solução, Sr. Gustavo. Sei que você ama sua família e faria qualquer coisa por eles. Eu também faria. E é por isso que estou disposto a oferecer essa chance. Perdoarei sua dívida, deixarei vocês manterem a fazenda. Em troca, Suraya será minha esposa.

As palavras do Sr. Fonseca eram como veneno, envenenando o ar ao nosso redor. Senti minhas pernas tremerem e meu estômago revirar. Minha mente gritava para fugir, para correr para o mais longe possível, mas eu não podia me mover.

Papai parecia envelhecer diante de nossos olhos, seu rosto pálido e coberto de suor. Ele olhou para mamãe, que estava chorando silenciosamente, e então para mim, com um olhar de desespero. Eu sabia o que ele estava pensando. Sabia que, apesar de tudo, ele estava considerando a oferta do Sr. asqueroso.

— Pai, não faça isso... — sussurrei, minha voz mal saindo.

Sr. Fonseca deu outro passo à frente, como se soubesse que a decisão estava quase tomada.

— Pense, Sr. Gustavo. Com isso, você manterá sua casa, suas terras, sua família. E sua filha será bem cuidada. Dou a minha palavra.

Eu queria gritar, queria correr, mas a minha voz parecia presa na garganta. Papai respirou fundo, eu pude ver ele passando as mãos várias vezez pela cabeça, e então, como se o peso de todas as suas falhas o tivesse esmagado, ele olhou para o chão e disse:

— Preciso de tempo para pensar.

O Sr. Fonseca não protestou. Ele simplesmente assentiu, deu um último olhar em minha direção, e então se virou para sair.

— Claro. Pensarei por mais um dia. Voltarei amanhã para saber sua resposta.

Assim que ele saiu, o silêncio voltou a cair sobre nós como uma manta sufocante. Mamãe desabou no chão, soluçando, enquanto Anaya e Ayana se agarravam a mim, suas mãos tremendo. Eu estava em choque, incapaz de compreender como a minha vida havia estava sendo dívida por outras pessoas.

Naquela noite, me tranquei no quarto, tentando processar tudo. O medo, a raiva, o nojo... tudo se misturava dentro de mim, como um tornado que não conseguia controlar. Eu sabia que meu pai estava desesperado, mas não conseguia aceitar a ideia de ser trocada por uma dívida. Não era o que eu sonhei, nem era o que eu queria, mas ninguém me perguntou.

No entanto, mesmo com toda a minha determinação, eu não sabia o que o dia seguinte traria. E esse desconhecido era o que mais me aterrorizava.

O sol se pôs e a escuridão tomou conta de tudo, mas dentro de mim, uma chama de resistência começava a arder. Eu sabia que, de alguma forma, precisava encontrar uma maneira de sair dessa situação. Porque eu, Suraya, não seria vendida como uma mercadoria.

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Comments

Josevaldo Antunes

Josevaldo Antunes

como pode tratar a família assim

2025-04-01

0

Fatima Vieira

Fatima Vieira

pai canalha

2025-01-31

1

Darlene Vieira

Darlene Vieira

se eu fosse a Suraya fugia mas não pagaria pelos erros do pai dela

2025-01-01

2

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Capítulos
1 Prólogo
2 Capítulo 1: Vida em Belo Monte
3 Capítulo 2: A Casa em Desarmonia
4 Capítulo 3: Laços de Sangue e Coração
5 Capítulo 4: O Peso da Dívida
6 Capítulo 5: Segredos à Luz do Entardecer
7 Capítulo 6: Sombras Sobre a Mesa
8 Capítulo 7: O Declínio Silencioso
9 Capítulo 8: O Clímax do Conflito
10 Capítulo 9: Sonhos em Meio ao Café Amargo
11 Capítulo 10: A Chegada do Senhor Fonseca Abreu
12 Capítulo 11: O Encontro que Mudou Tudo
13 Capítulo 12: O Erro Fatal - A Aposta Maldita
14 Capítulo 13: O Acordo Sombrio - Porquê eu?
15 Capítulo 14: O Peso da Escolha
16 Capítulo 15: A Última Carta
17 Capítulo 16: O Desespero da Impossibilidade
18 Capítulo 17: Preparativos para o Casamento
19 Capítulo 18: O Casamento
20 Capítulo 19: A Viagem para a Cidade Grande
21 Capítulo 20: Chegada à Cidade Grande
22 Capítulo 21: A Vida Luxuosa e Sufocante na Mansão de Fonseca
23 Capítulo 22: A Dama da Mansão
24 Capítulo 23: O Jantar dos Poderosos
25 Capítulo 24: No Silêncio da Mansão
26 Capítulo 25: O Despertar de um Monstro
27 Capítulo 26: A Revelação do Cativeiro
28 Capítulo 27: A Sombra da Liberdade
29 Capítulo 28: A Virada de uma Vida
30 Capítulo 29: No Limiar de Sentimentos
31 Capítulo 30: Sob o Véu do Desconhecido
32 Capítulo 31: Adeus, Dubai; Olá, Lagoas
33 Capítulo 32: A Casa Nova, O Novo Eu
34 Capítulo 33: As Correntes Invisíveis
35 Capítulo 34: Um Novo Horizonte
36 Capítulo 35: Sob o Peso da Ira e do Desejo
37 Capítulo 36: Um Conto de Fadas na Realidade
38 Capítulo 37: Duas Vidas, Um Amor: Entre a Realidade e o Disfarce
39 Capítulo 38: Entre Dois Mundos: O Agito do Campus e a Realidade do Poder
40 Capítulo 39: Suspiros à Meia-Luz
41 Capítulo 40: O Veneno do Silêncio
42 Capítulo 41: Desespero e Solidão
43 Capítulo 42: O Funeral da Esperança
44 Capítulo 43: Quando Tudo Estava Contra Mim?
45 Capítulo 44: Os Muros da Injustiça
46 Capítulo 45: O Veredito Final
47 Série Sombras de Um Amor Fatal
Capítulos

Atualizado até capítulo 47

1
Prólogo
2
Capítulo 1: Vida em Belo Monte
3
Capítulo 2: A Casa em Desarmonia
4
Capítulo 3: Laços de Sangue e Coração
5
Capítulo 4: O Peso da Dívida
6
Capítulo 5: Segredos à Luz do Entardecer
7
Capítulo 6: Sombras Sobre a Mesa
8
Capítulo 7: O Declínio Silencioso
9
Capítulo 8: O Clímax do Conflito
10
Capítulo 9: Sonhos em Meio ao Café Amargo
11
Capítulo 10: A Chegada do Senhor Fonseca Abreu
12
Capítulo 11: O Encontro que Mudou Tudo
13
Capítulo 12: O Erro Fatal - A Aposta Maldita
14
Capítulo 13: O Acordo Sombrio - Porquê eu?
15
Capítulo 14: O Peso da Escolha
16
Capítulo 15: A Última Carta
17
Capítulo 16: O Desespero da Impossibilidade
18
Capítulo 17: Preparativos para o Casamento
19
Capítulo 18: O Casamento
20
Capítulo 19: A Viagem para a Cidade Grande
21
Capítulo 20: Chegada à Cidade Grande
22
Capítulo 21: A Vida Luxuosa e Sufocante na Mansão de Fonseca
23
Capítulo 22: A Dama da Mansão
24
Capítulo 23: O Jantar dos Poderosos
25
Capítulo 24: No Silêncio da Mansão
26
Capítulo 25: O Despertar de um Monstro
27
Capítulo 26: A Revelação do Cativeiro
28
Capítulo 27: A Sombra da Liberdade
29
Capítulo 28: A Virada de uma Vida
30
Capítulo 29: No Limiar de Sentimentos
31
Capítulo 30: Sob o Véu do Desconhecido
32
Capítulo 31: Adeus, Dubai; Olá, Lagoas
33
Capítulo 32: A Casa Nova, O Novo Eu
34
Capítulo 33: As Correntes Invisíveis
35
Capítulo 34: Um Novo Horizonte
36
Capítulo 35: Sob o Peso da Ira e do Desejo
37
Capítulo 36: Um Conto de Fadas na Realidade
38
Capítulo 37: Duas Vidas, Um Amor: Entre a Realidade e o Disfarce
39
Capítulo 38: Entre Dois Mundos: O Agito do Campus e a Realidade do Poder
40
Capítulo 39: Suspiros à Meia-Luz
41
Capítulo 40: O Veneno do Silêncio
42
Capítulo 41: Desespero e Solidão
43
Capítulo 42: O Funeral da Esperança
44
Capítulo 43: Quando Tudo Estava Contra Mim?
45
Capítulo 44: Os Muros da Injustiça
46
Capítulo 45: O Veredito Final
47
Série Sombras de Um Amor Fatal

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