Acordei naquela manhã com uma sensação de inquietação, como se o ar estivesse pesado, impregnado de algo sombrio que eu não conseguia identificar. Não havia o som habitual dos passos apressados de minha mãe pela cozinha, nem os resmungos matinais de meu pai. Tudo estava envolto em um silêncio incomum, perturbador.
Levantei-me da cama, ainda tentando afastar os resquícios do sonho que tive. Era um sonho estranho, cheio de sombras e sussurros, mas que se dissipou assim que abri os olhos. Ao sair do quarto, fui direto para a cozinha, onde encontrei a mamãe, em silêncio, mexendo uma panela com uma expressão distante.
— Bom dia, mãe — murmurei, esperando uma resposta que não veio.
Ela apenas acenou com a cabeça, mas continuou concentrada no que estava fazendo. Aquilo não era normal. Minha mãe, apesar de todas as dificuldades, sempre tinha uma palavra ou outra para dizer pela manhã. O silêncio dela, naquele momento, me deu um nó na garganta.
— Posso ajudar? — ofereci, tentando dissipar o mal-estar que sentia.
Ela assentiu novamente e me entregou uma colher de pau, indicando que eu deveria mexer a panela. Comecei a mexer a comida, mas o silêncio entre nós era opressor. Finalmente, meu pai entrou na cozinha, com passos lentos e cabeça baixa, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros. Ele nos saudou com um murmúrio, mas minha mãe não respondeu, o que me pareceu ainda mais estranho. Havia algo errado, algo que eu ainda não entendia, mas que estava prestes a se revelar.
— Suraya, vá acordar suas irmãs — pediu mamãe, sua voz baixa e desprovida de emoção.
Havia algo na maneira como ela falou, um tom que me fez perceber que era melhor não questionar. Assenti, deixei a colher de lado e subi as escadas até o quarto que dividia com Ayana e Anaya.
Quando entrei, encontrei Ayana sentada na cama, contando algo em voz baixa para Anaya, que a escutava com atenção.
— Tive um sonho, Anaya. Sonhei que você casava com um homem horrível, um homem asqueroso — disse Ayana, sua voz trêmula.
Anaya deu uma risadinha, tentando minimizar a situação, mas pude ver que estava perturbada com o que Ayana havia dito. Sentei-me ao lado delas, tentando entender o que aquele sonho poderia significar, mas antes que pudesse perguntar mais, lembrei-me do pedido de nossa mãe.
— Vamos, meninas, é hora de descer. A mãe está esperando por nós — disse, tentando afastar a preocupação que começava a se instalar em meu coração.
Descemos juntas para a cozinha, onde tomamos o café da manhã em silêncio. O desconforto entre nossos pais era palpável, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer, mas ninguém ousava falar. O café tinha um gosto amargo, mesmo com açúcar.
O silêncio foi quebrado apenas pela chegada do Sr. Paulo, o pai do Heitor, que apareceu à porta, pedindo licença para entrar.
— Com licença, Dona Bianca, Seu Gustavo. Oh de casa! — disse ele, hesitante.
Levantei-me junto com minhas irmãs, e seguimos nossos pais até a porta para ver o que estava acontecendo. Ao nos aproximarmos, meu coração parou quando vi, lá fora, a figura imponente de Sr. Fonseca, o homem que havia nos aterrorizado no dia anterior por termos pego laranjas em sua fazenda, La Rosa.
— Não pode ser — murmurei para mim mesma, enquanto Ayana começava a tremer ao meu lado, suas lágrimas surgindo rapidamente.
Ela estava apavorada, e não era para menos. Todas nós estávamos. O medo e o nojo que senti ao olhar para o Sr. Fonseca eram indescritíveis. Eu mal podia acreditar que aquele homem estava ali, na porta de nossa casa, como se tivesse direito de estar.
— O que ele quer aqui? — sussurrou Anaya, a voz cheia de apreensão.
Papai deu um passo à frente, limpando a garganta como se precisasse de coragem para falar.
— Ele veio... ele veio para tratar de negócios, meninas. Preciso que vocês voltem para dentro, está bem?
Antes que pudéssemos responder, ouvi as palavras que saíram da boca de meu pai, e que imediatamente me fizeram congelar no lugar.
— Precisamos encontrar um lugar para morar. Alguns dias, talvez... — ele murmurou, sua voz quebrada e cheia de vergonha.
— O quê? Que história é essa, papai? — Anaya perguntou, tentando entender o que estava acontecendo.
Mamãe segurou sua mão, pedindo que ela ficasse em silêncio, mas já era tarde demais. Todas nós entendíamos o que aquelas palavras significavam: havíamos perdido nossa casa, nossas terras e nossa dignidade. Papai havia perdido tudo no maldito vício de jogo.
E então, como se não bastasse, a voz grave do Sr. Fonseca se fez ouvir, cortando o ar como uma lâmina.
— Talvez haja uma forma de resolver isso — disse ele, olhando diretamente para mim, com uma expressão que fez minha pele se arrepiar. — Seu Gustavo, estive pensando... talvez possamos fazer um acordo.
Papai olhou para ele, confuso, enquanto minha mãe, apertando as mãos sobre o avental, parecia pronta para desmaiar.
— Um acordo? — meu pai perguntou, a voz cheia de desconfiança.
O velhote asqueroso assentiu, dando um passo à frente, seu olhar ainda fixo em mim. Eu me senti como um animal encurralado, incapaz de escapar.
— Sim. Perdoarei sua dívida, Sr. Gustavo. Mas em troca... quero a mão de sua filha, Suraya, em casamento.
O mundo pareceu parar naquele momento. As palavras dele ecoaram em minha mente como um trovão. Não podia ser verdade, eu pensei, tentando compreender o que estava acontecendo. Mas era. Sr. Fonseca estava pedindo minha mão em casamento como se eu fosse uma simples moeda de troca, uma solução para os problemas que meu pai havia criado, que culpa tenho eu? Eu nem sequer estive presente nas suas malditas apostas.
— Não! — A voz de Anaya rompeu o silêncio. Ela se libertou das mãos de mamãe e deu um passo à frente, indignada. — O senhor não pode fazer isso! Suraya não é um objeto!
Mamãe segurou Anaya novamente, desta vez com mais força, enquanto meu pai parecia chocado demais para reagir. O Sr. Fonseca, por outro lado, continuava calmo, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Não vejo outra solução, Sr. Gustavo. Sei que você ama sua família e faria qualquer coisa por eles. Eu também faria. E é por isso que estou disposto a oferecer essa chance. Perdoarei sua dívida, deixarei vocês manterem a fazenda. Em troca, Suraya será minha esposa.
As palavras do Sr. Fonseca eram como veneno, envenenando o ar ao nosso redor. Senti minhas pernas tremerem e meu estômago revirar. Minha mente gritava para fugir, para correr para o mais longe possível, mas eu não podia me mover.
Papai parecia envelhecer diante de nossos olhos, seu rosto pálido e coberto de suor. Ele olhou para mamãe, que estava chorando silenciosamente, e então para mim, com um olhar de desespero. Eu sabia o que ele estava pensando. Sabia que, apesar de tudo, ele estava considerando a oferta do Sr. asqueroso.
— Pai, não faça isso... — sussurrei, minha voz mal saindo.
Sr. Fonseca deu outro passo à frente, como se soubesse que a decisão estava quase tomada.
— Pense, Sr. Gustavo. Com isso, você manterá sua casa, suas terras, sua família. E sua filha será bem cuidada. Dou a minha palavra.
Eu queria gritar, queria correr, mas a minha voz parecia presa na garganta. Papai respirou fundo, eu pude ver ele passando as mãos várias vezez pela cabeça, e então, como se o peso de todas as suas falhas o tivesse esmagado, ele olhou para o chão e disse:
— Preciso de tempo para pensar.
O Sr. Fonseca não protestou. Ele simplesmente assentiu, deu um último olhar em minha direção, e então se virou para sair.
— Claro. Pensarei por mais um dia. Voltarei amanhã para saber sua resposta.
Assim que ele saiu, o silêncio voltou a cair sobre nós como uma manta sufocante. Mamãe desabou no chão, soluçando, enquanto Anaya e Ayana se agarravam a mim, suas mãos tremendo. Eu estava em choque, incapaz de compreender como a minha vida havia estava sendo dívida por outras pessoas.
Naquela noite, me tranquei no quarto, tentando processar tudo. O medo, a raiva, o nojo... tudo se misturava dentro de mim, como um tornado que não conseguia controlar. Eu sabia que meu pai estava desesperado, mas não conseguia aceitar a ideia de ser trocada por uma dívida. Não era o que eu sonhei, nem era o que eu queria, mas ninguém me perguntou.
No entanto, mesmo com toda a minha determinação, eu não sabia o que o dia seguinte traria. E esse desconhecido era o que mais me aterrorizava.
O sol se pôs e a escuridão tomou conta de tudo, mas dentro de mim, uma chama de resistência começava a arder. Eu sabia que, de alguma forma, precisava encontrar uma maneira de sair dessa situação. Porque eu, Suraya, não seria vendida como uma mercadoria.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Josevaldo Antunes
como pode tratar a família assim
2025-04-01
0
Fatima Vieira
pai canalha
2025-01-31
1
Darlene Vieira
se eu fosse a Suraya fugia mas não pagaria pelos erros do pai dela
2025-01-01
2