O sol mal havia nascido quando acordei naquele dia, o frio da madrugada ainda se agarrando ao ar. A fazenda estava envolta em uma quietude que era ao mesmo tempo tranquilizadora e opressiva, como se o próprio tempo tivesse parado para observar o que aconteceria conosco.
As manhãs em Belo Monte sempre começavam cedo, especialmente durante a colheita de café. Era um trabalho árduo, mas havia algo de satisfatório em ver os frutos do nosso esforço tomarem forma, mesmo que ultimamente a realidade da fazenda estivesse longe de ser próspera. O café, que outrora era o orgulho de nossa família, agora lutava contra uma praga que parecia refletir nossa própria situação. As plantas estavam doentes, assim como a nossa esperança, e a cada dia que passava, a praga se espalhava mais, desafiando nossos esforços para contê-la.
Minha mãe, estava à frente do grupo de trabalhadores, como sempre. Seus olhos, que um dia foram cheios de vida, agora estavam cansados, as olheiras profundas denunciando o peso que ela carregava. O cansaço físico era visível em seus gestos, mas havia algo mais; um esgotamento emocional que parecia drenar cada gota de energia que ela tinha. Ainda assim, ela não se deixava abater. Era uma mulher forte, e por mais difícil que a situação se tornasse, ela estava determinada a lutar.
Enquanto caminhávamos em direção ao campo, o cheiro do café amadurecendo misturava-se ao ar úmido da manhã. As folhas das plantas estavam salpicadas de orvalho, e ao longe, o som dos pássaros começava a encher o ambiente com sua melodia matinal. Aquela deveria ser uma visão reconfortante, mas para mim, era um lembrete constante da batalha que estávamos enfrentando. A praga continuava a devorar as folhas, e nossa colheita estava longe de ser o que costumava ser.
Minha mãe, com a tesoura de poda em mãos, olhou para o campo com um olhar vazio. Eu sabia o que ela estava pensando. Aquela colheita seria decisiva para nós. Se não conseguíssemos salvar o que restava das plantas, não haveria dinheiro suficiente para sustentar a família. Nossas dívidas estavam crescendo, assim como o desespero que nos cercava.
– Suraya, pegue aquelas plantas do lado oeste – ordenou ela, apontando com a cabeça para uma fileira de árvores mais afastada. – Elas precisam ser podadas com urgência.
Assenti, pegando minha própria tesoura e caminhando até as plantas indicadas. Comecei a trabalhar, cortando os galhos doentes e tentando salvar o que ainda podia ser salvo. O trabalho era monótono e exigente, mas eu não me importava. Meu corpo se movia por instinto, como se tentasse fugir dos pensamentos que me assombravam. O som das tesouras cortando as folhas era quase hipnótico, e por um momento, consegui me perder em meus próprios devaneios.
Sonhei com uma vida diferente. Um lugar onde não precisássemos lutar tanto para sobreviver, onde o dinheiro não fosse uma preocupação constante. Um lugar onde eu pudesse viver ao lado de Heitor, sem medo, sem culpa. Em meus sonhos, Belo Monte era um lugar próspero novamente, onde as risadas ecoavam pelos campos, e a felicidade era uma constante, não uma raridade.
Mas, mesmo em meus sonhos, a realidade insistia em se infiltrar. Eu via o rosto cansado de minha mãe, suas mãos calejadas de tanto trabalhar. Via meu pai, sentado na varanda, com o olhar perdido, como se estivesse esperando que algo — ou alguém — viesse resgatá-lo de sua própria mente. Via minhas irmãs, ainda jovens, mas já carregando o peso das responsabilidades que deveriam ser minhas.
O sol começou a subir no céu, espalhando seu calor sobre nós, e o trabalho continuava. Os trabalhadores ao nosso redor estavam tão cansados quanto nós, mas não havia tempo para descanso. Cada minuto contava, e todos nós sabíamos que, se não conseguíssemos salvar a colheita, o futuro seria ainda mais sombrio.
Mamãe passou por mim várias vezes, verificando o progresso, mas sem dizer uma palavra. Seu silêncio era ensurdecedor, um reflexo da tensão que permeava a fazenda. Quando nossos olhares se cruzavam, eu podia ver a preocupação em seus olhos, mas também havia algo mais, algo que ela tentava esconder de mim. Talvez fosse medo. Talvez fosse a compreensão de que estávamos caminhando para um abismo, e que, por mais que tentássemos, não havia como evitar a queda.
Em meio ao trabalho, ouvi risadas à distância. Olhei na direção do som e vi minhas irmãs, Anaya e Ayana, brincando entre as fileiras de plantas. Elas estavam tentando imitar o trabalho dos adultos, mas de uma forma tão desajeitada que não pude deixar de sorrir. Suas risadas eram um bálsamo para a alma, um lembrete de que, apesar de tudo, ainda havia momentos de inocência e alegria em nossas vidas.
Caminhei até elas, aproveitando a oportunidade para esticar as pernas e respirar fundo. Quando me aproximei, elas pararam o que estavam fazendo e me olharam com os olhos brilhando de entusiasmo.
– Olha, Suraya! Estamos ajudando! – disse Ayana, levantando a tesoura de poda que parecia grande demais em suas pequenas mãos.
– Estamos cuidando das plantas para que possamos vender muito café – acrescentou Anaya, com um sorriso confiante.
Eu sorri para elas, sentindo um calor no peito que me encheu de amor e orgulho. Elas eram tão inocentes, tão cheias de esperança, que quase me fizeram acreditar que tudo ficaria bem. Quase.
– Vocês estão fazendo um ótimo trabalho – elogiei, ajoelhando-me ao lado delas. – Mas tenham cuidado para não cortar os galhos bons, ok?
Elas assentiram, voltando ao trabalho com uma determinação que era admirável para suas idades. Fiquei observando-as por alguns minutos, tentando absorver a leveza daquele momento. Mas, mesmo ali, o peso da realidade era impossível de ignorar.
Enquanto voltava ao meu trabalho, minha mente começou a vagar novamente. Pensei em Heitor, nos momentos que passamos juntos. Nossos encontros secretos eram um refúgio, uma forma de escapar da pressão constante que nos cercava. Ele me fazia sonhar com um futuro diferente, um futuro onde eu pudesse ser feliz sem medo das consequências. Mas, no fundo, eu sabia que esses sonhos eram apenas isso: sonhos. A realidade era muito mais complicada do que qualquer fantasia que eu pudesse criar.
O trabalho continuou por horas, o sol subindo cada vez mais alto no céu, até que finalmente paramos para o almoço. Sentamo-nos na sombra das árvores, comendo em silêncio, cada um de nós perdido em seus próprios pensamentos. O cansaço era palpável, mas havia algo mais, uma tensão que pairava no ar, como se todos soubessem que algo estava prestes a acontecer, mas ninguém quisesse ser o primeiro a falar.
Mamãe estava mais quieta do que o normal, seu olhar fixo no horizonte, como se estivesse tentando ver além das montanhas que cercavam a fazenda. Eu queria perguntar o que estava acontecendo, mas o medo de ouvir a resposta me impediu.
Enquanto terminávamos de comer, ouvi o som de passos se aproximando. Olhei para cima e vi meu pai, papai, vindo em nossa direção. Seu rosto estava sombrio, e havia algo em sua postura que me fez gelar por dentro. Ele parou ao lado de minha mãe, e por um momento, eles ficaram ali, em silêncio, apenas se olhando.
– Precisamos conversar – disse ele, finalmente, sua voz grave e cheia de uma tensão que parecia prestes a explodir.
Minha mãe assentiu, levantando-se lentamente, como se cada movimento fosse um esforço imenso. Eles começaram a caminhar para longe, deixando-nos ali, sem saber o que fazer ou pensar.
Fiquei observando-os se afastarem, sentindo um nó se formar em meu estômago. Algo estava errado, muito errado. E por mais que eu quisesse acreditar que tudo ficaria bem, uma voz em minha mente sussurrava que os tempos de inocência estavam acabando.
Enquanto minha mãe e meu pai desapareciam entre as árvores, a sensação de que algo terrível estava prestes a acontecer se intensificou. Eu sabia que nossa vida estava mudando, mas será que estava pronta para enfrentar o que estava por vir?
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Silvaneide de lima barbosa Silvinha
tadinha dessas meninas passando por tantas coisas tão jovem
2025-03-05
0
Fatima Vieira
ele vendeu uma das filhas , cafajeste
2025-01-31
1
Anonymous
Elas não são tão criança deveriam ajudar você pelo que vi tem só 1 ano a mais
2024-10-08
2