O dia tinha sido longo, e a exaustão pesava sobre mim enquanto caminhava de volta para casa, com os primeiros sinais de escuridão caindo sobre Belo Monte. As sombras alongavam-se pela estrada de terra, e a luz laranja do entardecer desaparecia rapidamente, dando lugar à penumbra. Enquanto me aproximava da nossa casa, um grande e antigo casarão cercado por um jardim que, apesar de malcuidado, ainda era belo, meus pensamentos começaram a se encher de uma preocupação crescente.
Dentro da casa, o cheiro familiar de comida preenchia o ar, mas desta vez não trazia o consolo de sempre. Sabia que aquele jantar seria diferente. Não havia como escapar do desconforto que se aproximava.
Entrei pela porta da cozinha e encontrei mamãe, terminando de preparar o jantar. Sua expressão estava cansada, como sempre, mas havia uma tensão em seus olhos que era impossível ignorar. Ela havia passado o dia inteiro lidando com as demandas da casa, e agora a noite prometia ser igualmente difícil.
– Suraya, pode chamar suas irmãs para o jantar? – mamãe pediu, sem sequer me olhar, enquanto mexia a panela no fogão.
Assenti, ciente de que algo estava fora do normal. Subi as escadas para chamar Anaya e Ayana. Quando entrei no quarto delas, encontrei minhas irmãs sentadas na cama, os rostos sérios e preocupados.
– Está na hora do jantar – avisei, tentando manter minha voz calma, embora meu coração estivesse apertado.
Anaya, lançou-me um olhar que confirmava o que eu temia: algo havia acontecido. Ayana, estava em silêncio, o que era raro para ela, que normalmente era cheia de energia e sempre pronta para falar sobre o dia.
Descemos juntas para a sala de jantar, onde o papai, já estava sentado à cabeceira da mesa. Ele tinha o rosto vincado e os olhos semicerrados, como se estivesse perdido em pensamentos. O cheiro do álcool em sua respiração era sutil, mas perceptível – um lembrete constante do vício que o consumia lentamente.
Nos sentamos à mesa em silêncio, o único som era o tilintar dos talheres contra os pratos. Minha mãe serviu a comida em porções modestas, e por um breve momento, tentei me concentrar no ato simples de comer, mas o clima pesado na sala não permitia que eu escapasse dos meus pensamentos.
Foi Anaya quem finalmente quebrou o silêncio, a voz tremendo ligeiramente.
– Papai... Mãe... Hoje, no colégio, nos tiraram da sala de aula.
O garfo que eu segurava quase caiu da minha mão, e vi minha mãe congelar no meio do movimento. Papai levantou os olhos, suas sobrancelhas franzidas em confusão.
– Como assim, vós tiraram da sala? – ele perguntou, a voz carregada de uma irritação que era perigosa.
Anaya respirou fundo, tentando manter a compostura.
– O professor disse que não pagamos as propinas escolares nos últimos dois meses. Anaya, foi até a direção e o diretor disse que não poderíamos voltar até que o pagamento fosse regularizado.
Minha mãe deixou o prato cair sobre a mesa, o som ecoando pelo pequeno espaço.
– Mas... Mas como isso aconteceu? – ela perguntou, a voz carregada de desespero. – Eu pensei que tivéssemos dinheiro suficiente para cobrir isso. Gustavo!
Vi o olhar furtivo que papai lançou para o lado, um gesto quase imperceptível, mas que não escapou de mim.
– Eu... Eu achava que tinha resolvido isso – ele murmurou, a culpa evidente em sua voz.
Meu coração afundou. Sabia o que aquilo significava. Papai, mais uma vez, havia gastado o pouco dinheiro que tínhamos em seus vícios – o álcool, os jogos. E agora, a família estava pagando o preço.
Anaya olhou para ele com um misto de decepção e tristeza.
– Papai, precisamos desse dinheiro. A escola já estava nos dando prazos, mas agora parece que não há mais o que possam fazer. Se não pagarmos, vamos ser expulsas. E não é dois meses como Ayana disse, são sete meses.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Papai abaixou a cabeça, incapaz de encarar qualquer uma de nós. Minha mãe, por outro lado, parecia prestes a desabar. Suas mãos tremiam enquanto ela olhava para o prato à sua frente, os olhos brilhando com lágrimas contidas.
Ayana, que até então estava quieta, finalmente se manifestou, a voz pequena e cheia de medo.
– Éee! Sete meses! E agora, o que vamos fazer?
Mamãe fechou os olhos, como se estivesse tentando encontrar forças em meio ao desespero que a dominava.
– Eu... Eu vou falar com o diretor Ângelo amanhã – ela disse, sua voz baixa. – Vou tentar explicar a situação. Talvez possamos conseguir mais algum tempo para pagar.
Eu sabia que as palavras dela eram mais uma esperança vã do que um plano concreto. A escola já havia sido generosa em nos dar prazos anteriores, e a realidade era que não tínhamos os recursos para continuar com as despesas.
Gustavo levantou-se abruptamente da mesa, a cadeira rangendo alto no silêncio.
– Vou resolver isso – ele disse, a voz dura, quase agressiva. Mas quando olhei para ele, só vi incerteza e culpa. Sabia que ele estava perdido, afundando em um ciclo do qual não conseguia escapar.
Ele saiu da sala, e um silêncio pesado caiu sobre nós novamente. Nenhuma de nós sabia o que dizer. A situação parecia mais sombria a cada dia, e a perspectiva de um futuro incerto começava a nos engolir.
Anaya, sempre a mais sensata entre nós, tentou nos consolar.
– Vamos encontrar uma solução. Talvez possamos pedir ajuda ao Sr. Adriano. Ele sempre foi gentil com nossa família.
Minha mãe balançou a cabeça, os olhos ainda fixos no prato à sua frente.
– Não sei, Anaya. Não sei se podemos continuar dependendo da bondade dos outros. A dívida da fazenda está crescendo, e não podemos pedir mais favores.
Eu olhei para minha mãe, vendo as rugas de preocupação que se formavam em seu rosto. Era difícil vê-la assim, carregando um peso tão grande em seus ombros frágeis.
Finalmente, Ayana falou novamente, desta vez com uma determinação que eu não esperava.
– Talvez possamos começar a trabalhar. Sei que somos jovens, mas podemos ajudar de alguma forma. Não quero ver nossa família desmoronar.
Suas palavras, embora ditas com uma inocência infantil, tocaram fundo em todos nós. Sabíamos que a situação era crítica, e que algo precisava ser feito. Mas ao mesmo tempo, a ideia de que Ayana, ainda tão jovem, já estivesse pensando em sacrifícios, partia meu coração.
Minha mãe olhou para ela, os olhos cheios de uma tristeza que parecia não ter fim.
– Você é muito jovem para carregar esse tipo de fardo, Ayana. Nós, adultos, deveríamos ser os responsáveis por isso. Mas agradeço por suas palavras.
Por um momento, todos nós ficamos em silêncio, refletindo sobre a gravidade da situação. A verdade era que não havia soluções fáceis. Estávamos presos em um ciclo de dívidas e desespero, e a única saída parecia cada vez mais distante.
Quando finalmente terminamos o jantar, o ambiente ainda estava carregado de tensão. Minha mãe foi a primeira a se levantar, indo diretamente para a cozinha, provavelmente para chorar em silêncio. Anaya e Ayana seguiram para o quarto, seus passos lentos e pesados.
Eu permaneci na mesa por mais alguns minutos, perdida em pensamentos. Sabia que precisava fazer algo, encontrar uma maneira de ajudar minha família. Mas a cada solução que eu pensava, um novo obstáculo surgia em minha mente.
Finalmente, levantei-me e fui para o quarto. Quando me deitei na cama, o peso de tudo o que havia acontecido durante o dia caiu sobre mim como uma avalanche. Fechei os olhos, tentando afastar os pensamentos, mas eles continuavam a me assombrar.
No silêncio da noite, com a escuridão tomando conta do quarto, percebi que nosso futuro estava por um fio. Se não encontrássemos uma solução logo, não sabia quanto tempo mais conseguiríamos resistir. E, pela primeira vez, senti o medo real de que nossa família pudesse desmoronar sob o peso das dívidas e dos segredos que estavam por vir.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 47
Comments
Operons Cameluns
Mas também que desejo este desse senhor em querer uma menina como esposa? fica com as terras e deixa a menina com a família.
2025-01-31
1
Fatima Vieira
o pai irresponsável e as filhas pagam o pato
2025-01-31
1
Maria Luiza Vieira
O cachaceiro fas as divas.
E a família que paga.
Velho nojento asqueroso.👽🤬🤮
2024-12-16
1