A manhã ainda estava fria quando me levantei da cama, o sol tímido começando a aparecer no horizonte. Não dormi bem na noite anterior, perturbada pela situação na escola de Anaya e Ayana. Sabia que precisava ir até lá para entender exatamente o que estava acontecendo e, quem sabe, encontrar uma solução. Ainda havia uma pequena esperança em mim de que as coisas poderiam ser resolvidas com uma conversa.
Desci as escadas e encontrei mamãe na cozinha, já preparando o café da manhã. Ela estava mais abatida do que de costume, as olheiras marcando profundamente seu rosto.
– Mãe, vou à escola agora de manhã para falar com a diretora sobre a situação de Anaya e Ayana – informei enquanto pegava um pedaço de pão.
Ela assentiu, sem dizer uma palavra. Sabíamos que não havia muito o que dizer. O silêncio entre nós era carregado de um entendimento mútuo sobre a gravidade da situação.
Saí de casa rapidamente, querendo evitar um confronto com meu pai. Ele estava dormindo no sofá da sala, o cheiro de álcool ainda pairando no ar ao redor dele. Meu coração se apertou ao vê-lo ali, afundado em seus vícios, enquanto o mundo ao nosso redor desmoronava.
O caminho até a escola não era longo, mas parecia eterno naquela manhã. Enquanto caminhava, observei as paisagens de Belo Monte, que antes eram cheias de vida e cor, mas agora pareciam desbotadas, quase tristes. A fazenda Lemos Monteiro, que um dia fora um símbolo de prosperidade e trabalho árduo, agora estava quase vazia. Os campos, outrora cheios de trabalhadores e animais, estavam desolados. Poucos eram os que ainda se aventuravam por ali, tentando manter o que restava de pé.
Chegando à escola, fui direto ao escritório do diretor Ângelo. A secretária me olhou com simpatia, já sabendo o motivo da minha visita. Sentei-me em uma cadeira desconfortável enquanto esperava ser chamada.
– Suraya Lemos Monteiro – O diretor me chamou, sua voz firme mas gentil.
Entrei na sala, tentando manter a cabeça erguida apesar da vergonha que sentia. O diretor, um homem de meia-idade com um olhar severo, mas justo, me fez sinal para sentar.
– Suraya, entendo que você veio falar sobre a situação de suas irmãs – começou ela, sem rodeios.
Assenti, incapaz de encontrar as palavras certas.
– A situação é difícil, Suraya – continuou o diretor. – Nós tentamos ser flexíveis com o pagamento das propinas, mas não podemos manter as meninas na escola sem o pagamento. Já se passaram meses sem que recebêssemos nada, e infelizmente, não temos outra opção a não ser suspendê-las até que a dívida seja quitada.
Senti um nó se formar na minha garganta, mas forcei-me a permanecer calma.
– Eu entendo, senhor diretor – respondi, minha voz baixa. – Vamos tentar resolver isso o mais rápido possível. Por favor, nos dê só mais um pouco de tempo.
A diretor suspirou, olhando-me com compreensão.
– Vou dar mais uma semana, Suraya. Apenas uma semana. Mas, depois disso, não poderei fazer mais nada. Espero que você consiga resolver isso. As suas irmãs são alunas excelentes, e seria uma pena vê-las deixarem a escola como você fez.
Agradeci, sentindo um peso enorme em meu peito enquanto saía da sala. Sabia que aquela semana extra era apenas um respiro em meio ao caos que estávamos vivendo.
Do lado de fora, encontrei algumas amigas e amigos que não via há algum tempo. Eles estavam reunidos perto da entrada da escola, conversando animadamente sobre a última festa na cidade. Ao me verem, vieram ao meu encontro, as expressões de alegria rapidamente se transformando em preocupação ao notarem minha tristeza.
– Suraya, está tudo bem? – perguntou Sofia, uma das minhas amigas mais próximas. – Não me diga que estas de regresso?
Tentei sorrir, mas foi um esforço em vão.
– Estou... apenas lidando com algumas coisas em casa – respondi, tentando minimizar a situação, – Talvez no próximo ano letivo eu retorne.
Eles trocaram olhares entre si, sabendo que havia mais por trás das minhas palavras, mas, por respeito, decidiram não pressionar. Em vez disso, mudaram de assunto, tentando me distrair com conversas leves e piadas. Agradeci silenciosamente por isso, pois por um breve momento, consegui me esquecer dos problemas que me aguardavam em casa.
Depois de algum tempo, percebi que precisava voltar. Despedi-me dos amigos e comecei a caminhar de volta para a fazenda. No caminho, meus pensamentos voltaram à situação em casa, à fazenda, e ao que estava se tornando do meu pai.
Cheguei à fazenda no início da tarde. O calor do sol agora era mais intenso, e o cansaço do dia começava a pesar em mim. Ao me aproximar da casa, vi minhas irmãs, Anaya e Ayana, já do lado de fora, ajudando minha mãe e os poucos trabalhadores que restavam. O cenário era desolador. Onde antes havia vida e movimento, agora havia apenas o som abafado das poucas ferramentas ainda em uso e o farfalhar do vento entre as árvores.
– Suraya! – Ayana chamou, acenando para mim enquanto carregava um cesto de roupas.
Sorri para ela, tentando esconder a preocupação que ainda carregava. Caminhei até elas e, sem dizer uma palavra, comecei a ajudar. Juntas, nós três pegamos no pesado trabalho de cuidar da casa e da fazenda. Não havia mais espaço para brincadeiras ou para os sonhos inocentes da infância. Agora, cada dia era uma luta para manter o mínimo que tínhamos.
Enquanto trabalhávamos, observei os rostos cansados dos poucos empregados que ainda restavam. Eles também estavam lutando para manter suas próprias vidas em ordem, mas se agarravam àquela fazenda como a última esperança de um futuro melhor. Era doloroso ver como as coisas haviam mudado tanto em tão pouco tempo.
A fazenda Lemos Monteiro, que um dia fora um lugar vibrante e cheio de vida, agora parecia mais um deserto. A falta de recursos, o declínio da produção e o abandono das terras eram evidentes em cada canto. Onde antes havia plantações robustas e gado saudável, agora só restavam campos áridos e poucos animais magros.
Após horas de trabalho, finalmente nos reunimos na varanda para um breve descanso. Minha mãe estava lá, olhando para o horizonte, seu rosto marcado pela preocupação. Ela não disse nada enquanto nos sentávamos ao seu lado, mas seu silêncio dizia mais do que palavras poderiam.
Papai ainda não tinha voltado. Eu sabia onde ele estava – em algum lugar da cidade, provavelmente em uma mesa de jogo, tentando recuperar o que havia perdido, mas apenas se afundando ainda mais. Era um ciclo vicioso que parecia não ter fim.
– Mamãe, o que vamos fazer? – perguntei, a voz baixa. – A escola deu-nos mais uma semana.
Ela suspirou profundamente, olhando para mim com olhos cansados.
– Não sei, Suraya. Não sei quanto mais podemos suportar. Mas, de uma coisa eu tenho certeza: precisamos continuar. Não podemos desistir agora.
Suas palavras eram fortes, mas a tristeza em sua voz era inconfundível. Sabia que ela estava tentando nos manter unidas, tentando nos dar esperança, mas era difícil ver um futuro claro quando tudo ao nosso redor parecia desmoronar.
A noite caiu rapidamente, trazendo consigo o silêncio que apenas o campo podia proporcionar. As estrelas começaram a surgir no céu, mas mesmo a beleza da noite não conseguia dissipar a escuridão que se instalara em nossos corações.
Enquanto nos preparávamos para dormir, ouvi o som de passos pesados na entrada da casa. Era meu pai, finalmente voltando. Ele entrou, cambaleando ligeiramente, o cheiro de álcool forte o suficiente para preencher o cômodo.
Minha mãe se aproximou, tentando oferecer apoio, mas ele a empurrou de leve, resmungando algo incompreensível. Sabíamos que ele havia perdido novamente, que mais uma vez ele havia sacrificado o pouco que nos restava em sua busca desesperada por uma vitória que nunca vinha.
E ali, naquele momento, senti a profundidade do desespero que estávamos enfrentando. Não era apenas a falta de dinheiro, mas a perda da esperança, da dignidade, e o medo constante do que estava por vir.
Enquanto papai desabava no sofá, mais uma vez derrotado por seus próprios demônios, percebi que estávamos à beira do precipício. Se ele continuasse assim, não haveria mais salvação para nós. O que mais poderia acontecer antes que a escuridão finalmente nos engolisse por completo?
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Fatima Vieira
q pai é esse, misericórdia
2025-01-31
1
Maria Luiza Vieira
veio nojento, viciado.🤮🤬👽💩
2024-12-16
1