O céu de Belo Monte estava claro, sem uma única nuvem, quando o som do helicóptero começou a ecoar pelo vale. Era uma manhã como outra qualquer, mas aquela visita trazia uma inquietação que se espalhava pelos campos como um presságio. Os trabalhadores da fazenda Lá Rosa já sabiam o que significava quando o helicóptero cortava o ar — o patrão estava chegando.
Fonseca Abreu era um nome que causava arrepios em todos por ali. Ele era o tipo de homem que se destacava em qualquer lugar, mas não por sua simpatia ou gentileza. Alto e imponente, com uma postura ereta e olhos que pareciam perfurar qualquer um que ousasse encará-lo, Fonseca carregava uma aura de poder que o precedia aonde quer que fosse. Ele era o dono de terras que se estendiam até onde a vista alcançava, e sua presença em Belo Monte sempre significava negócios importantes.
A fazenda Lá Rosa era sua joia, e ele fazia questão de visitá-la regularmente, mas sempre em breves aparições, que mais pareciam inspeções do que visitas. Fonseca não era um homem de muitos sorrisos ou palavras desnecessárias. Ele exigia respeito, e todos que trabalhavam para ele sabiam disso. Seu poder não vinha apenas das riquezas, mas da maneira como ele conduzia sua vida e seus negócios: com uma mão de ferro.
O helicóptero pousou suavemente em um campo aberto próximo à sede da fazenda, levantando uma nuvem de poeira que logo se dissipou. A grande máquina, reluzente sob o sol, parecia uma criatura estranha naquele cenário rural. Quando as hélices finalmente pararam de girar, a porta do helicóptero se abriu, revelando a figura imponente do Senhor Fonseca. Ele desceu com passos firmes, sem pressa, mas com a autoridade de quem sabe que todos os olhares estão sobre ele.
Seu terno preto, perfeitamente alinhado, contrastava com a rusticidade do ambiente. A gravata vermelha destacava-se como um símbolo de poder, e os sapatos de couro brilhavam, imaculados, como se a poeira de Belo Monte não ousasse tocá-los. Ao lado dele, um capataz se apressou em segurá-lo, uma figura menor em comparação com a presença dominadora de Fonseca.
Fonseca olhou ao redor, seus olhos avaliando cada detalhe da paisagem, dos trabalhadores que pararam para observá-lo, da grande casa ao fundo e das fileiras intermináveis de café que formavam o coração da fazenda. Não havia emoção em seu rosto, apenas uma frieza calculada, como se estivesse constantemente medindo o valor de tudo ao seu redor.
Um dos administradores da fazenda, Roberto, aproximou-se rapidamente para cumprimentá-lo. Era um homem que aparentava estar sempre nervoso na presença do patrão, e naquele momento, isso não era diferente.
– Senhor Fonseca, bem-vindo de volta à Lá Rosa – disse ele, tirando o chapéu e inclinando a cabeça em sinal de respeito.
– Roberto – respondeu Fonseca com um aceno mínimo de cabeça, sua voz profunda e firme. – Qual é a situação?
Roberto hesitou por um momento, como se procurasse as palavras certas para relatar o estado da fazenda sem provocar a ira de Fonseca.
– Estamos enfrentando alguns problemas com a colheita, senhor. A praga que atingiu algumas áreas continua a se espalhar, e isso tem afetado a produtividade. Estamos fazendo o possível para controlar a situação, mas… –
Fonseca levantou uma mão, interrompendo Roberto antes que ele pudesse continuar.
– Não estou interessado em desculpas, Roberto. Quero soluções. Estou aqui para garantir que tudo esteja em ordem, e espero não me decepcionar – disse Fonseca, seu olhar fixo em Roberto, que engoliu em seco.
– Claro, senhor. Estamos… estamos redobrando os esforços. Tenho certeza de que conseguiremos conter a situação – Roberto respondeu rapidamente, tentando recuperar o controle da conversa.
Fonseca não respondeu imediatamente. Em vez disso, começou a caminhar pela fazenda, observando os trabalhadores que, imediatamente, voltaram ao trabalho, mas com um nervosismo palpável no ar. Sua presença era como uma sombra pesada sobre todos, e a única coisa que se ouvia era o som das botas dele esmagando as pedras no caminho.
A sede da fazenda era uma construção imponente, que refletia o estilo de vida luxuoso de Fonseca. Com grandes varandas de madeira, amplas janelas e uma entrada majestosa, era um símbolo de riqueza em meio à simplicidade de Belo Monte. A casa, assim como tudo ao redor, estava impecavelmente bem cuidada, um reflexo da personalidade do dono.
Ao chegar à varanda, Fonseca parou por um momento, olhando para a vasta extensão de terra à sua frente. Para ele, aquilo não era apenas uma fazenda. Era um império. Cada grão de café, cada árvore e cada trabalhador ali estavam sob seu comando. Ele sentia que aquilo era o que o definia: o controle absoluto sobre tudo ao seu redor.
Mas, por trás de toda essa grandeza, havia algo que poucos conheciam. Fonseca tinha seus segredos, e Belo Monte, com toda a sua tranquilidade, era o lugar perfeito para escondê-los. A distância da cidade grande, a lealdade quase cega dos empregados e a vastidão das terras permitiam que ele fizesse o que quisesse sem que ninguém questionasse.
Ele entrou na casa sem esperar que Roberto o acompanhasse. Era como se não precisasse de companhia, apenas de sua própria presença para preencher o espaço. Fonseca andou pelos corredores silenciosos, admirando as obras de arte nas paredes, os móveis antigos que haviam sido importados e a tranquilidade que ele sentia ali. Tudo estava exatamente como ele gostava, e qualquer mudança seria feita sob seu comando.
Ao se aproximar do escritório, uma grande sala com janelas que iam do chão ao teto e uma vista panorâmica das plantações, ele se sentiu em casa. Ali, sentado atrás de sua mesa de madeira maciça, Fonseca era mais do que um fazendeiro: ele era um estrategista, um líder que controlava cada aspecto de sua vida e de seus negócios com precisão cirúrgica.
Ele se sentou, cruzando as mãos sobre a mesa, e começou a revisar os relatórios que estavam ali. As informações sobre a praga e as finanças da fazenda não eram animadoras, mas ele não demonstrava qualquer sinal de preocupação. Fonseca sempre tinha um plano, e não seria agora que deixaria a situação sair de controle.
Enquanto lia os documentos, um leve sorriso surgiu em seus lábios. A fazenda poderia estar enfrentando problemas, mas ele sabia que tinha as cartas na manga para resolver qualquer situação. E se a colheita não fosse tão boa quanto o esperado, havia outros meios de garantir que seus negócios prosperassem.
– Roberto, quero que reúna todos os trabalhadores ao final do dia – ordenou Fonseca, sem desviar os olhos dos papéis à sua frente.
– Sim, senhor. Alguma instrução específica? – perguntou Roberto, quase com um tom de alívio ao perceber que o tom de Fonseca estava mais ameno.
– Quero falar com eles pessoalmente. É hora de lembrar a todos quem está no comando aqui.
Roberto assentiu, saindo apressado para cumprir as ordens. Fonseca sabia que sua visita traria uma nova energia para a fazenda. Ele era o tipo de homem que não precisava de violência para impor respeito; sua presença era suficiente.
À medida que o sol começava a se pôr, lançando sombras longas sobre os campos, Fonseca se levantou e olhou pela janela uma última vez antes de sair para encarar seus trabalhadores. Belo Monte podia ser apenas uma parte de seu império, mas era a parte que mais apreciava. E, no fundo, ele sabia que o poder que exercia ali era o que o fazia se sentir verdadeiramente vivo.
Mas, enquanto Fonseca saía para encontrar os trabalhadores, ele não sabia que aquele dia traria mais do que um simples controle de suas terras. Algo inesperado estava prestes a acontecer, algo que testaria seu poder e, talvez, mudaria o curso de sua vida para sempre.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Silvaneide de lima barbosa Silvinha
Eu achava que a fazenda era deles
2025-03-05
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