O amanhecer trouxe um novo dia, mas não trouxe alívio. O sol, que antes parecia trazer calor e esperança, agora parecia uma lâmpada fria e distante, iluminando um mundo que estava desmoronando ao meu redor. O desespero que havia começado a tomar conta de mim na noite anterior havia se intensificado, tornando-se uma sombra constante que me acompanhava a cada passo.
O café da manhã foi silencioso. Sentamos à mesa, os rostos pálidos e cansados, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Mamãe tentou forçar um sorriso, mas o olhar cansado em seus olhos denunciava o peso da realidade que estava tentando ignorar. Anaya e Ayana, ainda atordoadas pelo que estava acontecendo, tentavam manter a compostura, mas o medo e a preocupação eram evidentes em seus olhares.
Papai não apareceu para o café da manhã. A porta do escritório estava trancada, e o som de passos lentos e pesados atrás da porta mostrava que ele estava lá dentro, afundado em sua garrafa de cachaça, tentando fugir da dor que ele mesmo havia causado.
Eu me levantei da mesa e caminhei para o pequeno quintal da casa, onde o sol parecia mais acolhedor. Respirei fundo, tentando afastar a sensação de sufocamento que parecia me envolver. O espaço ao meu redor era familiar e confortante, mas agora parecia estranho e hostil, como se o próprio mundo estivesse conspirando contra mim.
Sentada sob a sombra de uma árvore antiga, tentei pensar em uma solução, mas a verdade era cruelmente clara: não havia saída. A proposta do Sr. Fonseca, com a qual papai havia concordado, parecia inescapável. O acordo era simples e brutal — minha mão em casamento em troca da salvação da fazenda e da dívida. Não havia espaço para alternativas ou desculpas.
Meu coração estava pesado com a resignação. As palavras do papai ainda ecoavam em minha mente, e eu sabia que ele havia tomado essa decisão não apenas para salvar a fazenda, mas para tentar proteger a nós, suas filhas, do pior. Mas isso não tornava a situação mais suportável; apenas tornava o peso da decisão mais profundo e doloroso.
O som de passos atrás de mim me fez virar. Era mamãe, que havia vindo me procurar. Seus olhos estavam cheios de uma tristeza que eu não sabia como confortar. Ela se sentou ao meu lado, e por um momento, permanecemos em silêncio, compartilhando um desespero silencioso.
— Suraya... — ela começou, sua voz tremendo. — Eu não sei o que dizer. Só quero que você saiba que eu entendo o quanto isso está sendo difícil para você. Eu também estou sofrendo.
Eu não conseguia olhar para ela. Meu desespero estava me sufocando, e a ideia de aceitar o casamento com um homem bem mais velho de mim, parecia um golpe fatal em minha dignidade e liberdade.
— Mamãe... — minha voz saiu rouca. — Não há saída. Não há como escapar disso. Sinto como se estivéssemos todas sendo forçadas a algo terrível, e eu não sei como lidar com isso.
Ela passou a mão pelos meus cabelos, tentando oferecer um conforto que não poderia realmente proporcionar. Seu toque era gentil, mas não podia apagar a realidade que nos cercava.
— Eu sei, querida. Eu sei. — Sua voz era um sussurro suave. — Mas, mesmo que não possamos mudar o que está acontecendo, precisamos tentar encontrar uma maneira de lidar com isso. Precisamos ser fortes, por você, por nós.
Sua tentativa de me confortar era bem-intencionada, mas apenas adicionava mais um nível de desespero. Eu sabia que, mesmo com todo o amor e apoio de minha mãe, o que estava prestes a acontecer não poderia ser desfeito. A ideia de me casar com Sr. Fonseca, um homem que mal conhecia e que era, na melhor das hipóteses, um estranho assustador, era insuportável.
— Eu não quero isso, mamãe. — Eu murmurei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Não quero ser forçada a casar com alguém que não amo. Não quero perder minha liberdade e minha vida para salvar algo que, no fundo, talvez nem possa ser salvo.
Mamãe me abraçou com força, e eu me deixei ser envolvida por seu calor, buscando algum alívio na proximidade dela. Mas o conforto era efêmero, e a realidade de nossa situação estava prestes a se concretizar.
Após um tempo, mamãe se levantou, os ombros caídos sob o peso do desespero. Ela olhou para mim com um misto de resignação e determinação.
— Vamos tentar enfrentar isso uma vez mais, Suraya. Não podemos deixar que o desespero nos domine. Talvez, se encontrarmos uma maneira de manter a dignidade e o respeito, possamos fazer com que as coisas se tornem mais suportáveis.
Eu a observei sair, sentindo uma mistura de gratidão e tristeza. Ela estava fazendo o melhor que podia, mas eu sabia que a situação era muito maior do que qualquer esforço individual poderia resolver.
Decidi então ir até o campo, na esperança de encontrar algum tipo de clareza na familiaridade dos lugares que havia conhecido desde a infância. O campo estava quieto, a brisa suave movendo as folhas das árvores, e o som dos pássaros cantando era um alívio temporário para o peso que eu carregava.
Passei pela plantação de café, vendo os trabalhadores cuidando das plantas com uma diligência silenciosa. Eles estavam concentrados em suas tarefas, alheios ao drama que se desenrolava na casa grande. O trabalho continuava, o tempo não parava para ninguém.
Minha mente estava um turbilhão, tentando encontrar alguma esperança ou solução. Mas, à medida que caminhava pelos campos, o desespero parecia aumentar. Eu estava perdida, sem direção, e as poucas palavras de conforto que haviam sido ditas não eram suficientes para preencher o vazio que sentia.
Cheguei ao riacho onde costumava me encontrar com Heitor. O som da água corrente era um lembrete cruel do quanto tudo havia mudado. Eu me sentei na beira da água, olhando para o reflexo turvo e distorcido que o espelho da superfície me oferecia. O que eu via era uma jovem à beira do desespero, à mercê de forças que pareciam incontroláveis.
O sol estava começando a se pôr, lançando uma luz dourada sobre o campo e o riacho. A tranquilidade do ambiente contrastava com a tempestade dentro de mim. O desespero era quase palpável, e eu me senti como uma peça de um quebra-cabeça que não se encaixava, perdida em uma vida que não reconhecia mais.
Com o céu escurecendo, sabia que o tempo estava se esgotando. O casamento estava se aproximando, e com ele, o fim de uma parte importante de minha vida. Eu precisava encontrar uma maneira de lidar com o que estava por vir, mesmo que isso significasse enfrentar um futuro que eu não desejava.
Ao voltar para casa, o desespero e a resignação eram meus companheiros constantes. A decisão de papai estava feita, e a verdade era que, mesmo com todos os meus esforços, eu não podia mudar o que estava prestes a acontecer. O que restava agora era tentar aceitar o inevitável e encontrar alguma forma de enfrentar a situação com a dignidade que me restava.
Mas, enquanto me preparava para o que viria, o sentimento de perda e impotência ainda me assombrava. O futuro era uma sombra ameaçadora, e eu estava à beira de um caminho que não escolhi, sem saber como poderia encontrar a paz em meio a tanta dor.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Darlene Vieira
só basta o pai dela perder tudo de novo, não aceitaria ele na fazenda vivendo no luxo nas custas do sofrimento dela
2025-01-01
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Angela S Silva
oxe o Heitor sumiu e ninguém fala nada, ninguém se preocupa e o pai dele
2025-02-02
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Livia Pereira
eu aceitaria o casamento com uma condição. Meu pai fora da propriedade e tudo no nome das minhas irmãs e mãe. Assim o pai no futuro não as venderia tbm.
2024-12-18
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