Apesar daquele lugar ser horrível, eu adormeci como pedra. Acordei com o barulho das empilhadeiras do depósito de Renato que descarregavam um caminhão.
Fui até a geladeira que estava repleta de comida, a dispensa igualmente cheia. Embora fosse tudo uma encenação, a tornozeleira era real, e os policiais que viriam atrás de mim também eram reais e não sabiam nada sobre a operação. Então eu não podia vacilar. Tenho que agir como um prisioneiro. Preparo ovos para o café. Me sento perto da janela que tem vista para o depósito. E após o café decido me aproximar.
Vou andando devagar para ver até onde essa tornozeleira me permite.
Quando chego em frente ao depósito ela começa a apitar. Eu saio correndo. Ouço alguns comentarem e outros rirem.
Depois do almoço decido ficar sentado na calçada na entrada do prédio. Uso bermuda para ficar visível a tornozeleira. Ela será a chave que abrirá as portas para a gangue de Renato.
Logo Dante se aproxima de mim.
- Isso é dureza em irmão. Ele diz e olha para a tornozeleira.
- Bem melhor do que uma perpétua. Eu digo.
- Quanto tempo você pegou? Ele pergunta.
- Dez anos e seis meses com esse acessório. Eu digo sorrindo.
- Qual crime? Ele pergunta
- Tráfico internacional. Eu respondo.
- Huumm!
- Você não é daqui? Veio de onde?
- Da Capital. Me transferiram para a prisão estadual da cidade e depois me mandaram para esse lugar. Eu digo.
- Tem família irmão? Ele pergunta.
- Não! Eu respondo.
- E como está fazendo para se manter. Ele pergunta desconfiado.
- Uns parceiros têm me ajudado. Se não eu estava ferrado. Eu digo.
- Certo! Ele diz e vai andando.
- Ei! Eu digo e ele olha para trás.
- Você conhece o dono do depósito? Eu pergunto.
- Por quê? Ele me responde com outra pergunta.
- Será que quando eu tirar essa merda. Ele não me arruma um trabalho? Eu tenho algumas dívidas na prisão. Eu digo, ele sorri com maldade, não diz nada e continua andando.
Os dias avançam e minha rotina se torna um tormento, preso a esse maldito apartamento, esses meses parecem uma eternidade. O espaço é tão apertado que me sento sufocado a cada momento. O cheiro de mofo misturado com o odor de cigarro queimado impregnava o ambiente, tornando o ar pesado e quase irrespirável.
O que piorava mais com o cheiro de bebida e maconha de alguns viciados que moram nesse prédio quase abandonado.
As paredes sujas e descascadas, a janela com vidros manchados e a mobília velha e desgastada só aumentam a sensação de abandono. Era como se o lugar inteiro estivesse gritando para mim, me lembrando que eu estava sozinho, completamente isolado do mundo que eu conheço. Já estive infiltrado antes, mas dessa vez é mil vezes pior.
A agonia se instala nas primeiras horas do dia e se intensificava à medida que o tempo passa. Não há absolutamente nada para fazer aqui. Cada segundo parece um peso, uma carga que eu sou forçado a suportar sem qualquer distração ou alívio. Eu não tenho contato com a equipe, nenhum telefonema, nenhuma mensagem, sei que estão me observando de algum jeito e por ser tão arriscado nem me permitiram saber. Sei que era parte do plano, mas isso não faz com que seja mais fácil. Estou completamente sozinho, deixado à própria sorte nesse teatro de ilusões.
Os sons que vem de fora são as únicas coisas que quebravam o silêncio opressor: o barulho dos caminhões que passavam esporadicamente, o som distante de música alta, o tilintar de garrafas sendo descarregadas no depósito de bebidas ao lado. Tudo isso me lembrava que havia vida lá fora, mas uma vida à qual eu não pertencia mais. Pelo menos, não enquanto estivesse usando essa droga de tornozeleira.
Ela é um lembrete constante da prisão invisível à qual estou confinado. O peso dela, a pressão contra a minha pele, era uma presença inescapável. Ela delimitava meu mundo a poucos metros da porta, me mantendo preso a esse espaço minúsculo, sem a mínima possibilidade de fuga. E mesmo que quisesse fugir, não poderia. O medo de que tudo desse errado e eu acabasse morto era real e palpável.
Para não enlouquecer, comecei a seguir uma rotina simples. Acordo cedo, faço flexões no chão frio da sala, agachamentos e abdominais. Meus músculos doem, mas é uma dor bem-vinda, um lembrete de que eu ainda estou vivo, que meu corpo ainda funcionava. Depois, me arrasto até a janela, observando o mundo lá fora, tentando decifrar os movimentos daqueles que trabalhavam no depósito. Eu sabia que, a qualquer momento, Renato poderia aparecer. Ele está me observando, mesmo que eu não o veja.
A paranoia começou a se instalar com o tempo. Cada ruído parece ser um indício de que alguém esta rjme vigiando. Era difícil dizer o que era real e o que era apenas a minha mente pregando peças. Mesmo assim, eu não podia me permitir relaxar. Sabia que precisava parecer natural, mas, ao mesmo tempo, mostrar que eu era uma força a ser reconhecida. Algo que pudesse despertar a curiosidade de Renato.
Num desses dias, tomei a decisão de sair para o lado de fora. Era início da tarde, e o sol estava alto, projetando sombras curtas e definidas no chão. Eu sei que estou sendo observado; podia sentir os olhares do outro lado da rua, dos homens que trabalhavam no depósito. Saí do apartamento e fui até o portão de entrada. Encostei nele, como quem estava apenas tomando um ar, mas minha mente estava focada em cada movimento ao meu redor.
Comecei a me exercitar ali mesmo, perto do portão. Primeiro, algumas flexões, empurrando meu corpo para cima e para baixo com força e rapidez. Cada repetição era um esforço consciente para manter a aparência de alguém que precisava se manter forte, alguém que tinha sido duro a vida inteira e continuaria sendo, mesmo nas piores condições. As gotas de suor começaram a escorrer pelo meu rosto, misturando-se com o calor do sol.
Depois, passei a fazer barras, usando uma estrutura enferrujada que sustentava o portão. As minhas mãos agarraram o metal frio, e eu me puxava para cima, usando toda a força dos braços e das costas. Meu corpo se movia em um ritmo constante, controlado, enquanto meus olhos permaneciam atentos ao movimento no depósito. Preciso mostrar que, apesar das circunstâncias, eu ainda sou uma ameaça em potencial, alguém que pode ser útil ou perigoso.
Entre um exercício e outro, fazia pausas, caminhava de um lado para o outro, sempre no limite permitido pela tornozeleira. Cada passo era calculado, um jogo de paciência para testar os limites sem nunca ultrapassá-los. Dentro de mim, uma faísca de orgulho se acendeu. Mesmo naquela situação, eu conseguia manter o controle, mostrar força.
O tempo passa, e o suor se acumula, escorrendo pelas minhas costas e encharcando a camisa. O esforço físico era exaustivo, mas também um alívio. Pelo menos por aqueles momentos, eu conseguia esquecer a agonia da solidão, a angústia de estar preso em um lugar tão pequeno, tão desprovido de qualquer coisa que pudesse me distrair do medo constante de falhar.
De repente, Dante sai de dentro do depósito e vem até mim.
- Sentindo a pressão? Ele pergunta. Eu dou de ombros.
- Cuidado para não surtar! Ele diz rindo.
- Já passei por coisa pior. Isso é moleza! Eu digo com seriedade, ele me observa.
- O problema é que não nasci para ficar preso. Sou um cara livre, que cruza fronteiras, seja em um avião, navio ou até nadando se for necessário. Sou um cara se arrisca e não um passarinho em um gaiola. Eu digo, ele parece se impressionar.
- Falou! Eu digo, viro as costas e entro.
Dante pega o celular e diz algo para alguém.
Volto ao apartamento e fechei a porta atrás de mim. Um passo a frente, eu sabia que era observado e Dante provou que estou certo. A isca foi jogada, agora é esperar o momento certo, para pegar o grande tubarão.
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Atualizado até capítulo 80
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Mariza Marquez Guimarães
Eu quero A mãe de Emili
2024-10-05
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