Passo a noite revirando na cama, a mente inquieta com as palavras de Mendes. A pequena pousada, que em outra situação talvez fosse acolhedora, parece opressiva nesta madrugada sem fim. A escuridão da noite penetra pelas frestas das cortinas, e o silêncio é quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio antigo na parede. Tento afastar os pensamentos, mas eles voltam com força redobrada. Cinco crianças desaparecidas, e ninguém parece se importar. Isso não é algo que eu possa ignorar.
Quando a primeira luz da manhã finalmente atravessa a janela, sinto que não dormi nada. O rosto cansado refletido no espelho do pequeno banheiro me lembra que tenho que tomar uma decisão. E, naquele momento, eu sei o que preciso fazer.
Na manhã seguinte, entro na delegacia, onde o ambiente é tão calmo quanto na noite anterior. A poeira ainda se acumula nos cantos das mesas, e o ventilador de teto continua a girar preguiçosamente. Mendes já está em sua sala, tomando um café enquanto lê o jornal local. Quando me vê entrar, ergue os olhos com uma expressão neutra, mas há uma leve expectativa em seu olhar.
- Bom dia, Campos. Diz ele, colocando a xícara de lado.
- Bom dia, delegado.
- Pensou sobre o assunto? Ele pergunta.
- Mal preguei os olhos...mas eu aceito a missão. Respondo sem rodeios, tomando o assento em frente à sua mesa. Meu tom é firme, decidido. Não há mais dúvidas em minha mente.
Mendes acena lentamente, como se já esperasse essa resposta.
- Imaginei que diria isso. Ele se recosta na cadeira e cruza os braços.
- Muito bem, vou te explicar como será. A missão é perigosa, Campos, mas se alguém pode fazer isso, é você.
Ele faz uma pausa, como se ponderasse por onde começar. Eu permaneço em silêncio, aguardando as informações que ele havia ocultado na noite anterior.
- Você vai se infiltrar na maior gangue da nossa cidade. Ele começa, o tom mais grave.
- "Los Corvos". Eles controlam quase todo o tráfico de drogas na região, mas até agora não conseguimos uma única prova sólida para incriminá-los.
"Los Corvos". O nome diz o quanto são sombrios e letais.
- Eu já ouvi dizer algo sobre eles, mas realmente pouco se sabe. Sei que alguns crimes foram associados a eles, mas sem qualquer prova. Eu digo.
- Exato. O líder da gangue é Renato Ali Mustafa. Para todos, ele é apenas um importador de bebidas, o maior distribuidor do país. Parece legítimo, certo? Mas sabemos que ele usa isso como fachada para encobrir seus negócios sujos. É cuidadoso, calculista, mortal e até agora, tem sido intocável.
- Se ele é tão cuidadoso, como vou conseguir me infiltrar? Pergunto, tentando antecipar os desafios.
Mendes se inclina para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
- Renato não confia em ninguém. Ele vai te testar, Campos. E quando isso acontecer, não poderá falhar. Se você errar, não só será impedido de fazer parte da gangue, mas será executado. Eles não perdoam.
Eu absorvo essa informação, sentindo o peso da missão aumentar em meus ombros. Não posso errar. Não posso falhar.
- Renato tem um braço direito. Continua Mendes, com um tom que sugere que essa informação é crucial.
- O nome dele é Dante Ferraz. Amigo de longa data de Renato, é mais do que apenas seu segurança. Dante daria a vida por Renato. Ele é um ex-soldado, um excelente atirador de elite e lutador. Ele nunca está longe de Renato, então, se conseguir conquistar a confiança de Dante, você estará um passo mais perto de Renato.
- E como exatamente eu vou me infiltrar? Pergunto, querendo entender os detalhes.
Mendes abre uma pasta em sua mesa e tira alguns documentos, que ele coloca diante de mim.
- Vamos usar uma identidade nova para você. Você será Davi Costa, você foi preso por tráfico internacional, e cumpriu 10 anos, mas terá que cumprir 6 meses de prisão domiciliar. Vamos fazer parecer que você está em busca de um novo começo, mas que ainda tem contas a acertar. Os Corvos estão sempre à procura de pessoas dispostas a tudo, e essa é sua entrada.
Mendes me entrega um envelope com documentos falsificados: identidade, antecedentes criminais, tudo perfeitamente forjado para sustentar essa nova vida que vou assumir.
"Desgraçado, ele já havia preparado tudo! Tinha certeza que eu aceitaria, eu penso"
— E sobre o líder, Renato? Pergunto, folheando os documentos.
- Qual é a história dele?
Mendes respira fundo, como se estivesse prestes a mergulhar em algo mais profundo.
- Renato Mustafa é um enigma. Veio para o país aos 21 anos, exilado junto com sua irmã Laura, sua irmã caçula. Ele era um soldado de guerra, treinado para matar. A família dele foi morta na guerra, e foi Renato quem criou Laura, que é cinco anos mais nova. Essa história trágica o moldou, transformando-o no homem implacável que é hoje.
As peças começam a se encaixar em minha mente. Renato não é apenas um criminoso; ele é alguém que foi forjado pelas circunstâncias mais brutais. Isso o torna perigoso e imprevisível.
— Laura ainda está com ele? Pergunto, tentando obter uma visão completa da situação.
Mendes balança a cabeça.
- Sim, ela vive em uma propriedade afastada, nos arredores da cidade. Não sabemos muito sobre ela, exceto que é extremamente protegida por Renato. Quase ninguém tem acesso a ela.
- Parece uma missão quase suicida, delegado. Digo, tentando processar o risco que estou prestes a assumir.
Mendes me encara com seriedade.
- Campos, essa missão é ultrassecreta. Não informei os detalhes antes porque não podia. Só você pode fazer isso. Sua habilidade de se adaptar e se infiltrar é o que precisamos para derrubar essa gangue.
A sala fica em silêncio enquanto peso as palavras dele. O ar parece mais denso, como se o peso da responsabilidade estivesse pressionando o ambiente ao meu redor. Mas ao mesmo tempo, sinto a adrenalina começar a correr em minhas veias. Isso é o que eu fui treinado para fazer.
- O Delegado. Conte comigo, mas depois dessa quero férias de 90 dias. Eu digo.
- Combinado Campos. Ele diz e sorri.
- Vou derrubar Renato Navarro e os Corvos.
Mendes assente, satisfeito com minha resposta.
- Muito bem, Campos. A partir de agora, você é Davi Costa. Prepare-se, porque logo você será apresentado a Renato. E lembre-se, uma vez dentro, não há volta.
Ele se levanta e me oferece a mão. Eu a aperto com firmeza, ciente de que estou prestes a entrar em um dos maiores desafios da minha vida. A missão é perigosa, mas a determinação que sinto me impulsiona para frente.
- Vamos mostrar a esses Corvos que não estão acima da lei. Conclui Mendes, com um brilho de esperança em seus olhos.
Eu saio da sala com a nova identidade nas mãos e uma única certeza: essa cidade está prestes a descobrir que os segredos mais sombrios não ficarão enterrados por muito tempo.
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Atualizado até capítulo 80
Comments
Marly G Vieira
muito interessante o enredo gostaria que tivesse fotos ,para que tivesse ênfase na historia
2025-03-31
0
Jossileide cardeal
quanto mais eu leio mais eu tô gostando
autora vc tem os meus sinceros parabéns
2024-10-29
2
Elenita Treptow
começou vamos ver se não se perde pelo meio
2024-10-22
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