O carro da polícia que me leva para meu novo lar balança a cada buraco na estrada. Não é um transporte confortável, mas fazia parte da encenação. No banco de trás, com as mãos algemadas, eu mantinha o olhar fixo pela janela, observando a paisagem mudar de áreas mais movimentadas para o subúrbio decadente. As casas ficavam menores, os jardins menos cuidados, e as fachadas, castigadas pelo tempo, revelando um local onde a esperança parecia ter dado lugar ao conformismo.
O carro finalmente parou diante de um prédio velho, com tinta descascando e rachaduras que corriam pelas paredes como veias em um corpo cansado. Outro carro da polícia estaciona logo atrás, e os policiais saem para me escoltar até o que será meu novo endereço. A rua está praticamente deserta, exceto por alguns olhares curiosos de alguns homens trabalhando em um galpão que deve ser o deposito de bebidas do Renato.
Assim que me tiraram do carro, o cheiro de fumaça e esgoto tomou conta do ambiente. Era o tipo de lugar onde ninguém queria estar, e era exatamente por isso que eu estava ali. Davi Costa, o personagem que eu agora encarnava, estava começando sua nova vida.
Um dos policiais, um homem corpulento com olhos duros, me empurrou levemente na direção da entrada.
- Vamos, Costa. O juiz foi generoso em te deixar cumprir o resto da pena aqui, então é melhor você se comportar.
Eu apenas acenei, mantendo o personagem. Era vital que todos acreditassem na história: Davi Costa, um criminoso condenado, agora tentando sobreviver aos últimos meses de prisão domiciliar em um apartamento decadente.
Passamos pela entrada, e o rangido da porta de metal soou como um lamento enquanto se abria para revelar o interior. A primeira impressão foi pior do que eu esperava. O cheiro de mofo impregnava o ar, misturado com o odor persistente de cigarro. O chão de cimento bruto estava manchado, e a tinta das paredes descascava em grandes pedaços, revelando camadas de um passado que ninguém mais queria lembrar.
A primeira porta a direita é a minha. E ao abrir a porta vejo um apartamento pequeno, composto por uma sala que também servia como cozinha, um quarto minúsculo e um banheiro que parecia ter sido esquecido por qualquer noção de limpeza. Uma lâmpada pendurada no teto da sala piscava de maneira intermitente, iluminando de forma fraca o ambiente já sombrio.
- Bem-vindo ao seu novo lar. Comentou a inspetora Carla. Havia um tom de ironia em sua voz, como se estivesse testando minha paciência. Ela se aproximou de mim, ajustando a tornozeleira eletrônica no meu pé.
- Lembre-se, Costa, você não pode sair deste lugar. O perímetro permitido é de apenas cinco metros da sua porta.
- Sim Sra. Eu respondo no mesmo nível de ironia.
Carla fez questão de apertar a tornozeleira com força. Senti a pressão contra a pele, um lembrete constante da prisão invisível que agora me controla.
- Se você passar do limite permitido, a tornozeleira vai apitar e você tem 30 segundos para entrar e apertar o botão desse aparelho. E ela desligará o aviso. Se não fizer isso uma viatura virá e você terá problemas. E não se preocupe, ela é à prova d’água. Pode molhar o quanto quiser, não vai se livrar dela. Diz o policial.
Eu não respondi. Apenas acenei com a cabeça, mantendo a expressão de quem já havia aceitado a derrota. No entanto, dentro de mim, a ansiedade crescia. O peso da situação estava começando a me atingir de forma real. Cada detalhe daquele lugar parecia gritar que eu estava em uma armadilha, uma prisão sem grades, mas igualmente sufocante.
Os policiais se retiraram lentamente, como se quisessem prolongar o desconforto da situação. Quando chegaram ao portão, Carla se virou para mim mais uma vez, aumentando o tom de voz para garantir que todos ao redor pudessem ouvir.
- Não faça nenhuma idiotice, Sr. Costa Disse ela, com um olhar que misturava advertência e desdém.
- Nós sabemos o que você é capaz, então não pense que vamos facilitar para você.
Ela então entra na viatura, e os outros policiais seguiram. Mas antes que pudessem ir embora, eu senti uma onda de raiva e desprezo subir pelo meu corpo. Era preciso dar o toque final àquela cena, algo que solidificasse ainda mais minha persona para quem estava observando.
Levantei a mão e mostrei o dedo do meio para os policiais enquanto se afastavam. Foi um gesto rápido, mas calculado. O tipo de provocação que alguém como Davi Costa faria sem pensar duas vezes. Os policiais ignoraram, acostumados com o desrespeito que enfrentavam nas ruas, mas para mim, isso não importava.
Quando os carros finalmente desapareceram de vista, eu pude sentir os olhares vindos do depósito de bebidas ao lado, o território de Renato. Trabalhadores sujos, com camisetas manchadas e cigarros pendendo nos lábios, me observavam com curiosidade. O gesto tinha surtido efeito; eu tinha chamado a atenção.
Mas o que me chamou a atenção foi o olhar de um homem alto, com cerca de 1.80m. Branco, forte e que vestia uma calça larga preta, coturnos preto e uma camiseta regata colada também preta. A julgar pela sua postura e expressão ele deve ser o Dante.
Dei alguns passos até o portão do prédio, encostando-me na grade enferrujada, como quem já estava cansado do dia. A brisa morna da tarde trouxe consigo o cheiro de álcool barato e gasolina, uma mistura que se tornaria familiar para mim nas próximas semanas. Cada detalhe daquele lugar estava impregnado de uma sensação de perigo iminente, e eu sabia que teria que me adaptar rapidamente.
O sol começava a se pôr, lançando sombras longas nas ruas desertas. O depósito de Renato parecia mais ameaçador sob aquela luz, como uma criatura adormecida que estava esperando o momento certo para atacar. Sabia que, a partir daquele momento, minha vida dependia da minha capacidade de me tornar parte daquele cenário, de me camuflar em meio aos criminosos e conquistar a confiança de Renato.
Enquanto os últimos raios de sol desapareciam, deixando o céu em tons de laranja e roxo, eu entrei de volta no apartamento, fechando a porta atrás de mim. O silêncio era opressor, apenas interrompido pelo zumbido distante de um ventilador quebrado. A solidão daquele lugar parecia se enroscar ao meu redor, como se o próprio ambiente quisesse me engolir.
Caminhei até a pequena janela, de onde tinha uma vista parcial do depósito. De lá, eu observava a movimentação, os homens carregando caixas, as conversas abafadas que não conseguia distinguir. Era ali que eu precisava me infiltrar, ganhar a confiança deles, sem nunca baixar a guarda.
Mas, por enquanto, tudo que eu podia fazer era esperar e observar, sentindo o peso da missão que estava apenas começando. Sabia que aquele era só o primeiro passo de uma jornada que poderia muito bem ser a última.
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Atualizado até capítulo 80
Comments
Jossileide cardeal
já estou ficando cada vez mais gamadinha
aí papai
2024-10-29
1
Manhwa romance
/Chuckle/
2024-09-03
1