O espelho do banheiro refletia uma versão de mim mesmo que eu mal reconhecia. A lâmpada amarelada acima de mim lançava sombras duras sobre meu rosto, destacando cada linha. Eu passei a navalha uma última vez, removendo os últimos pêlos da barba que ainda teimavam em permanecer. A sensação do rosto completamente exposto ao ar era estranha, desconfortável, como se eu estivesse me despindo de uma camada de proteção.
- Davi Costa. Murmurei para o reflexo. Meu novo nome soava estranho na boca, mas eu precisava me acostumar. Davi Campos, o detetive, o homem da lei, tinha que desaparecer. Em seu lugar, surgia um novo eu, alguém que eu ainda não conhecia bem, mas que precisaria habitar com naturalidade pelos próximos meses.
Minha mão, ainda trêmula pela adrenalina e pela ansiedade, passou pela rosto agora liso. Como detetive, sempre mantive uma aparência malvada. Sem essa farda pareço um cara normal. Mas Davi Costa não podia se dar ao luxo de parecer um policial. Ele era um homem caído em desgraça, alguém que a vida tinha derrubado e que agora estava tentando se reerguer de uma maneira ou de outra.
- Tudo bem! Murmurei novamente, tentando convencer a mim mesmo. Era preciso. Não havia outra escolha.
Saí do vestiário da Delegacia e voltei a sala do Delegado Mendes.
- Está feito. Anunciei, cruzando os braços sobre o peito, ainda tentando me acostumar com a leveza na cabeça. Mendes levantou os olhos da prancheta e me examinou por completo, do topo da cabeça raspada até a barba espessa.
- Bem, você certamente não parece mais o detetive Davi Campos. Ele disse, seu tom era neutro, mas havia um traço de aprovação em sua voz.
- Agora é só questão de tempo até que as pessoas comecem a ver você como Davi Costa.
- Isso se eu conseguir sobreviver tempo suficiente para que isso aconteça. respondi, meio brincando, meio sério. Eu sabia dos perigos que estavam por vir. Sabia que essa missão poderia ser a última se qualquer detalhe escapasse ao meu controle.
Mendes esboçou um meio sorriso, mas os olhos continuavam sérios.
- Você já passou por coisas piores, Davi. Só não pode deixar o medo tomar conta. Ele diz.
-.O medo me mantém vivo, chefe. Eu retruquei.
- Sem ele, eu já estaria morto há muito tempo.
Mendes assentiu, concordando. Ele sabia tanto quanto eu que o medo, quando controlado, era uma ferramenta, uma arma que poderia ser usada para se manter alerta e preparado para qualquer eventualidade.
Ele se levantou da cadeira e entregou as chaves de um carro antigo e das portas do apartamento.
- Aqui estão as chaves do seu novo apartamento. E do seu novo carro, é um Chevette 79. Parece que foi montado com fita adesiva e um pouco de esperança, mas vai servir para manter a imagem de quem você precisa ter.
Eu olhei para as chaves em minha mão e suspirei.
- Faz sentido. Nada de chamar atenção desnecessária.
- Exatamente. Mendes respondeu. Ele então apontou para a pequena tornozeleira que estava em cima da mesa.
- E tem isso aqui. Vamos colocar a tornozeleira em você agora. A história é que você está em prisão domiciliar por mais alguns meses. Isso vai justificar o fato de você estar sempre por perto, no portão, observando o movimento. Precisamos que Renato note você, mas de maneira sutil. Ele precisa ver você como uma oportunidade, não como uma ameaça. Ele explica.
Eu senti o estômago apertar enquanto Mendes falava. A tornozeleira era um símbolo de confinamento, de estar preso, mesmo que fosse uma prisão falsa. Mas o que realmente me incomodava era o que ela representava em um sentido mais profundo. Ela era um lembrete de que eu estava entrando em um jogo onde a menor falha poderia significar o fim.
-.E se ele não morder a isca? Perguntei, ainda me segurando à última gota de racionalidade que me restava.
- Faça ele morder, essa opção não existe. Mendes respondeu, com a mesma tranquilidade de sempre.
- Mas acho que ele vai. Renato gosta de gente desesperada, de homens que não têm mais nada a perder. Ele vai querer te usar para expandir seu controle. Você só precisa garantir que ele veja você dessa forma.
O peso das palavras de Mendes caíram sobre mim como um manto de chumbo. Eu sabia que ele estava certo. Se eu quisesse que essa missão tivesse sucesso, teria que me tornar aquele homem que ele estava descrevendo – alguém quebrado, desesperado, disposto a qualquer coisa para sair do buraco em que tinha se metido.
Mendes se aproximou e, com uma expressão que misturava responsabilidade e preocupação, colocou a tornozeleira no meu pé. O som do fecho clicando no lugar foi como um sino de uma porta se fechando, um sinal de que o caminho à frente não tinha volta.
- O primeiro passo é o mais difícil. Mendes disse, se afastando e me observando com cuidado.
- Você vai ficar bem, Davi. Você foi escolhido para isso porque sabemos que é capaz.
Eu não respondi. Sabia que qualquer resposta seria vazia naquele momento. No fundo, eu não tinha certeza se estava preparado para o que viria. Estava entrando em um território onde as regras eram incertas, onde a linha entre o certo e o errado era tão fina que um passo em falso poderia destruí-la completamente.
Peguei as chaves e as enfiei no bolso do casaco, sentindo o metal frio contra a minha pele.
- E depois? Perguntei, tentando manter a mente no presente, no que precisava ser feito.
- Depois, você vai para o portão, Mendes disse.
- Fique de bobeira, como se não tivesse nada melhor para fazer. Observe o movimento, mas sem parecer muito interessado. Deixe que as pessoas ao redor comecem a te notar, especialmente Renato. Ele vai se perguntar quem você é, o que está fazendo ali. E quando ele perguntar, você precisa estar pronto para responder.
Eu assenti, sentindo a adrenalina começar a subir novamente. Era o momento de entrar no personagem, de me tornar Davi Costa. O homem que vivia à margem, com uma ficha suja e uma vida sem direção. Eu precisava me transformar em alguém que pudesse ganhar a confiança de Renato, mas sem perder a minha própria identidade no processo.
- Lembre-se...Mendes continuou, sua voz agora um pouco mais baixa, quase como se estivesse compartilhando um segredo.
- Se em algum momento você sentir que as coisas estão fugindo do controle, você pode sair. Sempre há uma saída, mesmo que não pareça. Não se deixe levar pelo papel. No fim das contas, você ainda é Davi Campos, e precisamos de você vivo. Ele diz.
Eu sabia que ele estava tentando me confortar, mas as palavras soavam distantes, quase irreais. Eu já tinha visto o suficiente em minha carreira para saber que nem sempre há uma saída. E mesmo que houvesse, nem sempre era a mais fácil de encontrar.
- Vou fazer o meu melhor. Respondi, não por Mendes, mas por mim mesmo. Precisava acreditar que isso seria suficiente.
Peguei o casaco que estava pendurado na cadeira e o vesti. A sensação do tecido grosso contra minha pele raspada era um lembrete físico de que eu estava assumindo uma nova identidade.
- Está pronto para ser levado? Ele perguntou.
Respirei fundo e disse:
- Estou!
Mendes sorri, caminho em direção à porta, sentindo os olhos de Mendes em mim, como se ele estivesse tentando gravar cada detalhe da minha aparência antes que eu saísse para o que poderia ser a missão mais perigosa da minha vida.
- Boa sorte, Davi. Mendes disse, quando eu já estava saindo.
- Eu vou precisar. Respondi, fechando a porta atrás de mim.
Ao chegar na calçada, duas viaturas me aguardavam. Carla a inspetora estava em uma delas. Ela abre a porta de trás da viatura para que eu entre, mas antes me algema.
Nunca estive desse outro lado. E era estranho estar na posição de preso, mas isso era importante para o nosso grande teatro.
Carla fecha a porta e seguimos para meu novo destino...
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Atualizado até capítulo 80
Comments
Marcia 🌻
Tô gostando muito Cintia diferente dos outros livros 🥰🥰
2024-08-29
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