MATILHA DO NORTE

Ao chegarem à matilha, Freya ficou deslumbrada ao vislumbrar o enorme castelo que se erguia majestoso no meio da floresta. O castelo, com suas torres imponentes e janelas adornadas, parecia um sonho saído de um conto de fadas. A iluminação suave que emanava de dentro criava um contraste mágico com a escuridão da noite, e ela não pôde deixar de sentir um calor acolhedor invadir seu coração.

— Vamos, você precisa descansar! — exclamou Órion, sua voz ressoando com a autoridade de um líder natural.

Freya o seguiu para dentro, os olhos arregalados de admiração enquanto explorava o interior. O espaço era vasto e requintado, com paredes adornadas por tapeçarias e um aroma de madeira envelhecida e cera que permeava o ar. Ela sentiu como se tivesse entrado em um mundo completamente diferente, um lugar onde as regras eram diferentes e a magia parecia vibrar em cada canto.

— Sente-se! — ordenou ele, apontando para um sofá que ocupava uma parte do grande salão.

Freya obedeceu, mas ao se sentar, ela percebeu que seus ferimentos ainda estavam sangrando, a dor começando a se tornar mais aguda agora que a adrenalina estava diminuindo.

Órion, percebendo a angústia dela, rapidamente se dirigiu a uma prateleira onde guardava alguns frascos e lenços limpos. Com um cuidado surpreendente, ele tratou das feridas de Freya, limpando-as com destreza e aplicando ervas moídas que pareciam ter propriedades mágicas.

— Obrigada! — exclamou a jovem, olhando para ele com gratidão genuína.

— Não me agradeça! Agradeça aos deuses, pois se fosse por mim, você ainda estaria lá! — sua resposta foi ríspida, mas Freya percebeu que havia uma camada de preocupação em suas palavras. A dureza de sua voz não conseguia esconder o cuidado que ele tinha ao cuidar dela.

Depois de tratar suas feridas, Órion a levou para um quarto. Freya entrou e, ao ver o ambiente, sentiu uma onda de alívio. Aquela foi a primeira vez em muito tempo que ela se sentia segura.

— Descanse, — disse, fechando a porta atrás de si. — Amanhã será um novo dia, e você precisará de forças.

Sozinha no quarto, Freya deixou-se cair na cama, fechando os olhos por um momento. As emoções da noite a inundaram, e uma mistura de confusão e esperança se formou em seu peito.

Enquanto a noite avançava, a jovem finalmente permitiu-se relaxar, sabendo que, independentemente dos desafios que viriam, ela não estaria mais sozinha. E, de alguma forma, a conexão que havia começado na floresta ainda pulsava dentro dela, como uma chama que estava prestes a se acender.

...****************...

No outro dia, os primeiros raios de sol filtraram-se pela janela do quarto, despertando Freya da sua longa e cansativa noite de sono. Ela se levantou, ainda um pouco atordoada, e caminhou até a janela. Ao abrir as cortinas, seus olhos se iluminaram ao ver a vida pulsando lá fora: crianças brincando, adultos conversando, tudo lembrava o vilarejo de onde viera. Um sorriso se formou em seu rosto enquanto ela observava a cena, sentindo-se um pouco mais em casa.

Entretanto, o som de sussurros atrás da porta chamou sua atenção.

— Será que ela já acordou? — perguntou uma voz ansiosa.

A curiosidade tomou conta de Freya, e ela decidiu abrir a porta. Assim que fez isso, duas jovens que estavam prestes a entrar se assustaram, dando um pequeno grito.

— Oi! — exclamou uma delas, com um sorriso largo.

A jovem, ainda um pouco tímida e envergonhada, respondeu:

— Oi!

— Você é a humana? — perguntou uma delas, com os olhos brilhando de curiosidade.

Freya hesitou por um instante e, sem jeito, respondeu:

— Eu me chamo Freya.

— Eu sou Liana! — disse a jovem, cheia de entusiasmo.

As duas se entreolharam, como se estivessem aguardando um convite para entrar. Percebendo isso, Freya sorriu e disse:

— Entrem!

As jovens entraram, sentando-se na cama e começando a admirar os cabelos loiros dela, passando os dedos por suas mechas como se fossem algo precioso.

— Você é a Luna do meu irmão? — perguntou Liana, deixando Freya confusa.

Liana

— Como assim? — Freya perguntou, intrigada.

Antes que Liana pudesse responder, uma mulher madura e imponente interrompeu a conversa. Ela olhou para a jovem de cima a baixo, avaliando-a com um olhar crítico.

— Você precisa de um banho! — disse a mulher, sua voz firme.

Freya olhou para si mesma, percebendo que estava suja e com suas roupas rasgadas. Um leve rubor subiu em seu rosto enquanto se levantava, e as meninas a conduziram para o banheiro.

No banheiro, Freya se viu imersa em uma banheira cheia de água morna, enquanto Liana e a outra jovem esfregavam delicadamente seu corpo. O calor da água e o toque suave das meninas a faziam sentir-se relaxada, como se todas as suas preocupações estivessem se dissipando.

Enquanto isso, no salão da Matilha, a atmosfera estava tensa. Órion estava reunido com os betas e sacerdotes. A conversa girava em torno da jovem humana que havia chegado e das implicações de sua presença.

— Disseram que você ouviu o chamado dela e que a protegeu. As regras da matilha são claras em relação a esses sinais. A deusa Luna a enviou para você — disse a sacerdotisa, com um olhar sério.

— O que vocês querem dizer com isso? — perguntou Órion, confuso e um pouco irritado.

— A matilha diz que quando os deuses enviam uma companheira ao alfa, ele sente-se fortemente chamado, e seu instinto de proteção nasce. Se os deuses a enviaram para você, então ela deve ser sua companheira! — exclamou a sacerdotisa, sua voz firme.

— Eu não a escolhi! Nós nem sabemos se ela é como nós! — Órion protestou, sua frustração crescendo. — Eu sou o Alfa, e eu não irei permitir isso.

— Você é o alfa, mas nossas regras servem para todos. A paz entre os lobos e os deuses deve ser mantida — disse um beta, seu tom grave ecoando na sala.

A discussão se intensificou, vozes se elevando e gestos se tornando mais dramáticos. Órion se sentia encurralado entre seu dever como líder da matilha e suas próprias dúvidas sobre Freya. Enquanto isso, em seu quarto, a jovem estava se transformando, não apenas fisicamente, mas também começando a entender o papel que poderia desempenhar naquela nova vida.

Depois de se arrumar, ela respirou fundo, sentindo a ansiedade a acompanhá-la. Com passos hesitantes, ela fez seu caminho até a sala de jantar, onde uma mesa magnífica a aguardava, repleta de frutas vibrantes e pães quentes, o aroma delicioso pairando no ar. O estômago roncando, ela se sentou, mal conseguindo conter a fome que a consumia, e começou a devorar a refeição, quase como se cada garfada pudesse ajudá-la a esquecer a confusão que a cercava.

Enquanto se perdia no sabor dos alimentos, Arya, a mulher que havia entrado em seu quarto, juntou-se a ela. A matriarca, de presença forte e olhar penetrante, a observou por um instante.

— Freya, meu nome é Arya. Sou a matriarca dessa família e mãe do Alfa — apresentou-se, sua voz firme e clara, transparecendo uma mistura de autoridade e preocupação.

Freya levantou os olhos, um misto de respeito e nervosismo em seu olhar.

— Prazer em conhecê-la, Arya — respondeu, tentando esconder a insegurança que a consumia.

A matriarca, percebendo a tensão no ar, inclinou-se levemente à frente.

— Me diga, como tudo isso aconteceu? — a pergunta saiu como uma súplica, uma tentativa de entender as reviravoltas do destino.

Freya hesitou, as lembranças da noite anterior inundando sua mente como um turbilhão. Ela se lembrou da lua cheia, brilhando intensamente no céu, como se estivesse chamando-a.

— Na noite passada, eu estava olhando para a lua cheia e algo nela me atraiu, como se estivesse hipnotizada. Era como se uma força invisível me puxasse. Quando percebi, já estava na floresta... — começou a explicar, a voz tremendo levemente. — Dois homens me atacaram, e em meio ao desespero, os lobos vieram em meu socorro.

Arya escutou atentamente, um sorriso de admiração se formando em seu rosto, mas também um peso de responsabilidade em seu coração.

— Bom, termine de comer, está bem? — finalizou, a mente ainda processando as revelações, e se levantou para ir ao salão, a tensão a acompanhando.

Ao entrar, encontrou uma discussão acalorada. A atmosfera estava carregada, como se um trovão prestes a estourar estivesse prestes a se manifestar.

— Freya foi enviada pela deusa Luna a você, Órion! — exclamou Arya, interrompendo a conversa tensa, a voz ressoando com uma força inesperada.

Órion, virou-se para a mãe, sua fúria evidente em cada músculo tenso.

— Freya foi encantada pela deusa Luna que a levou até lá. Tudo isso teve um propósito. Se os deuses a enviaram, temos que fazer as vontades deles! — insistiu Arya, a determinação em sua voz quase palpável.

— Eu não irei me unir a essa mulher! Ela nem chega a ser um ômega! Isso é um absurdo! — gritou Órion, a raiva pulsando em suas veias, como um vulcão prestes a entrar em erupção. — Eu sou o Alfa dessa matilha e não aceitarei uma humana como minha companheira! — Ele se virou abruptamente, o desdém em seu olhar tão profundo quanto o abismo.

Lucky, percebendo a gravidade da situação, decidiu seguir o sobrinho, o coração pesado com a tensão que permeava o ar.

— Órion, pense um pouco, eles estão certos... — começou Lucky, sua voz suave, mas foi imediatamente silenciado.

— Cale-se! — gritou, seu rosnado cortante como uma lâmina afiada, fazendo Lucky recuar, os olhos arregalados.

Órion, agora com os olhos ardendo em um vermelho intenso, encarou Lucky, a fúria e a dor em seu olhar quase insuportáveis.

— Se eu soubesse que isso aconteceria, eu a teria deixado lá para morrer! — gritou, cada palavra saindo como se fosse uma ferida aberta, exposta ao vento.

Lucky, com uma serenidade que parecia quase sobrenatural, olhou nos olhos do sobrinho e disse:

— Você teria a salvado do mesmo jeito, porque ela pertence a você, querendo ou não.

Aquelas palavras ressoaram como um eco profundo na mente de Órion, mas ele, tomado pela raiva, virou as costas para Lucky, deixando-o para trás na sala, onde a tensão ainda pairava no ar como uma tempestade prestes a estourar. Com o coração acelerado e a mente turvada pela confusão, o alfa atravessou a sala de jantar, seus passos pesados ecoando em um ritmo frenético. Ao avistar Freya sentada à mesa, um turbilhão de emoções se agitou dentro dele. O olhar dela, repleto de vulnerabilidade e incerteza, encontrou o dele, despertando um sentimento que ele tentava desesperadamente reprimir.

Um misto de desprezo e frustração se apoderou de seu ser, como se a simples presença dela fosse um lembrete do peso de sua responsabilidade. Sem uma palavra, ele a ignorou, saindo da casa e se transformando em um enorme lobo negro, a forma de sua verdadeira natureza. A mudança foi instantânea, e ele sentiu a liberdade de seus músculos se esticando, a adrenalina pulsando em suas veias enquanto corria pela floresta, a fúria e o desespero se entrelaçando em seu coração.

Enquanto isso, Freya decidiu dar um passeio pelo vilarejo, na esperança de que a brisa fresca e os sons da vida cotidiana pudessem acalmar sua mente inquieta. No entanto, à medida que caminhava pelas ruas, sentiu os olhares curiosos e os sussurros que a seguiam como sombras. A atmosfera estava carregada de murmúrios, cada palavra um corte profundo em seu coração já ferido.

Ao avistar uma criança brincando, seu rosto iluminou-se. Aproximou-se do garotinho, seu sorriso doce e gentil refletindo a vulnerabilidade que sentia.

— Oi! — disse Freya, sua voz suave, como uma melodia que tentava romper a tensão ao seu redor.

— Oi! — respondeu o garotinho, seus olhos brilhando com inocência e alegria.

Mas, de repente, a mãe da criança, com um olhar de desprezo que cortava como uma lâmina, se aproximou e exclamou:

— Filho, entre! — a ordem saiu de seus lábios como um grito, carregado de reprovação.

Freya sentiu um frio na barriga, como se o mundo ao seu redor tivesse escurecido. O sorriso que antes iluminava seu rosto desapareceu, substituído por um peso de tristeza. Ela observou a criança correr para dentro de casa, e a dor da rejeição a atingiu com força. Ali estava a confirmação de que não era bem-vinda naquele lugar, um intruso em um mundo que nunca a aceitaria.

Continuando sua caminhada, os sussurros persistiam, como se as vozes do vilarejo a seguissem, cada frase um novo golpe:

— É verdade que ela é humana? — questionou um homem a outro, a incredulidade em seu tom.

— Dizem que ela encantou o Alfa... — sussurrou uma mulher, o tom cheio de desdém.

As palavras ecoavam em sua mente, cada uma mais pesada que a anterior. A ideia de ser vista como uma estranha, uma ameaça, a consumia por dentro. Com o coração pesado, Freya decidiu que já era hora de voltar para casa. Não havia espaço para ela ali, entre aqueles olhares e comentários que a tornavam um alvo.

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Comments

Ana Lúcia De Oliveira

Ana Lúcia De Oliveira

Muito triste qualquer tipo de preconceito 😞 fere, dói demais

2025-02-14

0

Fátima Ramos

Fátima Ramos

Coitadinha rejeitada pelos lobos e humanos

2025-02-07

0

Josilda Maria

Josilda Maria

Babaca rejeitando ela ,

2025-03-24

0

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